Filosofia no laboratório: estudo propõe revolução silenciosa na formação de cientistas
Pesquisadores defendem que integrar história e filosofia da ciência ao cotidiano da pesquisa pode aumentar inovação, reduzir desigualdades e fortalecer a confiança pública

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A formação de cientistas foi tratada, por anos, como um processo essencialmente técnico: dominar métodos, produzir dados, publicar resultados. Um estudo publicado nesta quarta-feira (25), na revista Proceedings of the Royal Society B, propõe agora uma inflexão nesse modelo ao defender que o futuro da ciência depende também de algo menos tangível — mas potencialmente mais decisivo: a reflexão crítica sobre como o conhecimento científico é produzido.
Assinado por Alan C. Love, da Universidade de Minnesota, Tobias Uller, da Universidade de Lund, e Kostas Kampourakis, da Universidade de Genebra, o trabalho sustenta que incorporar história e filosofia da ciência (HPS, na sigla em inglês) ao processo de orientação acadêmica pode transformar a maneira como novos pesquisadores pensam, investigam e inovam .
“Mais do que ensinar o que sabemos, precisamos ensinar por que e como sabemos”, afirmam os autores. A proposta resgata uma tradição antiga. No início do século XX, o neurocientista espanhol Santiago Ramón y Cajal já defendia que o estudo da filosofia oferecia “excelente ginástica mental” para pesquisadores em formação — uma visão que, segundo o estudo, foi progressivamente abandonada .
Uma lacuna na formação científica
Hoje, a orientação de estudantes de pós-graduação e pós-doutores — considerada um dos pilares da ciência — ocorre, em grande parte, de forma informal e pouco estruturada. Relatório das Academias Nacionais dos Estados Unidos citado no estudo aponta que, embora a formação técnica seja altamente padronizada, a mentoria ainda acontece de modo “ad hoc” .
Esse modelo, argumentam os pesquisadores, deixa lacunas importantes. Jovens cientistas aprendem a executar experimentos, mas nem sempre desenvolvem ferramentas para questionar conceitos, avaliar pressupostos ou identificar problemas realmente relevantes.
A consequência é um sistema que favorece a produção incremental — “mais tijolos no muro”, como descrevem os autores — em detrimento de descobertas disruptivas .
Conceitos importam — e muito
Um dos pontos centrais do estudo é a crítica à ideia de que dados falam por si. “Dados não têm significado sem estruturas conceituais”, destacam os autores . Termos como gene, alelo ou polimorfismo, por exemplo, não são apenas definições técnicas: são construções teóricas que orientam a interpretação dos resultados.
Em um dos exemplos citados, cientistas levaram meses para distinguir dois conceitos aparentemente simples — ancestralidade genética e genealógica — ao tentar aplicá-los de forma consistente. O impasse só foi resolvido com uma análise conceitual detalhada, típica da filosofia da ciência .
Esse tipo de dificuldade, segundo o estudo, é mais comum do que se imagina e pode limitar o avanço científico quando não é explicitamente enfrentado.
Inovação e diversidade em jogo
Os impactos vão além da qualidade da pesquisa. Os autores argumentam que uma formação mais reflexiva pode ajudar a enfrentar problemas estruturais da ciência, como a evasão em programas de doutorado e a sub-representação de grupos minoritários .
Ao estimular discussões sobre valores, escolhas e trajetórias na ciência, a abordagem pode tornar o ambiente acadêmico mais inclusivo e consciente. Também contribui para a formação de pesquisadores mais criativos — capazes de questionar paradigmas e propor novas abordagens.
Estudos recentes citados no artigo indicam, por exemplo, que equipes menores tendem a produzir ciência mais disruptiva, enquanto grandes grupos favorecem avanços incrementais . Nesse contexto, a capacidade de formular boas perguntas — e não apenas boas respostas — torna-se um diferencial estratégico.
Como mudar na prática
O artigo não se limita ao diagnóstico e propõe estratégias concretas. Entre elas: ampliar o escopo de discussões em grupos de leitura, incluindo o contexto histórico de descobertas; combinar artigos científicos com análises filosóficas ou históricas; explorar controvérsias científicas do passado para iluminar debates atuais; discutir ambiguidades conceituais como parte do treinamento e convidar filósofos da ciência para interagir com grupos de pesquisa.
A ideia não é transformar cientistas em filósofos, mas torná-los mais conscientes dos fundamentos de sua prática.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência. Muitos pesquisadores veem a filosofia como uma distração em um ambiente já pressionado por produtividade e competição. Os próprios autores reconhecem a tensão.
“Trazer esse tipo de reflexão exige tempo e planejamento, algo escasso na rotina científica”, admitem . Ainda assim, defendem que o investimento compensa ao produzir cientistas mais preparados para lidar com problemas complexos e interdisciplinares.
Confiança pública em risco
O debate ganha relevância em um momento de crescente desconfiança na ciência. Segundo o estudo, incorporar história e filosofia ao ensino pode ajudar a transmitir uma visão mais realista do conhecimento científico — como um processo em constante revisão, e não um conjunto de verdades absolutas .
Essa compreensão, argumentam os autores, é fundamental para fortalecer a confiança pública, especialmente em temas sensíveis como mudanças climáticas, vacinas e inteligência artificial.
Um novo paradigma?
Ao final, o artigo faz um chamado à comunidade científica: repensar a mentoria não apenas como transmissão de técnicas, mas como formação intelectual ampla.
“Se a mentoria forma cientistas melhores, então precisamos nos tornar mentores melhores”, concluem os autores .
A proposta pode parecer sutil, mas seu alcance é potencialmente transformador. Em vez de apenas treinar especialistas, trata-se de formar pensadores capazes de compreender — e reinventar — a própria ciência.
Referência
Alan C. Love , Tobias Uller , Kostas Kampourakis; Aprimorando a mentoria científica com história e filosofia da ciência. Proc Biol Sci 1 de março de 2026; 293 (2067): 20252120. https://doi.org/10.1098/rspb.2025.2120