Entre o fascínio e o medo: vídeos de IA reprogramam a confiança do público nas redes
Estudo com mais de 11 mil comentários no YouTube mostra que a recepção aos vídeos gerados por inteligência artificial oscila entre o encantamento estético, o humor e uma crescente ansiedade social sobre verdade, trabalho e democracia.

© Getty Images - Roy Rochlin
Por anos, vídeos manipulados digitalmente foram tratados como curiosidades técnicas ou truques de cinema. Em 2025, porém, a inteligência artificial generativa levou essa prática a um novo patamar: qualquer pessoa, com poucos cliques, pode criar cenas hiper-realistas, vozes clonadas e rostos inexistentes. O resultado é um choque cultural ainda em curso — e profundamente ambíguo.
Essa é a principal conclusão de um estudo internacional publicado na revista científica Systems, que analisou 11.418 comentários feitos por usuários do YouTube em vídeos produzidos por ferramentas de IA generativa, como Veo (Google) e Kling..ai. A pesquisa mostra que o público reage de forma simultaneamente entusiasmada e apreensiva: celebra a criatividade e o humor, mas expressa medo de não conseguir mais distinguir o real do falso.
“Não se trata apenas de gostar ou não gostar da tecnologia”, afirma o cientista de dados Levent Çalli, da Universidade de Sakarya, na Turquia, autor principal do estudo. “O que observamos é um sistema complexo de reações emocionais, cognitivas e comportamentais, que revela uma transformação profunda na forma como as pessoas se relacionam com imagens, evidências e confiança digital”.
Do riso ao “vale da estranheza”
Usando técnicas de modelagem de tópicos e análise qualitativa, os pesquisadores mapearam 15 grandes temas recorrentes nos comentários. Um dos mais frequentes gira em torno do chamado uncanny valley — o “vale da estranheza”, conceito clássico da robótica que descreve o desconforto causado por representações quase humanas, mas imperfeitamente realistas.
“É impressionante, mas dá medo”, “parece real demais” ou “algo está errado nesse rosto” são reações comuns, segundo o levantamento. Ao mesmo tempo, vídeos absurdos ou cômicos — como variações infinitas do meme “Will Smith comendo espaguete” — geram engajamento massivo, reforçando o papel da IA como motor da cultura de remix nas redes.
Para Büsra Alma Çalli, coautora do estudo, esse contraste é central. “A mesma tecnologia que provoca riso e admiração também alimenta uma ansiedade difusa. Os usuários oscilam entre brincar com a IA e temer suas consequências”, diz.
Quando a dúvida vira regra
A inquietação cresce quando a discussão deixa o campo estético e avança para o social. Um dos temas mais sensíveis identificados pelo estudo é a perda de confiança em vídeos como prova da realidade. Comentários como “não dá mais para acreditar em nada” ou “em breve não teremos mais evidências visuais” aparecem com frequência, sobretudo em conteúdos ligados a política, notícias e figuras públicas.
Esse fenômeno, descrito pelos autores como “ansiedade epistêmica”, tem implicações diretas para o jornalismo, o sistema judicial e os processos democráticos. Não por acaso, organismos internacionais como a ONU e a União Internacional de Telecomunicações já defendem padrões globais de autenticação, marca d’água digital e rastreabilidade de conteúdos sintéticos — um debate que ecoa nos comentários analisados.
Trabalho, arte e poder das plataformas
O impacto econômico também aparece com força. Usuários discutem se cineastas, músicos, atores e artistas visuais serão substituídos ou forçados a se adaptar. Há quem veja a IA como ferramenta de democratização criativa; outros a encaram como ameaça direta ao emprego e à autoria humana.

Além disso, a pesquisa revela uma desconfiança crescente em relação às grandes plataformas. Restrições geográficas, modelos pagos e controle corporativo da tecnologia alimentam críticas ao poder concentrado de empresas como Google e OpenAI. “A percepção não é apenas sobre a IA, mas sobre quem a controla”, observa Levent Çalli.
Um retrato do presente — e um alerta
Historicamente, novas mídias sempre provocaram pânico moral e deslumbramento — do cinema à televisão, da fotografia ao Photoshop. A diferença agora, argumentam os autores, é a escala e a velocidade. “A IA generativa não altera apenas a produção de imagens, mas o próprio contrato social da verdade visual”, escreve o estudo.
Ao mapear reações espontâneas, fora de pesquisas de opinião ou laboratórios, o trabalho oferece um raro retrato do sentimento público em tempo real. Para os pesquisadores, entender esse mosaico de emoções e crenças é crucial para orientar políticas públicas, regulações e práticas responsáveis no uso da tecnologia.
“O debate não é mais se a IA vai transformar a sociedade”, conclui Çalli. “Ela já transformou. A questão agora é como vamos lidar, coletivamente, com essa nova realidade reprogramada.”
Detalhes da publicação
Recodificando a Realidade: Um Estudo de Caso das Reações do YouTube a Vídeos de IA Generativa - Levent Çalli e Büsra Alma Çallii; https://doi.org/10.3390/systems13100925