Humanidades

Reação à não binariedade diz mais sobre poder do que sobre identidade, defende pesquisadora
Pesquisa em Administração propõe reflexão sobre o papel da norma binária na manutenção de desigualdades de gênero dentro de empresas e espaços de trabalho; assunto será tema de disciplina
Por Silvana Salles - 30/01/2026


Para pesquisadora, o mercado de trabalho serve como laboratório para observar as relações de poder que permeiam a sociedade – Foto: The Gender Spectrum Collection


As pessoas que se identificam como não binárias correspondem a 1,19% da população brasileira, segundo uma estimativa publicada em 2021. Essa minoria formada por cerca de 2,4 milhões de pessoas enfrenta uma série de obstáculos no mercado de trabalho, que vão desde pequenas violências cotidianas ao cenário de uma taxa de desemprego três vezes maior do que aquela verificada entre pessoas cisgêneras.

Pessoas não binárias são aquelas que não se identificam plenamente nem com o gênero masculino, nem com o feminino – nem como homens, nem como mulheres. Partindo dessa vivência, Akira Aikyo Galvão propôs em sua tese de doutorado deslocar a não binariedade de categoria de identidade para categoria de análise, a fim de questionar a naturalização da dicotomia “homem” e “mulher”, “masculino” e “feminino”. O deslocamento possibilitou desenvolver uma profunda crítica às relações de poder no mundo do trabalho. Os resultados foram apresentados no dia 15 de janeiro ao Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP.

Com a defesa, Akira se tornou a primeira pessoa trans a se doutorar pela FEA desde sua fundação, há 80 anos, e a primeira pessoa trans não binária doutora em Administração no Brasil. “A provocação que eu trago é justamente pensar a não binariedade para além da identidade, que seria como as categorias binárias que estão instituídas na sociedade promovem impacto na vida não só de pessoas não binárias e de pessoas trans, mas também de pessoas cisgêneras, pessoas binárias. A própria desigualdade entre homens cisgêneros e mulheres cisgêneras é um exemplo disso”, explica a pesquisadora.

Em sua pesquisa, Akira se apoiou no conceito de “dispositivo” usado pelo filósofo francês Michel Foucault para investigar as relações de poder que atravessam percursos profissionais, organizações e a sociedade brasileira como um todo, a partir de um olhar sobre gênero. A pesquisadora observa que figuras masculinas seguem no centro do poder na política, nas empresas e em outros espaços de tomada de decisão. Enquanto isso, pessoas distantes da identidade hegemônica do homem branco cisgênero frequentemente enfrentam situações de descrédito e desprestígio quanto às suas habilidades e trabalhos.

“Eu digo que o mercado de trabalho é um laboratório ao vivo para a gente analisar essas estruturas de poder. A diferença salarial é um grande exemplo disso”, afirma a pesquisadora.


O abismo salarial entre homens e mulheres, bem como a sub-representação delas em cargos decisórios são fatos bem conhecidos pelos estudos de gênero e pelos estudos organizacionais. A novidade da tese de Akira reside em adicionar uma camada a mais de complexidade ao problema, trazendo a não binariedade como um elemento que perturba a naturalização das hierarquias de gênero. “A liderança está associada ao gênero, quase como se aquilo fosse parte do sujeito masculino. Quando, na verdade, isso faz parte de um processo histórico”, explica.

Dicotomia masculino-feminino é construção histórica

Akira Galvão diz que o tema das pessoas não binárias costuma ser encarado como um fenômeno recente e muito ligado às gerações mais jovens, mas que essa visão sobre a não binariedade ignora que as categorias binárias é que foram estranhas aos povos não ocidentais durante os processos de colonização protagonizados pelos europeus. “Quando a gente vai falar sobre igualdade de gênero, se coloca justamente dentro de uma ideia que ainda é muito eurocentrada”, afirma.

Segundo a pesquisadora, os povos originários do Brasil e de outras partes das Américas não usavam a classificação masculino-feminino antes de se depararem com os esforços de catequização dos religiosos católicos. “Em certo sentido, é uma sobreposição de cultura, de tentar tornar civilizado a partir de um entendimento de que a nossa cultura é superior, porque o nosso entendimento sobre gênero, nesse caso, está alinhado com uma ideia de fé, uma ideia divina. Nesse processo, tem quase como uma inquisição de grupos que não correspondem a essa ideia binária”, argumenta Akira. 

Ela menciona também a figura de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti não indígena do Brasil. De origem africana, Xica viveu o contexto da escravidão em Salvador no século 16.

Foto: The Gender Spectrum Collection

Se Xica Manicongo perturbou a normalidade binária dos colonizadores portugueses de então, hoje há muita gente que se incomoda com a provocação que as pessoas não binárias fazem às normas sociais herdadas da colonização. As reações partem de grupos conservadores, femininas trans-excludentes e até mesmo de alguns grupos LGB que rechaçam a participação da letra T na comunidade. Isso ocorre em um cenário de escalada da violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil. De acordo com a última edição do Atlas da Violência, os casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais aumentaram 35% de 2022 para 2023, ao passo que os casos de violência contra pessoas trans e travestis cresceram 43% no mesmo período.

Em resposta a essas violências, Akira propõe em sua tese o conceito de “insurgênero”, que se baseia em conhecimentos de áreas como a antropologia, a psicologia e a educação. O conceito é uma provocação, destinada não a menosprezar a identidade das pessoas que se entendem como homens ou mulheres, mas sim a desestabilizar as relações de poder intimamente ligadas à forma como a sociedade se organiza. Ao mesmo tempo, o insurgênero questiona a produção do conhecimento a partir de categorias binárias, o que ocorre quando o pesquisador age como uma espécie colonizador que rotula povos “bárbaros”.

“Quando eu questiono a binariedade, estou questionando justamente a artificialidade do poder que sustenta essa ideia”, conclui Akira.


Para aprender e refletir junto sobre gênero e poder

Neste semestre, o debate que Akira apresentou à banca examinadora também estará presente em sala de aula na FEA. Ao lado das professoras Silvia Casa Nova, sua orientadora no doutorado, e Antônia Quintão, colaboradora do PPGA, Akira Galvão será uma das ministrantes da disciplina Interseccionalidades em Organizações Diversas.

Esta será a segunda edição da disciplina, que pela primeira vez será oferecida tanto à graduação quanto à pós-graduação. O curso terá formato híbrido, possibilitando também a participação de alunos especiais e ouvintes residentes em qualquer lugar do Brasil. Outra novidade será o lançamento de um e-book escrito em colaboração com as participantes da primeira edição da disciplina.

A inscrição para alunos especiais estará aberta de 2 a 4 de fevereiro pelo site do PPGA. Pessoas interessadas deverão apresentar uma carta de intenções explicando os motivos por que desejam cursar a disciplina, cópia do diploma de graduação, histórico escolar e curriculum vitae ou currículo Lattes. Estudantes regulares da pós-graduação da USP poderão se inscrever durante o período de matrícula em disciplinas. No caso de estudantes de graduação, ainda será possível se inscrever por meio de requerimento.

 

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