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Os militares no poder e seus equívocos
Opúsculo do acervo do CEDEM denuncia a política como instrumento de exclusão
Por CEDEM/Unesp - 05/03/2021


Reprodução

“O Brasil é, hoje, um país tutelado pelos militares. Em toda parte faz-se sentir a presença dos generais, almirantes, brigadeiros e outras patentes menores que mandam e desmandam nas mais importantes esferas da vida social”.

O parágrafo acima parece ter sido escrito neste momento em que o país está sendo governado por um capitão. Mas foi produzido há 49 anos, durante a ditadura instaurada em 1964. O escrito é parte do opúsculo anônimo intitulado Os militares no poder,  redigido em 1972, com base em informações extraídas de edições do Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã, entre outros jornais e revistas em circulação em 1969, 1970 e 1971.

O material trata dos militares nas administrações federal, estadual, nas empresas públicas e nas companhias particulares. Abaixo será feita uma comparação entre a maneira de governar dos homens de farda no passado e no presente. Além do corporativismo, a pesquisa expõe o ideário da superioridade militar em relação aos demais membros da sociedade. Mostra a suposição de que podem resolver os problemas nacionais sem a participação civil.

Assim, o folheto revela que os “[...] oficiais das três Armas detêm em suas mãos quase todos os postos da administração pública. De governo militar em governo militar, os homens oriundos da caserna vão estendendo seu controle sobre o aparelho de Estado [...].”

Imbuídos de uma ideia supremacista, os militares demonstram dar pouca importância para as dificuldades por que passam os cidadãos mais vulneráveis. Não pode ser apenas coincidência a carestia dos gêneros alimentícios, entre outros produtos, observada atualmente e nos governos militares do passado. A inflação da vida cotidiana, que não aparece nos índices oficiais, tem relação com a política econômica que exclui das prioridades a criação de empregos e o bem-estar social.

O folheto Os militares no poder registrou:  “[...] A carestia de vida cresce sem cessar. Os próprios dados falsificados do governo admitem este fato, aliás sabido de todo o povo [...]”. O opúsculo continua a denúncia: “[...] Nem as calamidades públicas, que constituem tragédia para as populações pobres, deixam de servir para a criação de cargos para os militares. O Grupo Especial de Assistência às Calamidades Públicas, subordinado ao Ministério do Interior, tem como coordenador o general Luiz Mendes da Silva [...]”.

A calamidade pública do momento, a pandemia pelo novo coronavírus, está sob a responsabilidade do Ministério da Saúde, comandada por um militar, o general Eduardo Pazuello, duramente criticado por sua trágica atuação à frente da pasta. Segundo a BBC News, de 4 de fevereiro deste 2021, “[...] mais de 20 militares passaram a ocupar posições-chave no ministério [da Saúde], com cargos de direção em secretarias, subsecretarias e departamentos [...]”.

O opúsculo também cita a presença de militares nas empresas estatais. Assim como na ditadura de 1964, no governo do capitão Jair Bolsonaro, sem partido, os militares estão presentes em diversos postos dessas organizações. O folheto cita “[...] Quando tomaram o Poder, em 1964, uma das primeiras medidas dos militares foi liquidar o maior número possível de empresas estatais. Transformaram muitas delas em empresas de economia mista ou as venderam. Numerosos são os militares que ocupam postos em diversas empresas. São cargos bem remunerados, além dos altos salários, os diretores recebem variadas gratificações, como nas firmas privadas [...]”.

Na atualidade, segundo publicou a colunista do UOL, Constança Resende, em 17 de julho de 2020, “[...] O número de militares da ativa e da reserva em cargos civis mais que dobrou no governo de Jair Bolsonaro, em comparação com o último ano da gestão de Michel Temer (MDB). De acordo com um levantamento feito pelo TCU (Tribunal de Contas da União), já são 6.157 militares nesta situação, em comparação com 2.765, em 2018. Eles ocupam cargos em conselhos de estatais, na alta administração do Poder Executivo, cargos comissionados, temporários e na administração Pública [...]”.

Mais recentemente, o presidente Jair Bolsonaro indicou para a presidência da Petrobras o general Joaquim Silva e Luna, em substituição a Roberto Castello Branco. Importante lembrar que o presidente do Conselho de Administração da  petroleira é um almirante de esquadra da reserva. 

Os Militares no poder é um documento que aponta o equívoco de ter uma classe corporativista no comando de uma nação. A política é um instrumento de poder que pode ser exercida de modo a produzir resultados que beneficiem a toda a sociedade e não somente a um grupo.

Este e outros opúsculos integram o Fundo Astrojildo Pereira, custodiado no Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp.

Onde pesquisar:

CEDEM
On-line: www.cedem.unesp.br
Presencial: Sede do Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp
Praça da Sé, 108, 1 andar – São Paulo (SP)
E-mail: pesquisa@cedem.unesp.br
Tel.: 11-31161701

 

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