Humanidades

Estudo resgata cientistas apagadas pela história e expõe 'efeito Matilda' na ciência
O artigo insere-se na seção de Equidade, Diversidade e Inclusão da revista eLife e aponta que a sub-representação feminina na história da ciência não pode ser explicada apenas por números.
Por Laercio Damasceno - 19/02/2026

Ida Henrietta Hyde


Um artigo publicado em fevereiro, na revista eLife, reacende um debate antigo na comunidade científica: por que contribuições decisivas feitas por mulheres continuam ausentes dos livros de história? No texto, as pesquisadoras Lisa M. Thomann, do Centre de Recherche en Biologie Cellulaire de Montpellier, e Julie Batut, da Université de Toulouse, resgatam as trajetórias de quatro cientistas cujas descobertas moldaram áreas inteiras da biologia, mas foram atribuídas, total ou parcialmente, a colegas homens.

O artigo, intitulado Four women whose pioneering contributions to science have been largely overlooked, insere-se na seção de Equidade, Diversidade e Inclusão da revista e aponta que a sub-representação feminina na história da ciência não pode ser explicada apenas por números. Para as autoras, trata-se também de um padrão sistemático de sub-reconhecimento — o chamado “efeito Matilda”, conceito formulado em 1993 pela historiadora da ciência Margaret W. Rossiter.

Segundo estudo publicado na revista Nature em 2022, citado pelas autoras, parte da desigualdade de gênero na produção científica decorre de falhas na atribuição de crédito às mulheres, cujo trabalho é frequentemente subestimado ou ignorado.

Organizador embrionário antes do Nobel

Entre os casos destacados está o de Ethel Browne Harvey (1885–1965), formada pela Columbia University. Em 1909, ao realizar enxertos em hidras, demonstrou que células transplantadas podiam induzir a formação de um novo eixo corporal — evidência inicial da existência de um “organizador” embrionário.

Ethel Browne Harvey: vida frutífera dedicada à biologia do embrião ...

Quinze anos depois, o fenômeno seria descrito em embriões de tritão por Hilde Mangold e seu orientador, Hans Spemann, na University of Freiburg. Spemann recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1935 pela descoberta do “efeito organizador”. Browne Harvey não foi mencionada.

“Hilde e Ethel foram as primeiras a caracterizar experimentalmente os processos de especificação e determinação do destino celular”, escrevem Thomann e Batut. “É nossa visão que Ethel Browne Harvey deveria ao menos ter compartilhado o prêmio.”


Mangold morreu em 1924, aos 26 anos, pouco após a publicação do trabalho que embasou o Nobel. Em sua conferência, Spemann mencionou a pesquisadora apenas duas vezes.

Microeletrodos e exclusão institucional

Outra pioneira lembrada é Ida Henrietta Hyde (1857–1945), fisiologista responsável por desenvolver um dos primeiros microeletrodos intracelulares capazes de estimular e registrar sinais em células individuais. Formada pela University of Heidelberg — onde foi a primeira mulher a obter um doutorado em fisiologia, em 1896 —, Hyde enfrentou restrições explícitas: não podia frequentar aulas de fisiologia e dependia de anotações de assistentes.

Apesar disso, fundou o Departamento de Fisiologia da Universidade do Kansas e criou iniciativas para apoiar mulheres na pesquisa científica. Seu nome, porém, raramente aparece nos manuais de neurofisiologia.

A trissomia 21 e a disputa por reconhecimento

O caso mais recente envolve Marthe Gautier (1925–2022). Em 1956, no Hospital Trousseau, em Paris, ela montou praticamente sozinha um laboratório de citogenética e identificou que crianças com síndrome de Down possuíam 47 cromossomos — um a mais no par 21.

Sem microscópio fotográfico, contou com a ajuda de Jérôme Lejeune para registrar as lâminas. O artigo publicado em 1959 listou Lejeune como primeiro autor e grafou incorretamente o nome de Gautier. Durante décadas, a descoberta foi amplamente atribuída a ele.

Marthe Gautier (1925-2022) 

Em 2014, um parecer do comitê de ética do Inserm reconheceu formalmente que a descoberta não poderia ter ocorrido sem a contribuição essencial de Gautier e do pediatra Raymond Turpin, classificando como incorreta a ordem de autoria na comunicação inicial à Academia de Ciências.

Inclusão como desafio estrutural

Para Thomann e Batut, o resgate histórico não é apenas simbólico. “Precisamos preencher as lacunas nas diferentes histórias da ciência para destacar a contribuição das mulheres ao que a ciência é hoje”, afirmam. As autoras defendem políticas institucionais que ampliem a diversidade em posições de liderança, evitem painéis exclusivamente masculinos em congressos e ofereçam condições de permanência às pesquisadoras.

Elas concluem com um alerta: “A ciência é mais rica e melhor quando inclui todos.”

Ao trazer à luz trajetórias como as de Browne Harvey, Mangold, Hyde e Gautier, o estudo reforça que o problema não é a ausência de mulheres na história científica, mas a persistência de mecanismos que invisibilizam suas contribuições — ontem e hoje.


Referência
Lisa M ThomannJulie Batut (2026) Equidade, Diversidade e Inclusão: Quatro mulheres cujas contribuições pioneiras para a ciência foram amplamente negligenciadas. eLife 15 :e110644. https://doi.org/10.7554/eLife.110644

 

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