Humanidades

Estudo sugere que transe mediúnico pode ser aprendido sob protocolo estruturado
A pesquisa, conduzida no Institute of Noetic Sciences, na Califórnia, baseia-se em um estudo de caso com uma cientista de 45 anos sem histórico prévio de transe mediúnico.
Por Laercio Damasceno - 21/02/2026


Paciente no laboratório de hipnose -  Reprodução de imagem


Um estudo publicado no Journal of Scientific Exploration relata que um protocolo estruturado de hipnose e indução de experiências fora do corpo pode permitir que indivíduos desenvolvam a habilidade de entrar em transe e “canalizar” supostas entidades não físicas. A pesquisa, conduzida no Institute of Noetic Sciences, na Califórnia, baseia-se em um estudo de caso com uma cientista de 45 anos sem histórico prévio de transe mediúnico.

O artigo, intitulado Can Trance Channeling Be Learned? A Case Study of a Scientist’s Experience, foi liderado por Helane Wahbeh, pesquisadora do instituto. Segundo os autores, a participante — que também é a primeira autora do estudo — passou por seis sessões realizadas entre julho e outubro de 2018, em uma sala eletromagneticamente blindada no campus Earthrise do instituto, em Novato.

Protocolo em quatro etapas

O método foi adaptado a partir de um protocolo desenvolvido pelos pesquisadores italianos Luigi Pederzoli e Patrizio Tressoldi, que haviam descrito anteriormente um processo em quatro fases: indução hipnótica, indução de experiência fora do corpo (OBE, na sigla em inglês), convite ao transe e retorno ao estado ordinário de consciência.

No novo estudo, as seis sessões evoluíram progressivamente da familiarização com a hipnose até a tentativa explícita de canalização. De acordo com o artigo, a participante relatou inicialmente resistência em “deixar o corpo”, descrevendo uma sensação de consciência dividida. Nas sessões finais, afirmou ter conseguido permitir que duas “entidades” distintas se manifestassem por meio de sua voz, com mudanças perceptíveis de entonação e cadência.

“A hipnose mostrou-se uma ferramenta eficaz para guiar experiências fora do corpo, que parecem funcionar como etapa preparatória para o transe”, escrevem Wahbeh e coautoras. O artigo sustenta que a repetição das OBEs teria contribuído para o que a participante descreveu como “afrouxamento do ego” e maior facilidade em permitir a experiência.

Consciência preservada

Um dos pontos destacados pelo estudo é que a participante relatou manter algum grau de consciência durante o transe. Pesquisas anteriores citadas pelas autoras indicam que médiuns ocidentais frequentemente descrevem a experiência como um “afastamento parcial”, e não como perda total de consciência — dado que, segundo o artigo, desafia a ideia de que o transe equivaleria necessariamente a estados dissociativos patológicos.

A literatura revisada menciona ainda estimativas de que entre 10% e 15% da população relata já ter tido experiências fora do corpo, percentual que pode ultrapassar 20% entre estudantes universitários ou pessoas interessadas em fenômenos psíquicos.

Herança e crença

O estudo também discute fatores predisponentes. A participante vem de uma família com histórico de práticas mediúnicas, embora pesquisas formais sobre hereditariedade do transe sejam escassas. As autoras distinguem entre “capacidade” (potencial inato), “habilidade” (expressão natural) e “técnica” (competência desenvolvida com treino), sugerindo que o transe poderia envolver uma combinação desses elementos.

Além disso, o artigo ressalta o papel da crença prévia em fenômenos psi e da abertura a experiências incomuns. “A crença no paranormal é um dos preditores mais consistentes de relatos espontâneos e desempenho em laboratório”, afirmam as pesquisadoras, citando estudos anteriores.

Trata-se, contudo, de um estudo de caso único — formato que, por definição, não permite generalizações estatísticas. As próprias autoras reconhecem a necessidade de pesquisas com amostras maiores e mais diversas, além de investigações com técnicas de neuroimagem para mapear possíveis correlatos cerebrais durante OBEs e estados de transe.

“O trabalho estabelece as bases para examinar a conexão entre experiências fora do corpo e diferentes habilidades psi”, escrevem. Entre as propostas futuras estão estudos que comparem participantes com e sem histórico familiar de mediunidade, bem como análises de variáveis psicológicas, como abertura à experiência e sugestionabilidade hipnótica.

A publicação se insere em um campo que permanece à margem da ciência convencional, mas que mantém tradição histórica e presença cultural ampla. Segundo levantamento citado no artigo, 90% das sociedades estudadas em pesquisa antropológica clássica possuem algum conceito de comunicação com espíritos ou possessão.

Se o transe pode, de fato, ser ensinado de forma sistemática — e se as experiências relatadas refletem processos psicológicos, neurológicos ou algo além deles — continuam sendo perguntas abertas. O estudo recém-publicado não oferece respostas definitivas, mas reacende um debate antigo sob a lente de protocolos laboratoriais contemporâneos.


Referência
Wahbeh, H., Taddeo, S., & Glick, B. (2025). A canalização em transe pode ser aprendida? Um estudo de caso da experiência de um cientista. Journal of Scientific Exploration , 39 (4), 423–449. https://doi.org/10.31275/20253573

 

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