Humanidades

Documentos sobre escravidão e pós-abolição retratam as dificuldades dos negros para entrar no mercado de trabalho
Projeto de pesquisa coleta dados históricos em fazendas para saber como ocorreu a consolidação do trabalho durante o período da escravidão e pós-abolição no Brasil
Por Marcos Santos - 20/03/2026


Desenho da fazenda Ibicaba, localizada no município de Cordeirópolis – Foto: Cedida pelo pesquisador Bruno Gabriel Witzel de Souza


A escravidão, o baixo crescimento demográfico e alta taxa de mortalidade infantil contribuíram negativamente para a entrada do negro no mercado de trabalho rural, no período pós-abolição. Esses dados são preliminares e constam no projeto de pesquisa Quando o interior conta, que analisa documentos encontrados em sete propriedades rurais e núcleos coloniais, no Estado de São Paulo e na parte fluminense do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro, do final do século 19 até meados do século 20. A iniciativa é coordenada pelos professores Bruno Gabriel Witzel de Souza, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e Thales Augusto Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EESP). “Temos algumas evidências de que existiam fazendas que usavam o trabalhador imigrante e o trabalhador nacional, que potencialmente era um ex-escravizado. Não foi simplesmente um grupo que entrou e outro que saiu, como aprendemos anteriormente”, comenta Thales Augusto.

O pesquisador da FGV-EESP destaca que os dados obtidos com as documentações encontradas são fragmentados. Segundo ele, para montar o quebra-cabeça da real situação de pessoas brancas e negras na sociedade brasileira, no final da escravidão e no pós-abolição, os dados sobre mortalidade infantil no período são uma boa métrica para mostrar as reais condições de vida da população no período. “As taxas de mortalidade, especialmente a infantil, das crianças negras eram absurdamente maiores que as das crianças brancas. Estamos vendo um reflexo do passado, e a pergunta que fazemos é se isso ocorreu pela falta de oportunidade, ou fatores estruturais, por exemplo”, diz o pesquisador.

Para Bruno Gabriel, a função do estudo é verificar diferentes hipóteses que conhecemos sobre a escravidão e o pós-abolição, mas que ainda não foram confirmadas por meio de testes. “Isso vai mudar, naturalmente, as perspectivas que temos sobre a escravidão e o pós-escravidão. Queremos saber, por exemplo, o nível de produtividade de descendentes de italianos e de descendentes de escravizados. Sabemos que a dinâmica do mercado de trabalho era muito mais complexa do que pensávamos anteriormente”, salienta o pesquisador.

Desvantagem histórica

Dois grandes empecilhos da escravidão para o desenvolvimento dos negros foram a barreira da entrada no mercado de trabalho e o aspecto demográfico, pois as famílias negras eram pequenas. “Os negros tinham uma desvantagem histórica por conta da escravidão, e as famílias italianas eram formadas, em média, por seis a sete pessoas e suas crianças, a partir dos 5 ou 7 anos, começavam a ser empregadas nos cafezais. Já as famílias negras eram formadas por três pessoas, em média, e esse era um ponto importante na época”, comenta Bruno. O projeto de pesquisa tem como objetivo de resgatar, preservar e disponibilizar, gratuitamente e on-line, antigos documentos das propriedades. Além disso, a iniciativa busca coletar microdados para estudo da história econômica e social. O objetivo é saber como foi o passado paulista e como ocorreu a consolidação do mercado de trabalho rural livre durante o século 19, período que abrange a escravidão e o pós-abolição, e como ele se desenvolveu ao longo do século 20 , nas décadas de 1950 a 1970.

Financiado pelo programa Modem Endangered Archives, da Biblioteca da Universidade da Califórnia,em Los Angeles (Ucla), nos EUA, que promove a recuperação de arquivos em risco ao redor do mundo, Quando o interior conta é baseado em um projeto anterior de 2019, durante o pós-doutorado de Bruno Gabriel na FEA-USP, com a criação de um arquivo físico e digital da Fazenda Ibicaba, localizada no município de Cordeirópolis, em São Paulo. “Criamos um arquivo físico e digitalizamos todo o material daquela propriedade, que foi a primeira a usar trabalhadores europeus de forma sistemática”, diz o pesquisador. O material da Fazenda Ibicaba já está disponível para consulta neste link.

De acordo com Bruno, a importância desse projeto é estudar a escravidão, a imigração e o pós-abolição a partir do que for encontrado sobre o indivíduo e não somente em relação ao município. Por isso, reforça a necessidade de mais propriedades colocarem à disposição seus documentos para expandir o entendimento sobre o mercado de trabalho durante esse período. “A gente, geralmente, pensa em um passado longínquo, do século 19, ou do começo do século 20, mas livros de 1950, 1960 e 1970, daqui a duas gerações serão muito importantes. E mais adiante os pesquisadores terão todo esse material já pronto para fazer a pesquisa. Será muito bacana!”, destaca o pesquisador. Os pesquisadores do projeto convidam proprietários rurais e pessoas que conheçam esse tipo de documentação no interior do Brasil a contatá-los. O interesse não está apenas em grandes acervos. Como relata Bruno: “Mesmo um único livro contábil, de meados do século 20, adiciona uma peça importante a esse quebra-cabeça”, conclui Bruno Gabriel.


Mais informações: Bruno Witzel, e-mail: bwitzelsouza@usp.br; e Thales Pereira, e-mail: thales.pereira@fgv.br

 

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