Heloisa Buarque de Almeida e Tânia Vaisberg apontam mudanças sociais, maior autonomia feminina e crítica ao ideal romantizado de ser mãe

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Mães Arrependidas: Uma Outra Visão da Maternidade. Esse é o nome do livro da socióloga israelense Orna Donath, no qual ela fala sobre o arrependimento de muitas mães, que preferem manter segredo. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, as mulheres nos Estados Unidos tinham, em média, 1,70 filhos em 2019. Já no Reino Unido, essa taxa é de 1,65 e, na Alemanha, 1,54. Dentro desse cenário de crescimento populacional mundial e brasileiro, há mulheres que não desejam a maternidade e não querem fazer parte desses índices. De acordo com a professora Heloisa Buarque de Almeida, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ainda existe uma forte cobrança social para que mulheres casadas ou em união tenham filhos, reforçando a ideia de que a maternidade faz parte de um destino feminino inevitável. “Esse imaginário social cria a expectativa de que formar uma família está necessariamente ligado a ter filhos, o que desconsidera escolhas individuais.”

Heloisa Buarque de Almeida – Foto: Revista Espaço Aberto – USP
Segundo a professora, “muitas mulheres que optam por não ser mães apresentam uma vida profissional mais organizada ou reconhecem não ter disposição emocional para a dedicação exigida pela maternidade, que demanda paciência, renúncias e cuidado constante com o outro”. Apesar de ainda existir uma valorização hegemônica da maternidade, a especialista destaca que grupos sociais vêm questionando essa obrigatoriedade e revendo a ideia de que ser mãe é condição essencial para a realização feminina. Ela também aponta que “há uma diferença significativa entre o ideal romantizado da maternidade e sua realidade cotidiana, que envolve responsabilidades intensas e, muitas vezes, a abdicação de projetos pessoais”.
A professora ressalta, ainda, que “a pressão para que mulheres se casem e tenham filhos funciona como uma forma de controle social, ao enxergá-las prioritariamente como parte da família e não como sujeitos de direito, capazes de decidir livremente sobre seus próprios corpos e trajetórias. Nesse sentido, a maternidade deixa de ser apenas uma escolha e passa a ser uma imposição cultural”.
Lucidez e liberdade

Tania Vaisberg – Foto: Arquivo pessoal
A psicóloga Tânia Vaisberg, professora sênior do Instituto de Psicologia (IP) da USP, afirma que “o aumento da lucidez e da liberdade feminina também contribui para a decisão de não ter filhos. Essa lucidez está relacionada à percepção de que o cuidado com as crianças ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, que acabam sobrecarregadas e frequentemente responsabilizadas por qualquer dificuldade enfrentada pelos filhos”. Além disso, a psicóloga destaca que duas figuras presentes no imaginário social, a mulher sem filhos frustrada e a mãe plena e completamente realizada, são mitos. Existem múltiplas formas de construir uma vida significativa, assim como a maternidade não é, necessariamente, um caminho de realização plena e sem dificuldades.
No caso de mulheres que se tornam mães sem que a maternidade tenha sido desejada ou planejada, a psicóloga ressalta a importância do acompanhamento psicoterapêutico. “Esse apoio é fundamental tanto para o bem-estar da mulher quanto para a proteção emocional da criança, já que a forma como esse fato é elaborado e comunicado pode impactar profundamente o desenvolvimento psíquico infantil.”