Humanidades

Em ambientes de escassez, humanos ajudam mais os outros, mostra estudo
O estudo sugere que os humanos seguem lógica semelhante — inclusive quando a decisão envolve ajudar outra pessoa.
Por Laercio Damasceno - 09/02/2026


Divulgação


Quando as oportunidades são raras, a solidariedade tende a crescer. É o que indica um estudo publicado nesta segunda-feira (9) na revista Nature Communications, que investigou como a qualidade do ambiente influencia decisões de ajuda ao próximo. Em três experimentos independentes, com um total de 510 participantes, pesquisadores observaram que pessoas se mostraram mais dispostas a interromper suas próprias atividades para beneficiar terceiros quando estavam em contextos “pobres” — isto é, com recompensas médias mais baixas — do que em ambientes considerados “ricos”, onde as oportunidades eram melhores.

O trabalho foi conduzido por equipes das universidades de Birmingham, Oxford e East Anglia, no Reino Unido, e dialoga com uma tradição antiga da ecologia comportamental, campo que estuda como animais decidem quando agir diante de custos e benefícios variáveis. Em ambientes abundantes, aves e mamíferos tendem a ser seletivos; em cenários escassos, aceitam opções menos vantajosas. O estudo sugere que os humanos seguem lógica semelhante — inclusive quando a decisão envolve ajudar outra pessoa.

Experimento do cotidiano

Para aproximar o laboratório da vida real, os voluntários assistiam a um filme enquanto surgiam oportunidades de ganhar pontos, convertidos em dinheiro, para si mesmos ou para um desconhecido. Para isso, precisavam interromper o vídeo e realizar uma tarefa física simples. Em ambientes “pobres”, onde as recompensas eram em média menores, os participantes aceitaram mais vezes ajudar o outro — sobretudo quando comparado a ambientes “ricos”, nos quais valia a pena esperar por algo melhor.

No primeiro experimento, com 237 participantes, a chance de agir em benefício de outra pessoa foi significativamente maior em ambientes pobres, com uma razão de chances 49% superior em comparação aos ricos. O padrão se repetiu em um segundo estudo online (219 pessoas) e em um terceiro, presencial, que envolveu esforço físico medido por força de preensão manual.

“Mostramos que a disposição para ajudar não é fixa, mas profundamente dependente do contexto”, afirma Todd A. Vogel, da Universidade de Birmingham, um dos autores do artigo. Segundo ele, “em ambientes onde as oportunidades são piores, o custo de ajudar os outros parece menor”.

Cérebro, empatia e utilitarismo

Modelos computacionais aplicados aos dados revelaram que o cérebro calcula “custos de oportunidade” distintos quando a decisão beneficia a si mesmo ou a outra pessoa. Esses custos caem de forma mais acentuada, no caso da ajuda ao próximo, em ambientes pobres. Além disso, indivíduos com maiores níveis de empatia e crenças utilitaristas — isto é, orientadas a maximizar o bem-estar coletivo — apresentaram menor resistência a interromper suas atividades para ajudar.

Curiosamente, traços psiquiátricos como ansiedade ou depressão não explicaram as diferenças observadas. “Isso sugere que a ajuda em contextos de escassez não está ligada a sofrimento psicológico, mas a mecanismos decisórios básicos e a valores sociais”, diz Patricia L. Lockwood, também da Universidade de Birmingham.

Debate social e implicações

O estudo dialoga com um debate antigo das ciências sociais: pessoas em piores condições econômicas são mais ou menos solidárias? Pesquisas anteriores trouxeram resultados contraditórios. Ao manipular experimentalmente o “ambiente” de decisão, o novo trabalho oferece evidências de que a escassez pode, ao menos em certos contextos, estimular comportamentos pró-sociais.


As conclusões ganham relevância em um mundo marcado por crises econômicas, mudanças climáticas e desigualdade. “Entender quando e por que ajudamos os outros é crucial para pensar políticas públicas, campanhas de doação e estratégias de cooperação social”, afirma Matthew F. S. Rushworth, da Universidade de Oxford.

Os autores ressaltam que ainda é cedo para extrapolar os resultados para contextos macroeconômicos, como pobreza estrutural. Mas defendem que a pesquisa ajuda a explicar por que, em situações adversas, comunidades frequentemente exibem fortes redes de apoio mútuo.

Em tempos de incerteza, o estudo sugere, a escassez não apenas limita escolhas — pode também ampliar a disposição de olhar para o outro.


Referência
Vogel, TA, Priestley, L., Cutler, J. et al. Humanos são mais pró-sociais em ambientes de forrageamento precários. Nat Commun 17, 483 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-66880-9

 

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