Uso crescente de redes sociais na adolescência está associado a pior desempenho de memória, aponta estudo longitudinal
O trabalho analisa dados de mais de 7.500 jovens norte-americanos acompanhados por dois anos, oferecendo uma das avaliações mais detalhadas até hoje sobre o impacto cognitivo do ambiente digital.

Imagem: reprodução
Um dos maiores estudos prospectivos já realizados sobre comportamento digital na juventude traz evidências robustas de que o aumento do uso de redes sociais ao longo da adolescência pode estar ligado a um declínio mensurável em funções cognitivas fundamentais — especialmente memória verbal e processamento visuoespacial. Publicado nesta sexta-feira (20), na revista The Lancet Regional Health – Americas, o trabalho analisa dados de mais de 7.500 jovens norte-americanos acompanhados por dois anos, oferecendo uma das avaliações mais detalhadas até hoje sobre o impacto cognitivo do ambiente digital.
A pesquisa foi liderada por Jason M. Nagata, da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), em colaboração com instituições como a Universidade de Toronto, Griffith University (Austrália) e Xi’an Jiaotong-Liverpool University (China). “Nossos resultados mostram que não é apenas o tempo de tela em geral, mas padrões específicos de uso de redes sociais ao longo do tempo, que estão associados a mudanças no desempenho cognitivo”, afirma Nagata.
Um experimento natural em larga escala
O estudo se baseia no consórcio Adolescent Brain Cognitive Development (ABCD), uma das maiores coortes longitudinais do mundo sobre desenvolvimento cerebral. A amostra analisada incluiu 7.528 adolescentes, com idade média inicial de 10 anos, acompanhados entre 2016 e 2020.
Os pesquisadores aplicaram um método estatístico avançado — o group-based trajectory modeling — para identificar padrões de uso de redes sociais ao longo do tempo. Três trajetórias principais emergiram:
Uso nulo ou muito baixo (54,7% da amostra)
Uso baixo, porém crescente (38,8%)
Uso alto e crescente (6,4%)
Os adolescentes do grupo mais intenso atingiram, em média, 3,1 horas diárias de redes sociais aos 13 anos, enquanto o grupo intermediário chegou a 0,8 hora por dia.
Medindo memória e cognição
Para avaliar os efeitos cognitivos, o estudo utilizou dois testes neuropsicológicos padronizados:
Little Man Task (LMT): mede atenção visuoespacial e rotação mental
Rey Auditory Verbal Learning Test (RAVLT): avalia memória verbal, aprendizado e retenção
Esses instrumentos são amplamente utilizados em pesquisas clínicas e permitem mensurar diferentes dimensões da cognição com alta sensibilidade.
Resultados: impacto pequeno, mas consistente
Os achados revelam uma associação estatisticamente significativa entre maior uso de redes sociais e pior desempenho cognitivo dois anos depois — mesmo após controle rigoroso de variáveis como renda familiar, educação dos pais, sintomas depressivos e desempenho cognitivo inicial.
Entre os principais resultados: adolescentes com uso crescente moderado tiveram redução de desempenho em testes de memória verbal (até ?1,38 pontos nos ensaios iniciais do RAVLT); aqueles com uso alto e crescente apresentaram quedas ainda maiores (até - 1,90 pontos), além de pior desempenho visuoespacial no LMT.
Na prática, isso equivale a lembrar cerca de duas palavras a menos em tarefas de memória — uma diferença pequena, mas consistente em nível populacional.
“Embora os efeitos sejam modestos, eles são significativos e persistem após múltiplos ajustes estatísticos”, destacam os autores.
Possíveis mecanismos biológicos e comportamentais
O estudo não estabelece causalidade direta, mas propõe hipóteses plausíveis para explicar os resultados:
1. Substituição de atividades cognitivamente enriquecedoras
Tempo gasto em redes pode reduzir leitura, estudo e interações presenciais.
2. Ambiente digital fragmentado
Conteúdos rápidos e multitarefa podem prejudicar atenção sustentada e consolidação da memória.
3. Menor estímulo verbal
Plataformas visuais oferecem menos oportunidades para processamento linguístico profundo.
Segundo os autores, “o uso intensivo pode interferir nos processos de codificação e recuperação da memória, essenciais para o aprendizado”.
Relevância clínica e educacional
Os impactos observados têm implicações além do laboratório. Déficits em memória verbal estão associados ao início precoce de declínio cognitivo, enquanto dificuldades visuoespaciais podem afetar desempenho escolar — especialmente em matemática e leitura.
Além disso, estudos anteriores indicam que falhas de atenção visuoespacial podem aumentar riscos em situações do mundo real, como direção de veículos na adolescência.
Apesar da robustez metodológica, o estudo apresenta limitações importantes: uso de dados autorrelatados de tempo de tela; possíveis fatores não medidos (sono, dieta, atividade física); efeitos de magnitude relativamente pequena; e dados coletados antes do pico de uso digital na pandemia.

Ainda assim, o tamanho da amostra e o desenho longitudinal fortalecem a confiabilidade dos achados.
O que fazer com essas evidências?
Os autores sugerem que intervenções simples podem mitigar riscos. Entre elas, a implementação de um “Plano Familiar de Uso de Mídia”, incentivando equilíbrio entre atividades digitais e cognitivamente estimulantes.
“Monitorar o uso e promover hábitos saudáveis pode ajudar a proteger o desenvolvimento cognitivo durante um período crítico da vida”, afirma Nagata.
Um campo em rápida evolução
O estudo contribui para um debate ainda em aberto. Pesquisas anteriores mostravam resultados inconsistentes, muitas vezes limitadas por amostras pequenas ou análises transversais. Ao focar em trajetórias de uso ao longo do tempo, este trabalho oferece evidência mais robusta sobre a direção da associação.
A próxima fronteira, segundo os autores, é investigar como diferentes tipos de conteúdo digital afetam o cérebro, possivelmente combinando dados comportamentais com neuroimagem.
Em um cenário em que o uso de redes sociais começa cada vez mais cedo, os resultados reforçam a necessidade de equilíbrio. O impacto observado pode ser sutil em nível individual, mas, em larga escala, sugere que hábitos digitais na infância e adolescência podem ter consequências duradouras para o funcionamento cognitivo.
A mensagem central não é de alarme, mas de cautela informada: como tantas outras variáveis no desenvolvimento humano, o efeito das redes sociais depende não apenas do quanto se usa — mas de como esse uso evolui ao longo do tempo.
Referência
Associações entre trajetórias de uso de mídias sociais por adolescentes e memória espacial e verbal: um estudo de coorte prospectivo. Jason M. Nagata, Jennifer H. Wong, Kristen E. Kim, Sahana Nayak, Elizabeth J. Li, Raquel A. Richardsone e outros. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101454Link externo