Rir antes da piada: estudo revela como o riso antecipa, interrompe e organiza o diálogo humano
Assinado por pesquisadores de universidades da Suécia, França e Reino Unido, o artigo Incremental Processing of Laughter in Interaction analisa mais de 1.300 ocorrências de riso em diálogos reais, em inglês, francês e chinês.

Domínio público
Um estudo internacional publicado nesta quarta-feira, 28, na revista científica Languages lança nova luz sobre um gesto cotidiano que atravessa culturas, idiomas e situações sociais: o riso. Longe de ser apenas uma reação espontânea ao humor, a gargalhada aparece, segundo a pesquisa, como um elemento estrutural da conversa, capaz de antecipar sentidos, interromper frases e sinalizar entendimento mútuo — tudo isso em tempo real.
Assinado por pesquisadores de universidades da Suécia, França e Reino Unido, o artigo Incremental Processing of Laughter in Interaction analisa mais de 1.300 ocorrências de riso em diálogos reais, em inglês, francês e chinês. O trabalho é liderado por Vladislav Maraev, da Universidade de Gotemburgo, em parceria com Arash Eshghi (Heriot-Watt University, Escócia), Chiara Mazzocconi (Aix-Marseille Université) e Christine Howes (Universidade de Gotemburgo).
A principal conclusão é contraintuitiva: em boa parte das conversas, o riso não vem depois daquilo que provoca graça. Ele pode surgir antes, durante ou mesmo interrompendo a fala — e, ainda assim, ser perfeitamente compreendido pelos interlocutores. “O riso funciona como um sinal interacional, comparável a pronomes ou expressões como ‘né?’ e ‘aham’”, escrevem os autores, ao defender que a gargalhada ajuda a construir o sentido do diálogo à medida que ele acontece.
Os números impressionam. Em alguns contextos, o riso chega a ocupar até 17% do tempo total da conversa, como observado em diálogos do corpus francês DUEL. No conjunto dos dados analisados, cerca de 69% das risadas ocorrem após o elemento ‘risível’, mas quase 31% surgem durante ou antes do trecho a que se referem — um dado que desafia a visão clássica, popularizada nos anos 1990 pelo neurocientista Robert Provine, de que o riso respeitaria rigidamente os limites das frases.

Domínio público
Há também diferenças culturais relevantes. Em inglês, aproximadamente 51% dos risos reagem ao que o outro acabou de dizer; em francês, esse índice cai para cerca de 40%; em chinês, para 33%. Já o chinês se destaca pelo volume de risadas que acontecem durante a fala do interlocutor — quase 18%, contra apenas 3% no francês. Para os autores, esses contrastes podem refletir tanto normas sociais distintas quanto diferenças estruturais entre as línguas.
O estudo se apoia em um modelo teórico sofisticado, conhecido como Dynamic Syntax, que descreve a linguagem como um processo incremental — palavra por palavra, gesto por gesto. Nesse enquadramento, o riso é tratado como uma peça gramatical legítima, capaz de “apontar” para algo já dito (olhando para trás) ou para algo que ainda será dito (olhando para frente). “Assim como um pronome precisa de um referente, o riso precisa de um ‘risível’ — mas esse alvo nem sempre está no passado”, explicam os pesquisadores.
O impacto do trabalho vai além da linguística teórica. Compreender o papel do riso em tempo real pode melhorar desde sistemas de inteligência artificial conversacional até tecnologias assistivas, passando por pesquisas em psicologia, neurociência e estudos sobre autismo e interação social. “Se quisermos que máquinas conversem como humanos, elas precisam saber quando rir — e, sobretudo, por quê”, observam os autores.
Num momento em que assistentes virtuais, robôs sociais e interfaces de voz ganham espaço no cotidiano, o estudo sugere que a naturalidade da conversa humana não está apenas nas palavras. Está também nos silêncios, nas interrupções — e nas risadas fora de hora que, paradoxalmente, fazem todo sentido.
Detalhes da publicação
Processamento incremental do riso na interação - Vladislav Maraev, Arash Eshghi, Chiara Mazzocconi e Christine Howes. Línguas - 2026 , 11 (2), 25; https://doi.org/10.3390/languages11020025 - 28 de janeiro de 2026