Opinião

Década cada vez mais perdida na economia brasileira e comparações internacionais
Os últimos sete anos (2020, inclusive) foram desastrosos do ponto de vista de crescimento econômico, pelo somatório dos três fatores (forte recessão, recuperação lenta e gradual e coronavírus)
Por Marcel Balassiano - 05/07/2020



O Brasil passou por uma profunda recessão entre 2014 e 2016, de acordo com o Codace, o período com o pior biênio de crescimento econômico dos últimos 120 anos. Após isto, a recuperação no triênio posterior foi lenta e gradual. Ocorreram alguns choques negativos nesses anos, como a greve dos caminhoneiros em 2018; e Brumadinho, crise argentina e incerteza internacional, com a guerra comercial entre EUA e China, em 2019,[1] que tiraram alguns pontos percentuais do crescimento brasileiro. Mas, independente desses choques, o crescimento foi bastante fraco. As perspectivas para 2020 eram positivas, de uma retomada um pouco mais forte da economia brasileira, com o PIB crescendo por volta de 2,0% neste ano.[2] Porém, este cenário era anterior ao coronavírus. Com esta crise de saúde, que tem impactos na economia, a recessão no Brasil e no mundo será forte em 2020. As expectativas de mercado, segundo o boletim Focus, indicam uma queda de 6,5% da atividade econômica brasileira neste ano, número próximo da projeção do IBRE (-6,4%).

No final do ano passado, a economia brasileira estava 3,3% abaixo do pico pré-recessão, no 1T14. A maior perda acumulada, sempre em comparação com o pico pré-recessão 2014-16, foi no final de 2016 (-8,1%), no final da recessão. Com a recuperação lenta e gradual da economia brasileira, essa perda foi diminuindo em 2017, 2018 até chegar em -3,3% em 2019. Com a queda do PIB no 1T20 em relação ao 4T19, a perda acumulada aumentou para 4,8%, mudando a trajetória de redução do gap. Ou seja, antes de nos recuperarmos totalmente da recessão 2014-16, chegou a recessão de 2020, aumentando ainda mais esta perda. Para o 2T20, as perdas acumuladas podem chegar a 16%, ou até mais.

O começo da “década perdida atual” apresentou uma taxa média de crescimento de 3,0% a.a., entre 2011 e 2013. A partir de 2014 que a economia entrou neste processo de enfraquecimento presente até os dias de hoje. Diante deste quadro, os últimos sete anos (2020, inclusive) foram desastrosos do ponto de vista de crescimento econômico, pelo somatório dos três fatores (forte recessão, recuperação lenta e gradual e coronavírus). Ao se calcular uma média móvel de sete anos (MM7A), o período 2014-2020 é (está sendo) o pior, em termos de crescimento econômico, desde o início dos anos 1900, com uma queda média de 1,3% a.a. neste período.

A década atual (2011-2020) foi (está sendo) a pior década em termos de crescimento econômico dos últimos 120 anos, pior do que os anos 1980, conhecidos como “década perdida”[3] (Gráfico 1). No cenário anterior à crise do coronavírus, o crescimento médio da década atual seria de 0,8% ao ano.[4] Com a recessão de 2020, a década vai ficar estagnada, podendo até ter taxas negativas. Segundo as expectativas de mercado para o PIB de 2020 (-6,5%), a taxa média real de crescimento do PIB da década já está no território negativo (-0,1%). Ao se considerar as últimas (junho/20) projeções do FMI (-9,1%), a média da década atual passaria para -0,3% a.a..[5]   



Um grande debate que já ocorreu, inclusive no Blog do IBRE,[6] foi sobre as origens da recessão 2014/16, se foi mais influenciada por fatores internos, principalmente relacionados à chamada “Nova Matriz Econômica”, ou por questões internacionais. Na minha opinião, os fatores domésticos tiveram um peso maior na recessão brasileira do que fatores externos.[7] Assim como a recuperação posterior, lenta e gradual, também ocorreu principalmente por problemas internos, tanto conjunturais como estruturais. Por outro lado, a recessão deste ano será uma recessão mundial, fruto de uma pandemia que se fez presente em praticamente o mundo inteiro. E, incertezas locais também fazem com que a recessão brasileira fique mais grave ainda.

Numa comparação internacional da década atual (2011-20), utilizando as projeções de junho deste ano do FMI para os agregados (mundo, economias emergentes e América Latina e Caribe), e a Focus para o Brasil, observa-se que nesse período, enquanto o mundo cresceu, em média, quase 3,0% a.a., puxado principalmente pelas economias emergentes[8] (grupo que o Brasil faz parte), com um crescimento médio de 4,0%, o Brasil ficou com uma década estagnada e levemente negativa. A taxa média real de crescimento da AL é baixa também, mas 0,5 p.p. superior ao Brasil.[9] Porém, é importante frisar que esse desempenho fraco da AL é muito influenciado pelos resultados do Brasil, dado que o país é o principal componente do grupo. O peso[10] da economia brasileira na economia latino-americana é de 34,5% na década.


A Tabela 1 mostra as taxas médias reais de crescimento para o PIB[11] e o PIB per capita na década atual para alguns países selecionados da América Latina (Chile, Colômbia, México e Peru) e com outras economias emergentes, que compõe o BRICS junto com o Brasil (Rússia, Índia, China e África do Sul). O desempenho do Brasil foi pior do que todos os nove países, tanto em relação ao PIB quanto ao PIB per capita. Na Tabela 1, também há a diferença entre as taxas de crescimento dos países e do Brasil, bem como a média da AL ex-Brasil (média de Chile, Colômbia, México e Peru), e a média BRICS ex-Brasil (Rússia, Índia, China e África do Sul). Em média, durante a década atual, o PIB dos países selecionados da AL cresceu 2,4 p.p. acima do PIB do Brasil. Já os países do grupo dos BRICS cresceram 3,4 p.p. a mais do que o Brasil. Já sobre o PIB per capita, as diferenças foram de 2,0 p.p. e 3,5 p.p. respectivamente para os países da AL e BRICS.

A pior consequência deste período de fraqueza da atividade econômica no Brasil é o alto desemprego e a situação do mercado de trabalho, com dezenas de milhões de brasileiros numa situação mais vulnerável do mercado de trabalho (quase 70 milhões, antes da crise do coronavírus). No contexto atual, a incerteza brasileira está bastante alta,[12] em função das crises de saúde, econômica e também política, o que contribui para a década a ser cada vez “mais perdida”. Diminuir as incertezas e voltar a agenda de reformas no pós-crise vai ser fundamental no processo de retomada da economia, para reduzir as perdas acumuladas das duas recessões (2014-16 e 2020) da década atual e diminuir os gaps com o resto do mundo.

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es), não refletindo necessariamente a posição institucional do maisconhecer.com


Marcel Balassiano
Economista da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE). Mestre em Economia Empresarial e Finanças pela EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE)

 

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