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Matemateca da USP recebe prêmio por mais de 20 anos de divulgação da matemática
Prêmio da Sociedade Brasileira de Matemática reconhece projeto que utiliza objetos interativos, jogos e experiências para aproximar crianças, estudantes e professores da matemática
Por Gabriel Maciel e Raquel Sampaio - 22/08/2026


Eduardo Colli, diretor da Matemateca, recebeu a premiação de Jaqueline Mesquita e Leandro de Lima, presidente e diretor da SBM, respectivamente, durante solenidade realizada na XII Bienal de Matemática – Foto: Luis Baeta

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Há mais de duas décadas, a Matemateca, projeto do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME) da USP, aproxima diferentes públicos da matemática por meio de objetos interativos, jogos e experiências sensoriais. Esse legado foi reconhecido pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), que concedeu à iniciativa o primeiro Prêmio de Divulgação Matemática. O professor Eduardo Colli, diretor da Matemateca, recebeu a premiação das mãos de Jaqueline Mesquita e Leandro de Lima, presidente e diretor da SBM, respectivamente, durante solenidade realizada na XII Bienal de Matemática, ocorrida no início de agosto, em Natal (RN). 

Para o docente, a premiação representa o reconhecimento de uma jornada que começou antes mesmo da criação da Matemateca. “Lembro de mencionar, já no meu concurso para professor do IME no ano 2000, que desejava criar um espaço para que estudantes do ensino médio pudessem visitar e ter acesso a materiais para fazer experimentos. Comecei a trabalhar nisso, tentando construir algumas coisas que naquela época eram bem rudimentares”, recorda. 

Criado em 2003, o projeto transformou um acervo inicialmente pensado como apoio ao ensino de graduação em uma iniciativa de divulgação que hoje recebe escolas, participa de exposições e contribui para a formação de estudantes. A Matemateca integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento: Inteligência Artificial para Matemática e Aprendizagem Inovadora (CCD IAMAI) e teve entre suas inspirações o Cité des Sciences, o museu de ciências de Paris. Em 2002, o museu apresentou uma mostra itinerante na USP com objetos matemáticos produzidos no Brasil a partir de modelos e conceitos desenvolvidos originalmente  pela instituição francesa. A iniciativa mobilizou professores que já se interessavam pela divulgação da matemática, entre eles Eduardo Colli e a professora Deborah Raphael, que desde então atua como vice-diretora da Matemateca.

Em 2003, o IME conquistou um financiamento da USP para reequipar laboratórios, dando início à construção do acervo da Matemateca. “A gente só tinha laboratórios de computador, não aqueles didáticos, como Química ou Biologia têm. Então aproveitamos essa oportunidade e usamos esse financiamento para criar os materiais”, afirma o diretor da Matemateca. A primeira exposição ocorreu ainda em 2004, durante a Semana da Licenciatura na USP. 

Pouco depois, a Matemateca passou a circular em outros locais, como na Bienal da SBM e em encontros de museus de ciência. Em um desses eventos,  realizado no Rio de Janeiro em parceria com o projeto Estação Ciência, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, a professora Deborah Raphael se deparou com crianças e adolescentes. “Eu lembro de ver aquele monte de crianças se aproximando, até senti uma apreensão, porque, naquela época, a gente nunca tinha lidado com esse público”, conta. 

Mas a preocupação logo deu lugar à descoberta e a equipe do projeto passou a criar perguntas e formas de interagir a partir dos objetos, resultando em uma participação ativa das crianças. “Naquele momento me dei conta do potencial que, até então, não estávamos enxergando. Foram os objetos que mostraram que podíamos alcançar mais gente do que estávamos imaginando”, rememora Deborah.

Entre os destaques do acervo estão o jogo da velha tridimensional, que amplia a estratégia do jogo tradicional para três dimensões; a rampa tautócrona, em que bolinhas soltas de diferentes alturas percorrem trajetórias distintas, mas chegam simultaneamente ao ponto mais baixo; e o balancinho, dispositivo que produz desenhos a partir de movimentos oscilatórios e permite explorar relações entre matemática e física. 

Segundo o diretor da Matemateca, mais do que representar visualmente os  conceitos matemáticos, os objetos são pensados para provocar uma descoberta. “Nós temos esse desejo de materializar as ideias matemáticas com objetos físicos, mas também prestamos atenção no público para ver qual a sua reação imediata. Nesse tempo, o objeto tem que falar por si, tem que instigar, trazer alguma surpresa relacionada ao conteúdo matemático. Essa é uma preocupação constante, e temos aprendido muito com isso.

Rampa tautócrona é um dos materiais que mais cativam a atenção dos visitantes – Foto: Site da Matemateca
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Matemateca em ação

Parte do acervo da Matemateca está instalada em um espaço de circulação do IME-USP, onde os visitantes podem explorar os objetos. O local também oferece visitas agendadas, em uma atividade gratuita para escolas públicas. Além disso, o projeto circula em eventos nacionais e internacionais e promove  exposições voltadas principalmente principalmente para atender à demanda espontânea das escolas.

Por trás dessa rotina de visitas, há o trabalho de uma equipe composta de muitas pessoas, entre elas a funcionária Paixão Saldanha, que desde 2019 cuida das questões administrativas do projeto, como organizar o Centro de Ensino, atender às consultas e orientar escolas sobre o agendamento das visitas. Ela também apoia os mediadores, acompanha a organização do acervo e colabora com levantamentos e relatórios.

Segundo Paixão, o contato constante com os visitantes permite que ela conheça o impacto que os objetos provocam em quem participa das experiências. “O que chama muito a atenção é a surpresa e admiração das pessoas com os resultados apresentados nos experimentos. Muitas vezes, o visitante imagina algo, mas ao final da experiência é surpreendido. Por isso, é muito gratificante acompanhar o trabalho da Matemateca, ver o encanto e a curiosidade das crianças”, diz.
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A atividade também funciona como um espaço de formação para os próprios estudantes da USP, que participam da organização, mediação e gerenciamento das exposições. “Nós trabalhamos bastante com os alunos de graduação, tanto como bolsistas quanto como projeto de extensão.  E agora, com a extensão incorporada aos currículos da graduação, essa participação se fortaleceu ainda mais”, destaca Eduardo.

A estudante Beatriz Andreucci, do terceiro ano da Licenciatura em Matemática do IME-USP, conheceu a Matemateca nos primeiros dias de faculdade. “Já fiquei impressionada com o projeto assim que tive contato com a exposição de peças no saguão. É muito incomum encontrar projetos de divulgação de matemática que consigam atrair o interesse de crianças e adolescentes com tanta facilidade”, ressalta.

Beatriz integra a equipe do projeto desde março de 2026, quando concorreu ao edital do Programa de Iniciação e Aperfeiçoamento na Docência (PROIAD). Ela supervisiona os mediadores que participam da Matemateca e a recepção das escolas que visitam o IME-USP. “Meu foco principal nas visitas é garantir que a escola está sendo bem atendida pelos mediadores, que os alunos tenham liberdade de interagir com as peças e que a experiência seja otimizada para todos. Além disso, junto com a equipe, tento garantir o cuidado, a preservação e a organização da exposição”, explica.

Visita da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo ao acervo da Matemateca, em 2024 – Foto: Site da Matemateca
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Impactando a educação

A experiência também tem repercussões na forma como os estudantes enxergam o ensino da matemática. Para Beatriz, o contato com os recursos da Matemateca ampliou suas possibilidades como futura professora. “Quando eu trabalhava em salas de aula, era muito comum sentir certa impotência sobre essa visão ruim que os alunos têm da disciplina. Eu nem sempre conseguia convencê-los de que não é um bicho de sete cabeças. Mas agora, que eu conheço os recursos da Matemateca, sei que posso reproduzi-los dentro de sala de aula e isso me faz uma profissional melhor.”

Esta também é a visão da estudante Ana Clara Corrêa, do segundo ano da Licenciatura em Matemática, que ingressou no projeto em setembro de 2025, inicialmente por meio do Programa Unificado de Bolsas (PUB). Em março deste ano, quando foi contemplada com a bolsa do PROIAD, passou a atuar diretamente  com a exposição. “Eu consigo propor discussões, acompanho as crianças nas visitas, entendo como professores podem adaptar os brinquedos em sala de aula e produzo pesquisas sobre a educação”, explica.

O contato com a produção dos jogos e com as diferentes possibilidades de exploração dos objetos também ampliou sua própria compreensão sobre a matemática: “Aprendi muitas teorias, entendi a matemática de outras maneiras e, principalmente, vislumbrei formas muito diferentes de ensinar, que são extremamente eficazes”, detalha.

Exposição com materiais da Matemateca – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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História construída a muitas mãos

Mais de duas décadas de trabalho também jogam luz sobre um acervo não apenas físico, mas simbólico, construído a partir de experimentações, revisões e aprendizados. Segundo o professor Eduardo, ao longo desse percurso, alguns objetos foram incorporados, outros deixaram de ser expostos e muitas experiências ajudaram a definir os caminhos do projeto. “É uma longa jornada, e é muito gratificante ter esse reconhecimento da SBM, ainda mais sendo a primeira edição do prêmio”, avalia. 

E para quem acompanhou a Matemateca desde os seus primeiros anos, o reconhecimento também remete às muitas pessoas que ajudaram a construir o projeto. Deborah Raphael destaca a participação de colegas, estudantes e colaboradores que contribuíram para transformar a ideia inicial em uma iniciativa consolidada de divulgação matemática. “Fico orgulhosa do trabalho, agradecida não só pelo reconhecimento da Sociedade Brasileira de Matemática, mas também pelas muitas pessoas que deram uma força, ajudaram, fizeram junto.  Fico feliz em olhar para trás. É um ânimo e tanto”,  finaliza. 

 

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