Humanidades

Status social pesa mais que dinheiro absoluto na felicidade, aponta estudo com 109 países
Análise com mais de 600 mil entrevistas mostra que posição relativa na renda explica melhor o bem-estar do que o valor recebido; efeito é menor onde há maior capital social
Por Laercio Damasceno - 20/02/2026


Domínio público


A velha pergunta — dinheiro traz felicidade? — ganhou uma resposta mais nuançada e global. Um estudo publicado nesta sexta-feira (20), na revista Nature Communications, conclui que o que mais importa para o bem-estar subjetivo não é o valor absoluto da renda, mas a posição que cada indivíduo ocupa na hierarquia de rendimentos dentro de seu país.

Com base em dados do Gallup World Poll de 109 nações e mais de 600 mil entrevistas ao longo de uma década (2013–2024), os pesquisadores testaram diferentes formas de medir a relação entre renda e felicidade. O resultado foi consistente: em cerca de 80% dos países analisados, a posição relativa na distribuição de renda — o chamado “income rank” — esteve mais fortemente associada ao bem-estar do que a renda absoluta ou medidas de “privação relativa”.

“Encontramos evidências claras de que é o status social associado à posição na distribuição de renda — e não a distância monetária em si — que está ligado ao bem-estar”, afirma Edika Quispe-Torreblanca, da Universidade de Leeds, autora principal do estudo.

Comparação social, não distância monetária

A pesquisa confronta duas explicações clássicas. A primeira sustenta que as pessoas sofrem quando estão economicamente distantes dos mais ricos — a chamada privação relativa. A segunda propõe que o que pesa é o lugar ocupado no ranking, independentemente de quão grande seja a diferença em valores.

Para distinguir as hipóteses, os autores desenvolveram um modelo estatístico que permite testar, de forma aninhada, se as pessoas dão mais peso à “distância” em renda ou simplesmente ao número de indivíduos acima e abaixo delas na escala.

O resultado favoreceu a segunda alternativa. Na maioria dos países e anos analisados, o modelo mais simples — baseado apenas no ranking — apresentou melhor ajuste estatístico do que os modelos que incorporavam o tamanho das diferenças salariais.

“Os dados sugerem que as pessoas contam quantos estão acima e abaixo delas, mas não necessariamente o quanto ganham a mais”, diz Jan-Emmanuel De Neve, da Universidade de Oxford, coautor do estudo.

Renda absoluta perde força quando comparada

Quando analisadas separadamente, tanto a renda absoluta quanto o ranking mostraram associação positiva com a avaliação da própria vida (em escala de 0 a 10). Mas, ao serem incluídas juntas no mesmo modelo estatístico, a renda absoluta perdeu significância na maior parte das análises.

Segundo os autores, mover-se da base ao topo da distribuição de renda está associado a um aumento próximo de 1 ponto na escala de satisfação com a vida — efeito considerado substantivo. Para comparação, o impacto é superior ao de possuir diploma universitário e maior que a diferença média entre estar empregado e desempregado.

O padrão se repetiu também para medidas afetivas, como emoções positivas (alegria, riso) e negativas (tristeza, estresse), bem como para expectativas sobre o futuro.

Capital social amortece efeito do ranking

O estudo identificou ainda importantes fatores moderadores. Em países com maior capital social — medido por engajamento cívico, confiança nas instituições e apoio comunitário — o peso da posição na renda sobre o bem-estar é significativamente menor.

Quando o índice de engajamento cívico passa do valor mínimo ao máximo observado na amostra, o efeito do ranking sobre a satisfação com a vida diminui cerca de 80%.

“Em sociedades mais coesas, o status individual pode ser menos determinante porque o pertencimento ao grupo e as redes de apoio social oferecem outras fontes de reconhecimento”, afirma Gordon D. A. Brown, da Universidade de Warwick.

Por outro lado, em países com valores mais materialistas — onde segurança econômica e sucesso financeiro são prioridades culturais — o efeito do ranking mais que triplica.

Os resultados dialogam com um debate crescente sobre bem-estar como meta de política pública. Se o que mais importa é a posição relativa — e não apenas o aumento geral da renda — políticas focadas exclusivamente no crescimento econômico agregado podem ter efeito limitado sobre a felicidade média da população.

Domínio público

A interpretação, no entanto, exige cautela. O estudo é observacional e não estabelece causalidade. É possível, por exemplo, que pessoas mais satisfeitas tenham maior probabilidade de alcançar melhores posições de renda.

Ainda assim, os autores argumentam que compreender o “formato” da relação entre renda e bem-estar já é relevante para o desenho de políticas.

“A renda continua sendo importante. Mas nossos resultados sugerem que o status social associado à renda — e o contexto social em que ela é percebida — desempenha um papel central”, afirmam.


Em um mundo marcado por desigualdades persistentes e intensa exposição a comparações sociais — agora amplificadas por redes digitais — a conclusão ecoa além da estatística: mais do que quanto se ganha, pode importar onde se está na fila.


Referência
Quispe-Torreblanca, E., De Neve, JE. & Brown, GDA. Status social e a relação entre nível de renda e bem-estar em 109 nações. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-69729-x

 

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