Humanidades

'Cidade Invisível': artigo discute adaptação audiovisual de mitos tradicionais sob um olhar decolonial
Pesquisador da USP analisa como mitos tradicionais do folclore brasileiro são representados em série da Netflix
Por Weslley Andrade - 03/02/2026


Pesquisador aponta que série da Netflix procurou modernizar figuras tradicionais do folclore brasileiro, como Iara, Cuca, Saci e Curupira  – Foto: Divulgação/Instagram


Cidade Invisível, série da Netflix lançada em 2021, chamou a atenção do público ao propor uma releitura contemporânea dos mitos do folclore brasileiro. Criada por Raphael Draccon e Carolina Munhóz, a série acompanha um policial ambiental que descobre a existência de “entidades” que, longe de estarem confinadas às matas ou às histórias, transitam livremente entre o seu mundo e a cidade. No Brasil, a série foi a mais vista na plataforma de streaming naquele ano e figurou entre as dez mais vistas nos Estados Unidos, França e Espanha, segundo o What’s on Netflix.

Com a intenção de discutir, sob um olhar decolonial, os aspectos do folclore incorporados à série, o pesquisador Claudinei Lopes Junior realizou estudo que resultou no artigo Folclore brasileiro na tela do streaming: uma análise crítica sob o olhar decolonial de Cidade Invisível. Claudinei, que é doutorando em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, fez uma análise qualitativa e exploratória de sequências dramáticas, visando entender como se dá a incorporação dos mitos no audiovisual.

O artigo foi publicado na última edição da revista Novos Olhares, ligada ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da ECA.

Curupira é um dos mitos retratados na série - Foto: Divulgação/Instagram

Uma apresentação contemporânea do folclore brasileiro

Para o pesquisador, o termo “folclore” pode ser entendido como a “maneira pela qual um povo expressa seus sentimentos por meio de símbolos”, sejam artísticos, religiosos ou mesmo padrões de ações, “que são consagrados coletivamente e adaptados para garantir sua sobrevivência”. Claudinei parte de algumas sequências de cenas no primeiro e segundo episódios da primeira temporada da série, que apresentam e desenvolvem personagens que representam mitos tradicionais. Ele avalia as proposições narrativas e temáticas em torno de sua construção e, assim, procura identificar como a obra trabalha, no meio audiovisual, sentimentos e símbolos populares.

O personagem Curupira, por exemplo, é apresentado não diretamente, mas em um flashback de outro personagem: Ciço, interpretado pelo ator José Dumont. Ciço conta ter visto o Curupira agir para proteger o meio ambiente, já que a entidade “só ataca quem destrói as florestas”. Em seu relato, está acompanhado de Antunes, que deseja matar uma coruja, mas é advertido que, na floresta, “só se mata para se alimentar”. Contrariando Ciço, Antunes mata a coruja e, em seguida, é encurralado por uma espécie de fogo andante, que o confunde, além de ser intimidado por gritos.

O pesquisador explica que o Curupira aparecia como um ente temido pelos indígenas já em cartas dos portugueses à monarquia datadas de 1560. As cartas o descrevem como infixo, multiforme e veloz. Além dos característicos pés para trás e cabeleira de fogo, o personagem sempre foi retratado como um protetor das florestas, que é benigno ou maligno a depender do comportamento de quem o avista. Todas essas características são exploradas na série já nas primeiras cenas do personagem.

A representação do Saci, personificado por Isac (Wesley Guimarães) também cobre as características tradicionais do mito, mas com algumas decisões mais disruptivas na construção do personagem, modernizando-o. Isac é um jovem negro que mora em uma ocupação na Lapa, no Rio de Janeiro, um bairro cuja arquitetura rememora o período colonial. Isac tem as duas pernas, porém uma delas é uma prótese e, no lugar do gorro vermelho, usa uma bandana com propriedades mágicas. Já na sequência que introduz o personagem, Isac é confrontado com os “estereótipos” da sua lenda por Luna, uma criança que duvida da forma com que o Saci se apresenta. Em resposta, o homem brinca dizendo que a menina “está assistindo muito desenho animado”.

A escolha dos locais de gravação da série complementam a caracterização dos personagens. “Filmar em locais icônicos com ruas estreitas e arquitetura colonial”, diz Claudinei, “corrobora a criação de uma atmosfera de mistério e de ancestralidade”. Além disso, algumas cenas foram filmadas em áreas de preservação ambiental próximas de Ubatuba, o que sublinha a temática da série, que envolve a relação entre seres míticos e a natureza.

Personagens folclóricos são transpostos para o ambiente urbano contemporâneo - Foto: Divulgação/Instagram

A bandana vermelha substitui o barrete frígio nesta representação do Saci - Foto: Divulgação/Instagram

Uma obra meio decolonial

Para Claudinei, a série Cidade Invisível “rompe com o sistema de pensamento colonial que impõe valores ocidentais universais e muitas vezes silencia as tradições locais”, a partir de algumas decisões na construção de seus personagens. “Ao projetar figuras folclóricas de maneira contemporânea e global”, explica, “a série pode ser vista como um exemplo de uma cultura renovada”, uma tentativa de iluminar as tradições culturais brasileiras excluídas que desafia a hegemonia colonial e propõe “novas formas simbióticas de existência de culturas locais no âmbito global.”

Entretanto, o pesquisador comenta que, mesmo tendo sucesso em modernizar personagens tradicionais, a obra ainda falha em tornar essas representações mais um reflexo da cultura brasileira do que da cultura colonial. Ele ressalta a necessidade de que as produções audiovisuais tenham um cuidado ao lidar com traumas coloniais que ainda hoje seguem como feridas abertas.

“Nosso imaginário social é um retrato do tempo. Contudo, no cenário brasileiro, o que não se vem alterando são as imagens que compõem esse imaginário social. Na verdade, estamos diante apenas de remodelações daquilo que conhecemos por colonialidade, que busca enraizar cada vez mais forte a diferença colonial, inclusive, por processos como a modernidade.”

Claudinei Lopes Junior, pesquisador

Por um lado, o doutorando aponta que, em se tratando de uma obra que aborda o folclore em um viés narrativo, poderia haver mais gravações fora do eixo Rio-São Paulo. Além disso, personagens como Saci, Cuca e Curupira poderiam ter representações mais fidedignas às histórias populares (mais personagens interpretados por pessoas indígenas, por exemplo). Por outro, “a quebra dessas expectativas e a projeção de escolhas mais disruptivas”, diz Claudinei, rompe com a visão “calcada na colonialidade”, que prevê “sempre pares de opostos, como: dominante/dominado, verdadeiro/falso, entre outros.”

Por fim, o pesquisador afirma que adaptações de conteúdos tipicamente populares por grandes plataformas como a Netflix “fazem parte de uma estratégia de transnacionalização de obras originais”. Nela, espera-se que as obras expressem sensibilidades locais ao mesmo tempo em que apelam a questões que transcendem o nacional em prol apenas do lucro, acrescentando mais uma camada de complexidade à análise da obra.

*Do LAC – Laboratório Agência de Comunicação da ECA. Texto original publicado no site da ECA

 

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