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Um estudo publicado na revista científica PLOS One lança um novo olhar sobre a alimentação infantil ao deslocar o foco tradicional do comportamento individual para as práticas sociais que estruturam o comer cotidiano. A pesquisa, conduzida por Sophie Wright-Pedersen, Helen Vidgen e Danielle Gallegos, da Queensland University of Technology, ouviu 42 crianças australianas de 8 a 12 anos e analisou como elas próprias interpretam, negociam e vivenciam suas rotinas alimentares.
Publicada em 27 de janeiro de 2026, a investigação rompe com a literatura predominantemente baseada na visão adulta e médica da alimentação — centrada em risco, obesidade e inadequação nutricional — para adotar a chamada teoria das práticas sociais. Em vez de perguntar por que a criança “erra” ao comer, o estudo examina como significados, materiais (como dinheiro, alimentos e infraestrutura) e competências (saberes e habilidades) se combinam no dia a dia.
Amostra diversa e métodos participativos
Realizada em Brisbane, na Austrália, a pesquisa combinou entrevistas criativas com técnicas de “Photovoice”, em que as próprias crianças registram imagens de suas experiências alimentares. Participaram 42 crianças (média de 9,4 anos; 52% meninas), com diversidade socioeconômica aferida pelo índice local de desvantagem social. Destas, 21 seguiram para a etapa fotográfica.
Segundo as autoras, o objetivo era “privilegiar as vozes infantis” e entender como fatores individuais, familiares e estruturais se entrelaçam nas práticas de planejar, comprar, preparar, consumir e descartar alimentos.
Supermercado como espaço de negociação
Um dos achados centrais foi o papel ativo das crianças nas compras familiares. Embora os pais decidam a maior parte das aquisições, os filhos demonstraram conhecer preços, promoções e até sistemas de rotulagem nutricional. Algumas relataram verificar a classificação por estrelas na embalagem antes de pedir determinado produto — estratégia para aumentar a chance de aprovação.
As crianças também mostraram consciência do contexto econômico mais amplo. Houve menções ao aumento de preços associado à guerra na Ucrânia, à escassez de itens durante enchentes e à necessidade de escolher supermercados mais baratos. “Eles articulam renda familiar, oferta de produtos e até eventos climáticos globais”, observam as pesquisadoras.
Família pesa mais que escola
Embora políticas públicas de alimentação infantil frequentemente priorizem o ambiente escolar, o estudo indica que o lar é o principal cenário das práticas alimentares. A maioria das decisões — da lista de compras ao preparo do jantar — ocorre em interação com pais e irmãos.
No espaço escolar, predominam práticas de consumo (lancheiras e cantina), fortemente influenciadas pelos pares. Ainda assim, a família aparece como referência normativa dominante, inclusive na definição do que é “equilibrado”.
Interessante notar que, ao contrário da retórica alarmista comum em campanhas de saúde, as crianças raramente se percebem como incompetentes para lidar com comida. Ao contrário, relatam saber negociar, ler rótulos, comparar preços e adaptar escolhas às regras parentais.
Significados que vão além da saúde
Outro resultado relevante diz respeito aos significados atribuídos à comida. Questões emocionais e éticas, como o bem-estar animal e o impacto ambiental das embalagens plásticas, apareceram com frequência. Para algumas crianças, argumentos morais tiveram mais impacto sobre suas escolhas do que recomendações nutricionais formais.
“O discurso médico não é o único — nem necessariamente o mais potente — na construção das práticas alimentares infantis”, apontam as autoras. Conceitos como “equilíbrio” surgem de forma flexível, combinando alimentos considerados saudáveis e indulgentes sem a lógica binária típica das campanhas oficiais.
O estudo sugere que intervenções focadas exclusivamente na mudança de comportamento individual podem falhar ao ignorar os arranjos sociais e materiais que sustentam as práticas. Políticas mais eficazes, defendem as pesquisadoras, deveriam integrar a família como núcleo central das estratégias; reconhecer a agência infantil nas decisões alimentares; dialogar com valores que as próprias crianças consideram relevantes (como meio ambiente e justiça); considerar preço e disponibilidade como fatores estruturais decisivos.
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Ao deslocar o debate da culpa individual para as configurações sociais que moldam o comer cotidiano, a pesquisa contribui para uma abordagem menos estigmatizante da alimentação infantil. “Entender como práticas emergem, se mantêm ou desaparecem pode ajudar a construir intervenções mais equitativas e efetivas”, concluem as autoras.
Num cenário global marcado por insegurança alimentar, mudanças climáticas e medicalização crescente da dieta, dar voz às crianças pode ser não apenas um gesto metodológico inovador, mas um passo estratégico para redesenhar políticas públicas com maior legitimidade social.
Referência
Wright-Pedersen S, Vidgen H, Gallegos D (2026) Perspectivas das crianças sobre suas práticas alimentares cotidianas: insights para informar políticas e intervenções. PLoS One 21(1): e0341234. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0341234