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Martin Baron, sobre sua vida, seu chamado e a importa¢ncia de esclarecer
O editor do Washington Post, orador da graduaa§a£o, em Harvard de 2020, responde a perguntas em vez de fazer
Por Christina Pazzanese - 26/05/2020

BBC

A revista Esquire perguntou em uma matéria de capa de 2015: “Martin Baron éo melhor editor de nota­cias de todos os tempos?” O fato de a pergunta poder ser feita com credibilidade diz muito sobre a estatura de Baron no jornalismo americano. Praticamente todos os repa³rteres e editores que já trabalharam para ele em Miami, Boston e agora em DC, onde éeditor executivo do The Washington Post, lhe dira£o o seguinte: ele éinteligente, exigente, destemido, motivado e tem um inabala¡vel senso de integridade.

Suas redações ganharam 16 prêmios Pulitzer, incluindo honras por descobrir a vigila¢ncia secreta da Agência de Segurança Nacional dos cidada£os americanos, encontrar padraµes surpreendentes em vitimas fatais de tiros policiais em todo opaís em 2015, investigando a interferaªncia russa nas eleições presidenciais de 2016 e descobrindo décadas de  abuso sexual por padres cata³licos a criana§as. e encobrimentos pela arquidiocese de Boston, revelações que provocaram um acerto de contas global para a igreja.

Baron, que échamado de "Marty" na vida cotidiana, seráo principal orador em homenagem a  classe Harvard de 2020 na quinta-feira, 28 de maio, a s 11 horas. Antes de seu enderea§o on-line, ele forneceu informações, publicadas agora pelo MaisConhecer, recapitulando seus 44 anos carreira e explicou por que um bom jornalismo éde vital importa¢ncia.

Perguntas e Respostas
Martin Baron


Como éum dia ta­pico para vocaª? Vocaª estãode plantão 24/7? Vocaª pode desligar o telefone?

Estou praticamente de serviço 24 horas por dia, apesar de dormir, felizmente. Levanto-me a s 5:45 da manha£, normalmente, verifico imediatamente quais são as nota­cias em nosso site, bem como nas nota­cias de alguns dos concorrentes. Eu olho para alguns dos alertas que talvez tenham chegado da noite para o dia, qualquer e-mail que possa ter chegado sobre questões que precisam ser abordadas. E então, ao longo da manha£, estou lendo nossas próprias histórias, bem como outras publicações. Normalmente, chego ao escrita³rio por volta das 8h30, a menos que tome um caféda manha£ ou algo assim. Temos nossa primeira reunia£o matinal a s 9h30, nossa primeira reunia£o de imprensa. Falamos sobre o que já foi publicado em nosso site, o que serápublicado ao longo da manha£ e no final do dia. Falamos sobre o que diferentes chefes de departamento estãolana§ando para a primeira pa¡gina do jornal. E então, o resto do dia, atécerca das 16 horas, são reuniaµes com funciona¡rios, assuntos pessoais, lendo histórias que estãoagendadas para publicação, conhecendo pessoas fora do escrita³rio e conhecendo pessoas do lado comercial da nossa organização. . a€s 4 horas, temos nossa reunia£o da tarde e falamos sobre o que provavelmente serápublicado em nosso site ao longo do final da tarde e da noite. Vamos dar uma olhada nos planos da pa¡gina um que foram elaborados. As pessoas tem a oportunidade de comentar e falar sobre o que estãotrabalhando no dia seguinte. E as nota­cias, éclaro, estãosurgindo ao longo do dia e da noite para o dia, e por isso estamos lidando com isso a  medida que se desenvolve. 

Vamos voltar um pouco. Vocaª sabia na adolescaªncia que queria uma carreira no jornalismo. Por quaª? O que vocêachou do trabalho nessa idade?

Quando vocêéjovem, não tem ideia do que estãoenvolvido nessas carreiras. Mas meus pais, como imigrantes [de Israel], estavam profundamente interessados ​​no que estava acontecendo no mundo e no que estava acontecendo nestepaís para o qual haviam chegado. Por isso, ta­nhamos o ha¡bito de ler e ver as nota­cias em casa. Meus pais recebiam o jornal dia¡rio, o jornal da cidade, o Tampa Tribune, que não existe mais. Eles assistiam ao noticia¡rio noturno, normalmente, "The Huntley-Brinkley Report" na NBC, e depois assistiam ao noticia¡rio local. Eles também recebiam a revista Time toda semana. Portanto, havia uma cultura de interesse nos assuntos paºblicos e que satisfazia esse interesse lendo o jornal e ouvindo as nota­cias. Estou confiante de que foi assim que me interessei. Eu mesmo fui um leitor bastante voraz e, por isso, fiquei interessado. Essa era uma maneira de se envolver com assuntos paºblicos. Comecei a trabalhar no jornal do ensino manãdio e depois trabalhei no jornal da faculdade. Durante a faculdade, trabalhei três veraµes como estagia¡rio no jornal da minha cidade natal. E quando saa­ da faculdade, imediatamente comecei a trabalhar no Miami Herald.

Vocaª se formou na Universidade de Lehigh com um diploma conjunto BA / MBA. Vocaª estava genuinamente interessado nos nega³cios ou foi mais um substituto, talvez para satisfazer seus pais?

Parcialmente foi. Estava bastante confiante de que eles tinham em mente algo a mais para mim. Minha ma£e me perguntava repetidamente, mesmo depois que eu entrei na profissão, se eu não queria pensar em ir para a faculdade de direito porque muitos dos meus amigos haviam estudado direito. Eu disse a ela que estava muito interessada na lei, mas que não estava interessada em passar o tempo inteiro nisso. Gosto da gratificação imediata e relativamente a curto prazo de produzir uma história, editar uma história e ver os resultados em um prazo bastante curto. Mas meus pais estavam bem com isso. Quando saa­ da faculdade, não tinha certeza absoluta de que iria para o jornalismo. Eu pensei que talvez quisesse entrar no jornalismo, mas também pensei que, se decidisse entrar nos nega³cios, seria útil ter o MBA na anãpoca, por incra­vel que parea§a, que estava se tornando mais especializado, então achei que seria realmente útil se eu tivesse experiência em nega³cios. Se eu não tivesse entrado no jornalismo? Eu poderia ter estudado direito, ter entrado nos nega³cios. Eu realmente nunca pensei em mais nada.

Depois da faculdade, vocêcomeçou no Miami Herald. O que eles fizeram designaram a vocaª?

Eles me designaram para um escrita³rio de duas pessoas em uma pequena cidade chamada Stuart, na Fla³rida. Na anãpoca, havia 12.000 pessoas em toda a cidade e 50.000 em todo o munica­pio. Ela se estendia da costa atéo lago Okeechobee, mas a maioria das pessoas estava na costa e, em direção ao lago, havia muitos trabalhadores migrantes. Nãohavia muitas histórias gigantescas la¡. Ta­nhamos que preencher uma pa¡gina todos os dias, seis dias por semana, e tirar nossas próprias fotografias, para que fosse uma rotina. Alguanãm que estava se candidatando a um emprego la¡ me ligou quando ele estava tentando tomar uma decisão sobre a vinda. E ele me perguntou o que eu fazia no meu tempo livre, e eu disse a ele que lavava a roupa. [Risos.] Ele não aceitou o emprego. Depois disso, eles não deixaram mais ninguanãm me ligar. Foi um começo. Era tudo o que eu procurava. Eu estava procurando um emprego remunerado e consegui um por US $ 200 por semana.

Todos os jornais que vocêliderou ganharam vários prêmios, incluindo os prêmios Pulitzer. Qual éa chave para entregar consistentemente jornalismo premiado?

Eu acho que sempre devemos perguntar: qual éa verdade aqui? O que não sabemos? E não apenas o que nós, como organização de nota­cias, devemos saber, mas o que o paºblico deve saber? E quando hádaºvidas sobre qual éa verdade, estamos determinados a descobrir e persistir nesses esforços. E éisso que tentamos fazer. Foi o que fizemos em Boston. A questãoera a seguinte: o pra³prio cardeal [Bernard Law] sabia dos abusos cometidos por um padre em particular e ainda o transferiu de para³quia para para³quia? Isso era emblema¡tico de um padrãode encobrimento de clanãrigos que se envolveram em abuso sexual? E assim comea§amos a tentar responder a essa pergunta. Em Miami, no ano de 2000, em meio a  eleição presidencial, não se sabia quem havia vencido no estado da Fla³rida. Era Al Gore ou George W. Bush? E enquanto a Suprema Corte da Fla³rida ordenou uma recontagem, a Suprema Corte dos EUA ordenou que não houvesse recontagem. Por isso, tentamos descobrir quem realmente prevaleceu naquela eleição. Felizmente, de acordo com a lei de registros paºblicos da Fla³rida, ta­nhamos o direito de analisar todas as canãdulas. Por isso, fomos a todos os 67 condados da Fla³rida e analisamos todas as canãdulas lascadas, acompanhadas por uma grande empresa de contabilidade, que fazia sua própria contagem.

Redação do Washington Post depois de receber o Praªmio Pulitzer de 2016 para a
National Reporting. Em 2016, o Washington Post comemorou seu
Praªmio Pulitzer de Reportagem Nacional por sua iniciativa
reveladora de criar e usar um banco de dados nacional para
ilustrar com que frequência e por que a pola­cia dispara
para matar e quem émais prova¡vel que as vitimas sejam.
Foto AP / Manuel Balce Ceneta

Em 2017, o Post adotou o slogan "A democracia morre na escurida£o". Traªs anos depois, a  medida que muitos departamentos e funções do governo federal se tornaram politizados, a democracia ainda morre na escurida£o ou estãoexpirando ao ar livre, a  luz do dia?

Bem, éuma boa pergunta. A propa³sito, ainda não estamos preparados para mudar o lema. [Risos.] O que esse lema realmente estãoalcana§ando éque énosso trabalho revelar o que estãoacontecendo dentro do governo e em particular dentro de instituições poderosas, e que, se não estivermos fazendo isso, éimprova¡vel que a democracia prospere. Nosso trabalho étrazer transparaªncia, trazer luz ao governo e a  influaªncia que instituições e indivíduos poderosos exercem sobre nossas vidas. a‰ verdade. Eu acho que háum ataque a s nossas instituições democra¡ticas e a s normas democra¡ticas. Isso éprofundamente preocupante. Muito do que poderia ter acontecido nos bastidores no passado agora estãoocorrendo em campo aberto. Mas ainda hámuita coisa acontecendo nos bastidores. E assim, nosso trabalho écobrir e cobrir bem,

A indústria fez um bom trabalho se defendendo contra ataques, explicando o que éjornalismo e o que não anã, ou promovendo como a sociedade se beneficia do jornalismo? Vocaª acha que deixar o trabalho falar por si éum erro em retrospectiva, dado onde estamos agora?

Acho que fizemos um trabalho terra­vel como indaºstria, nos explicando. No passado, sentimos como: "Oh, o trabalho falara¡ por si". Mas, embora o trabalho deva falar por si, não fala. E, portanto, acho que, ao longo de muitos anos, o paºblico passou a considerar o trabalho do jornalismo garantido. Chegaram a pensar que uma democracia pode existir sem uma imprensa vigorosa, livre e independente. E a realidade éque não pode. Fizemos um panãssimo trabalho ao explicar a importa¢ncia da imprensa livre e independente para nossa democracia, nosso sistema de governo em geral, nossas comunidades. O que acontece quando vocênão tem uma impressora? Podemos ver isso agora em grande parte dopaís onde jornais que historicamente tem sido o principal fornecedor de nota­cias sobre comunidades, muitos desses jornais agora estãomorrendo e desaparecendo ou estãosendo despojados tanto que dificilmente tem recursos jornala­sticos disponí­veis para fazer o jornalismo verdadeiro e as coisas não são descobertas. Os pola­ticos sabem que não estãosendo cobertos. Eles sabem que podem se safar de coisas que não teriam anteriormente. Quando o paºblico não estãoinformado, ésusceta­vel a  manipulação. E acho que a imprensa fez um panãssimo trabalho ao explicar por que énecessa¡rio e qual a sua contribuição para o nossopaís e para as nossas comunidades. ésusceta­vel a  manipulação. 

As pessoas dizem que vocêéum excelente porta-voz da profissão. Como vocêse sente sobre esse manto?

Nãoéalgo que eu esperava para mim, certamente não éalgo que eu procurei. Isso meio que aconteceu. Um pouco antes, quando eu estava em Boston, por causa da investigação da igreja, mas particularmente agora no ambiente atual, acho importante que alguém se levante e fale com os princa­pios de nossa profissão e com as prática s de nossa profissão, e ajude a explicar quem nossomos e o que estamos tentando realizar. E não hámuitos de nospor perto para fazer isso, então eu acho que involuntariamente me inscrevi nisso. Eu não tenho vergonha disso. Eu não procurei. Mas acho incrivelmente importante e éuma das coisas mais importantes que posso fazer. Espero que tenha algum impacto.

“Acho que fizemos um trabalho terra­vel como indústria na explicação de nosmesmos. No passado, sentimos como 'Oh, o trabalho falara¡ por si'. Mas, embora o trabalho deva falar por si, não fala. ”


Vocaª já pensou em se aposentar? Quando vocêsabera¡ que estãopronto para seguir em frente?

Eu acho que sempre estarei envolvido no jornalismo de uma maneira ou de outra. A questãoése estou dirigindo uma grande redação e por quanto tempo quero fazer isso. Nãopretendo me retirar e me tornar um eremita. Ainda vou estar envolvido de uma maneira ou de outra - pelo menos espero estar. Mas eu tenho que pensar sobre isso. Eu não tomei nenhuma decisão. Tenho 65 anos. Faa§o isso hámuito tempo. Estou no ramo há44 anos e sou um dos principais editores há20 anos. Esses são trabalhos exaustivos. Existem muitas pressaµes e elas não oferecem muitas oportunidades para vocêrelaxar e relaxar. E isso éalgo em que preciso pensar.

Esta entrevista foi editada para maior clareza e duração.