Saúde

Incidaªncia de Covid-19 no futebol paulista supera as mais altas do mundo, indica estudo
Pesquisadores analisaram quase 30 mil testes de RT-PCR realizados em 4.269 atletas ao longo de 2020 e 11,7% tiveram resultado positivo osa­ndice equivalente ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente
Por Karina Toledo - 31/03/2021


Doma­nio paºblico

Estudo conduzido na USP revela que a incidaªncia de infecção pelo novo coronava­rus entre os atletas da Federação Paulista de Futebol durante a temporada de 2020 foi de 11,7% osum a­ndice equivalente ao de profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate a  pandemia.

Para chegar a esse número, os autores analisaram retrospectivamente quase 30 mil testes de RT-PCR aplicados em 4.269 atletas ao longo de oito torneios, sendo seis masculinos (Taa§a Paulista, Sub-23, Sub-20 e as três divisaµes do Campeonato Paulista) e dois femininos (Campeonato Paulista e Sub-17). Ao todo, 501 exames confirmaram a presença do SARS-CoV-2. Tambanãm foram analisados 2.231 testes feitos em integrantes das equipes de apoio (profissionais da saúde, comissão técnica, dirigentes, roupeiros etc.) e 161 deram positivo, ou seja, 7%.

“a‰ uma taxa de ataque bem superior a  observada em outrospaíses. Na liga dinamarquesa de futebol, por exemplo, foram quatro resultados positivos entre 748 atletas testados [0,5%]. Na Bundesliga [da Alemanha], foram oito casos entre 1.702 jogadores[0,6%]. Mesmo no Catar, onde háum risco moderado de transmissão comunita¡ria, o número foi menor do que o nosso: 24 positivos entre 549 avaliados [4%]. Comparados aos outros casos de que se tem registro, portanto, nossos jogadores se infectaram entre três e 24 vezes mais”, conta a  Agência FAPESP Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e coordenador da pesquisa.

No artigo, que ainda estãoem processo de revisão por pares, os autores afirmam que os números provavelmente estãosubestimados. O grupo teve acesso a  base de dados do laboratório comissionado pela Federação Paulista de Futebol para testar os atletas. No entanto, os jogadores de times que disputaram torneios nacionais tiveram a opção de fazer os testes em laboratórios comissionados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Esses resultados, portanto, não entraram na análise.

De qualquer modo, os dados de Sa£o Paulo indicam que o va­rus afetou igualmente os homens e mulheres avaliados. Já quando se comparam os resultados dos atletas e dos membros do staff, nota-se que a taxa de ataque foi maior no primeiro grupo. Poranãm, os casos graves foram mais frequentes no segundo grupo, que tem uma média de idade mais alta e condições de saúde mais heterogaªneas.

“Esse éum dado que preocupa. Os poucos casos graves osentre eles um que evoluiu para a³bito osforam registrados entre os integrantes do staff. Embora nossos dados sinalizem que os atletas tendem a desenvolver apenas sintomas leves ou mesmo serem assintoma¡ticos, eles podem atuar como vetor de transmissão para a comunidade. Em geral, são indivíduos com uma vida social muito ativa”, afirma Gualano.

O pesquisador ressalta que a pola­tica que prevaª o rastreio de contactantes nunca foi implementada no Brasil e, portanto, não épossí­vel mensurar o impacto das infecções secunda¡rias provocadas pelos jogadores em seus domica­lios ou ca­rculos sociais.

Onde estãoo risco

Devido a s medidas de distanciamento social implementadas no Estado Sa£o Paulo em mara§o de 2020, as partidas de futebol foram suspensas temporariamente e retomadas no dia 14 de junho. Para minimizar o risco de transmissão da COVID-19, o Comitaª Manãdico da Federação Paulista de Futebol criou um protocolo que prevaª testagem frequente dos atletas e equipes de apoio, isolamento de infectados, rastreio de contactantes (dentro do ambiente esportivo) e uma sanãrie de medidas de higiene.

“Os casos apareceram toda vez que houve fuga do protocolo”, afirma Moisanãs Cohen, presidente do Comitaª Manãdico. “a‰ um ambiente controlado, onde os riscos são monitorados e minimizados, dentro do possí­vel, fazendo testes a cada dois ou três dias. Para aqueles que saem [da concentração] e voltam os testes são dia¡rios. Tambanãm implementamos rastreamento de contatos em caso de RT-PCR positivo e todos os cuidados de proteção, como EPI [equipamento de proteção individual] e a¡lcool gel”, explica.

Segundo Gualano, de fato o risco de transmissão do va­rus durante as partidas tem se mostrado pequeno. Mas háoutros fatores que comprometem a eficácia do protocolo, que o professor da FM-USP considera tecnicamente adequado.

“Funcionaria se fosse aplicado na Dinamarca ou na Alemanha. Conta-se muito com o bom senso dos atletas, que são orientados a ir do Centro de Treinamento para casa e a manter o distanciamento social e as medidas não farmacola³gicas de proteção nas horas de descanso. Mas aqui no Brasil uma boa parcela não segue essas regras e não sofre qualquer tipo de punição. Além disso, viaja-se muito para disputar as partidas. Os times menores va£o de a´nibus, comem em restaurantes e ficam provavelmente mais expostos do que os jogadores de elite. Nossa desigualdade social permeia também o futebol”, diz Gualano.

O estudo evidencia que alguns times foram bem mais afetados. Um deles chegou a registrar 36 casos positivos, sendo 31 em um aºnico maªs. Sete times tiveram mais de 20 casos confirmados e 19 registraram dez ou mais casos. Para Cohen, todos os surtos são consequaªncias de quebra do protocolo.

Gualano vaª com grande preocupação o fato de o Campeonato Paulista ter sido retomado na cidade fluminense de Volta Redonda duas semanas após os jogos terem sido suspensos no Estado de Sa£o Paulo, em 11 de mara§o, diante do recrudescimento da pandemia e da emergaªncia de variantes virais mais agressivas.

“Enquanto a transmissão da COVID-19 não for mitigada, qualquer setor que reabra representa um risco elevado de conta¡gio. A única alternativa segura seria isolar completamente o futebol dentro de uma bolha, como fez a NBA [Associação Nacional de Basquete, dos Estados Unidos], a um custo de US$ 170 milhões. Ou fecha ou isola”, defende o professor da FM-USP.

A pesquisa foi realizada no a¢mbito da coaliza£o Esporte-COVID-19, formada por pesquisadores do Hospital das Cla­nicas (FM-USP), Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital do Coração (HCor), Complexo Hospitalar de Nitera³i, Universidade Federal de Sa£o Paulo (Unifesp), Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e Naºcleo de Alto Rendimento Esportivo, com o apoio da Federação Paulista de Futebol. O consãorcio tem o objetivo de acompanhar as possa­veis consequaªncias de longo prazo da COVID-19 em jogadores de futebol e outros atletas de elite.

Além de Gualano e Cohen, dois bolsistas de doutorado da FAPESP assinam o artigo: Ana Janãssica Pinto e atalo Ribeiro Lemes.

 

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