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Lobo-guará pode ser muito mais simbólico que na nota de R$ 200
Estudo da Unicamp e da Unesp aponta que a fauna vai passar por uma savanização, com animais do Cerrado chegando a regiões de animais de floresta
Por Luiz Sugimoto - 01/12/2020

O leitor que ainda não pegou na mão uma nota de R$ 200 talvez tenha mais chance de ver não a estampa, mas o lobo-guará ao vivo, em área urbana ou beira de rodovia, como em casos noticiados na mídia – na madrugada do dia 19, a câmera flagrou um deles correndo por um shopping em Jataí (GO). “Na verdade, este é um efeito da perda de habitat. As espécies têm cada vez menos habitat disponível e, quando ocorrem queimadas ou desmatamento para a construção de um condomínio, por exemplo, esses animais fogem e alguns acabam indo em direção às cidades. Os lobos-guarás não estão se tornando mais comuns, só estão sem ter para onde ir”, afirma o professor Mathias Mistretta Pires, do Departamento de Biologia Animal do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp.

Estudos têm mostrado que as mudanças climáticas, o desmatamento e as queimadas estão provocando uma “savanização” da vegetação em várias regiões da Amazônia e da Mata Atlântica. Em artigo recente coordenado por Mathias Pires e publicado na Global Change Biology, um dos mais importantes periódicos sobre mudanças climáticas, os autores alertam que a fauna também vai passar por esta savanização, com animais do Cerrado, como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira, migrando e disputando áreas com animais de floresta. “A savanização é a substituição da floresta por ambientes mais abertos, com menos árvores e vegetação mais baixa. Isso já está acontecendo, especialmente porque as árvores maiores são mais sensíveis ao clima seco e os períodos de seca estão mais intensos e frequentes. Além disso, o desmatamento acelera esse processo.”

Segundo Pires, no estudo foram combinados dados sobre a distribuição de 349 espécies de mamíferos na América do Sul, com a utilização de modelos computacionais para fazer projeções sobre mudanças desta distribuição no futuro. “Trabalhamos com modelos e projeções para o futuro, mas já há registros que estão de acordo com essas projeções, como lobos-guarás aparecendo com frequência em áreas onde não são comuns, como de Mata Atlântica, e espécies de tatus e roedores típicos de áreas abertas ocorrendo cada vez mais além das bordas da Amazônia, em direção a florestas. Nossos modelos sugerem que isso deve se tornar cada vez mais comum.”

O professor da Unicamp explica que as condições adequadas para os animais florestais, por outro lado, vêm diminuindo devido ao desmatamento e devem diminuir ainda mais com as mudanças no clima. “Com isso, a distribuição dessas espécies da floresta vai ficando cada vez menor, restringindo-as ao que chamamos de refúgios ambientais. Já os animais de Cerrado também têm perdido muito da sua área de distribuição original, pois se trata de um dos biomas mais ameaçados pela expansão da agropecuária. E, de acordo com nossas projeções, outras regiões que hoje possuem floresta devem se tornar mais propícias para essas espécies de savana – o que não significa que elas vão ser beneficiadas, já que precisarão colonizar essas novas áreas, sem garantia de que conseguirão acessá-las e ali estabelecer populações.”

Macaco é um bugio-ruivo (Alouatta guariba) típico da mata atlântica

Perda de biodiversidade

A bióloga Lilian Patrícia Sales, pós-doutoranda em Ecologia na Unicamp, é a autora principal do artigo na Global Change Biology, que teve ainda a colaboração do professor Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro. “Os animais da floresta serão os mais prejudicados pela savanização, pois além de perderem habitat pelas mudanças no clima, ambiente e vegetação, enfrentarão a competição com os animais do Cerrado. Porém, devemos ressaltar que apenas alguns animais de savana, os chamados generalistas, conseguirão ocupar as florestas degradadas e savanizadas e, ainda assim, dependerão de caminhos ou conexões entre os ambientes. No geral, o que esperamos é uma perda de biodiversidade.”

O estudo traz uma lista de 219 animais especialistas em habitats florestais que devem sofrer reduções em sua distribuição, incluindo primatas da Amazônia e da Mata Atlântica, bem como esquilos e roedores que dependem de árvores ou ambientes mais fechados. Os primatas, por exemplo, raramente descem ao chão e precisam das árvores para se deslocar ou se abrigar, além de consumirem frutos que são mais abundantes em florestas. Já as espécies de savana, segundo as projeções, aumentarão sua distribuição de 11% a 30% até o final deste século e se espalharão pelas florestas amazônicas e as matas atlânticas. O foco da pesquisa são os mamíferos, mas já há indícios de pássaros e répteis vivenciando o mesmo fenômeno.

Se a savanização da floresta tropical ainda é tratada como um “risco”, Lilian Sales atenta para evidências preocupantes de que isso já está ocorrendo, principalmente para a vegetação amazônica do denominado Arco do Desmatamento (região que abrange o sudoeste e oeste do Pará, sul do Amazonas, até o oeste do Acre). Contudo, na opinião da bióloga, mais urgente que procurar reverter o processo de savanização é incentivar ações individuais e implantar políticas de mitigação das mudanças climáticas, como o uso de técnicas agrícolas que não incluam o fogo e o combate ao desmatamento.

O estudo também considera o efeito do desmatamento na locomoção dos animais de uma região para outra, como das espécies de floresta, incapazes de transpor uma plantação de cana ou soja para colonizar outros ambientes adequados a elas. Um ponto importante, acrescenta Lílian Sales, é a manutenção (e criação) de corredores florestais que permitam a expansão destes animais para outras manchas florestais, a fim de que não fiquem limitados aos refúgios.

Sem tais providências, conforme os autores do artigo, pode haver modificações em grande escala na distribuição territorial da biodiversidade do continente sul-americano até 2100. Para o professor Mathias Pires, independente das projeções que vão até o final do século, existe um processo contínuo de mudança nos ambientes naturais, que já está em curso e que deve se tornar mais evidente e ocorrer em região cada vez maior à medida que o tempo passa. “Seriam necessárias medidas de contenção do desmatamento e de mitigação das mudanças climáticas para reverter este cenário, mas as políticas públicas estão indo no sentido oposto.”

Registros de lobo-guará na Amazônia

Pesquisadores de Mato Grosso, Amazonas e Rondônia listaram 22 registros do lobo-guará na Amazônia nos últimos 25 anos, sendo dez registros inéditos, o que expande o limite da distribuição geográfica da espécie em 51.000 quilômetros quadrados. O bioma amazônico é considerado o limite norte para a ocorrência do lobo-guará e esta expansão territorial é atribuída à transformação da floresta úmida em monocultura de grãos, além da crescente presença humana em suas regiões originais, expondo a espécie ao risco de atropelamento, doenças e conflitos com fazendeiros.

Pesquisadores de Mato Grosso, Amazonas e Rondônia listaram 22 registros do lobo-guará
na Amazônia nos últimos 25 anos, sendo dez registros inéditos, o que expande o limite
da distribuição geográfica da espécie em 51.000 quilômetros quadrados
Pesquisadores listaram 22 registros do lobo-guará na Amazônia nos últimos 25 anos,
sendo dez registros inéditos, o que expande o limite da distribuição geográfica
da espécie em 51 mil quilômetros quadrados

O estudo abordando a expansão do bioma do Cerrado sobre o amazônico foi publicado no periódico Environmental Science and Policy e repercutido pela coluna Notícias da Floresta, com base em reportagem da agência Mongabay Brasil. Mamífero típico e maior canídeo das savanas da América do Sul, o lobo-guará, que estampa desde setembro deste ano a nota de 200 reais, é classificado como espécie “quase ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) e “vulnerável” pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Os pesquisadores estimam que não há ainda populações de lobo-guará efetivamente estabelecidas na Amazônia, apenas ocorrências pontuais, principalmente em áreas desmatadas que estão se transformando em pasto. Já na Mata Atlântica, existem populações estabelecidas como no Parque Nacional do Itatiaia, entre Rio de Janeiro e Minas gerais, e no Vale do Paraíba, entre São Paulo e Minas Gerais. É estimada uma população de 24 mil indivíduos no Brasil, com apenas 4% vivendo em ambientes conservados.

 

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