Quando o coração decide: grande meta-análise revela que empatia pesa mais que cálculo na doação a causas sociais
Estudo com quase 75 mil participantes mostra que pessoas dizem valorizar a eficácia das instituições, mas na prática suas decisões de doação são guiadas sobretudo por emoções empáticas.

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Uma das questões mais debatidas nas ciências sociais e na ética contemporânea é simples e profunda: por que as pessoas doam para causas sociais? Será que decisões de caridade são motivadas principalmente por emoções — como empatia diante do sofrimento — ou por cálculos racionais sobre quais ações fazem mais bem ao maior número de pessoas?
Um novo estudo publicado nesta terça-feira (10), na revista Nature Communications, busca responder a essa pergunta com a maior análise já realizada sobre o tema. A pesquisa reúne 416 tamanhos de efeito de 124 estudos, envolvendo 74.797 participantes, para examinar sistematicamente o papel da empatia e da percepção de eficácia nas decisões de doação.
Os resultados sugerem uma conclusão provocadora: as pessoas acreditam agir como altruístas racionais, mas na prática doam como altruístas empáticos.
O trabalho foi conduzido por Matthew J. Hornsey, Jessica L. Spence e Cassandra M. Chapman, pesquisadores da University of Queensland Business School, na Austrália.
“Nosso objetivo foi esclarecer até que ponto a empatia e a percepção de eficácia estão realmente associadas ao ato de doar”, explicam os autores. “Ao reunir centenas de estudos realizados ao longo de décadas, conseguimos separar melhor o sinal do ruído nas evidências existentes.”
A tensão entre emoção e cálculo moral
O debate sobre altruísmo ganhou força nos últimos anos com o crescimento do movimento do altruísmo eficaz, que defende que as doações devem ser guiadas por análises de custo-benefício e impacto social. Segundo essa visão, recursos deveriam ser direcionados às iniciativas capazes de salvar ou melhorar o maior número possível de vidas.
Críticos dessa abordagem, no entanto, argumentam que a empatia — sentir o sofrimento alheio — continua sendo o principal motor das ações solidárias.
Para investigar essa disputa, os pesquisadores conduziram duas meta-análises independentes: uma examinando a relação entre empatia e doações, e outra avaliando o papel da percepção de eficácia das contribuições.
Os dados foram coletados em estudos publicados desde 1980, seguindo o protocolo internacional PRISMA, usado em revisões sistemáticas. A análise incluiu tanto pesquisas correlacionais quanto experimentos comportamentais.
Empatia: um motor robusto da generosidade
A primeira meta-análise revelou uma associação consistente entre empatia e doação.
Em média, empatia apresentou correlação positiva de r = 0,25 com o comportamento de doar, um efeito considerado pequeno a moderado em estudos psicológicos.
Mais importante ainda: experimentos que induziam empatia — por exemplo, ao apresentar histórias emocionais de pessoas em necessidade — aumentavam diretamente as doações.
“Não apenas pessoas empáticas tendem a doar mais, como intervenções que despertam empatia conseguem aumentar a generosidade”, afirmam os autores.
O efeito foi particularmente forte quando a empatia era emocional — sentimentos de compaixão ou simpatia — em comparação com versões mais cognitivas, como simplesmente imaginar a perspectiva do outro.
O “paradoxo da eficácia”
Os resultados sobre eficácia foram mais surpreendentes.
Quando perguntadas diretamente, as pessoas afirmam considerar muito importante que suas doações tenham impacto real. De fato, a percepção de eficácia apresentou correlação de r = 0,34 com a doação, sugerindo relação moderada.
No entanto, quando pesquisadores tentaram manipular experimentalmente a informação sobre eficácia, o efeito praticamente desapareceu.
O tamanho médio do efeito nesses experimentos foi r = 0,03, estatisticamente insignificante.
“Encontramos o que chamamos de paradoxo da eficácia”, escrevem os autores. “As pessoas dizem que a eficácia importa muito, mas fornecer informações sobre eficácia raramente muda suas decisões de doação.”

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Por que o cérebro racional perde para o emocional?
Os pesquisadores sugerem várias explicações possíveis para essa discrepância.
Uma delas é psicológica: as pessoas podem ter pouco insight sobre os verdadeiros motivos de seu comportamento.
Segundo Hornsey e colegas, indivíduos tendem a se ver como racionais e altruístas. Assim, ao explicar suas decisões, podem enfatizar critérios de eficácia — mesmo que emoções tenham desempenhado papel central.
Outra hipótese é que doar funciona mais como expressão de valores pessoais do que como cálculo utilitarista.
“Para muitos doadores, escolher uma instituição pode ser mais parecido com um apreciador escolhendo um restaurante do que com um médico prescrevendo um tratamento”, observam os autores, citando literatura anterior.
Limitações e lacunas globais
Apesar da grande escala do estudo, os pesquisadores reconhecem limitações.
Uma delas é a concentração de estudos em países ocidentais. A maioria dos dados veio de nações classificadas como WEIRD — ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas.
Isso significa que ainda se sabe pouco sobre como esses mecanismos psicológicos funcionam em outras culturas.
Outra limitação é que a maioria dos experimentos ocorre em contextos laboratoriais, o que pode não capturar plenamente a complexidade das decisões reais de doação.
Implicações para organizações e políticas públicas
As conclusões têm implicações práticas importantes.
Campanhas de arrecadação frequentemente enfatizam dados de impacto ou eficiência das instituições. Embora essas informações possam influenciar percepções, elas talvez não sejam suficientes para mudar comportamentos.
Em contraste, narrativas pessoais e histórias emocionais — capazes de gerar empatia — parecem ser ferramentas mais eficazes para mobilizar doações.
Ao mesmo tempo, os autores alertam que a questão não é simplesmente escolher entre emoção e razão.
“O debate sobre altruísmo eficaz não pode ser reduzido a uma comparação simples entre empatia e eficácia”, escrevem. “Mas nossos resultados ajudam a situar esse debate em um contexto empírico mais claro.”
O retrato psicológico do altruísmo
No final, o estudo oferece um retrato complexo da natureza humana.
As pessoas querem acreditar que suas decisões são racionais e orientadas pelo maior impacto possível. Porém, quando confrontadas com a realidade de alguém em sofrimento, o impulso emocional continua sendo o motor mais poderoso da generosidade.
Ou, como resumem os pesquisadores: vemos a nós mesmos como altruístas eficazes — mas agimos como altruístas empáticos.
Referência
Hornsey, MJ, Spence, JL & Chapman, CM. Meta-análises sobre doações para caridade esclarecem evidências de altruísmo empático e eficaz. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70230-8