Humanidades

Educação superior aproxima culturas globais do padrão ocidental, aponta estudo com dados de 95 países
Pesquisa publicada na Nature Communications revela que escolaridade — e não renda — é o principal fator de convergência cultural com países ricos e democráticos
Por Laercio Damasceno - 26/03/2026


Crédito: iStock


Cientistas sociais, por décadas, alertaram para um viés persistente nas pesquisas comportamentais: a predominância de participantes oriundos de sociedades chamadas “WEIRD” — ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas. Agora, um amplo estudo internacional sugere que esse viés pode ser ainda mais profundo — e silencioso. A educação formal, por si só, estaria aproximando indivíduos de diferentes países a esse mesmo padrão cultural.

Publicado nesta quinta-feira (26), na revista Nature Communications, o trabalho conduzido por Cindel J. M. White, da York University, e Michael Muthukrishna, da London School of Economics and Political Science, analisou dados de 268.992 indivíduos em 95 países. A conclusão é contundente: pessoas com maior escolaridade tendem a apresentar valores, crenças e comportamentos mais semelhantes aos de países ocidentais — independentemente de sua origem geográfica.

“O que encontramos é que a educação é um forte preditor de similaridade cultural com sociedades WEIRD”, afirmam os autores. “Esse padrão não se repete com renda ou status social subjetivo.”

Um mapa global da cultura

A pesquisa utilizou dados do World Values Survey, que reúne respostas sobre temas como religião, política, moralidade, relações sociais e economia entre 2005 e 2022. Para medir a distância cultural entre grupos, os cientistas aplicaram o chamado índice de fixação cultural (CFST), uma adaptação de métricas da genética populacional.

Os resultados mostram que, em média, indivíduos com ensino superior apresentaram distância cultural significativamente menor em relação aos Estados Unidos — considerado um país prototípico do bloco WEIRD — do que aqueles com baixa escolaridade. Enquanto grupos com menor educação registraram um índice médio de 0,235, os mais escolarizados ficaram em 0,167.

Em termos práticos, isso significa que um universitário na Ásia ou na África pode compartilhar mais valores culturais com um americano médio do que com um conterrâneo de baixa escolaridade.

O padrão se repetiu em cerca de 70% dos países analisados, sempre com significância estatística. Já variáveis como renda e percepção de status social não apresentaram associação consistente com essa convergência cultural.

Educação como vetor de valores

A explicação, segundo os autores, está no papel histórico e institucional da educação. Sistemas educacionais modernos — muitos deles influenciados por modelos europeus durante períodos coloniais — funcionam como mecanismos de transmissão cultural em larga escala.

“A educação formal não transmite apenas conhecimento técnico, mas também formas de pensar, valores e normas sociais”, escrevem os pesquisadores.

Entre esses traços associados às culturas WEIRD estão o individualismo, o pensamento analítico, a valorização da autonomia pessoal e níveis mais elevados de confiança generalizada. Esses padrões foram observados de forma consistente entre indivíduos mais escolarizados em diferentes regiões do mundo.

O estudo também aponta que a exposição a conteúdos digitais, o domínio de línguas globais — especialmente o inglês — e a integração em redes internacionais ampliam esse efeito. Universidades e ambientes acadêmicos funcionariam, assim, como hubs de difusão cultural.

Nem riqueza, nem poder

Um dos achados mais surpreendentes é o fato de que renda não exerce o mesmo papel. Ao contrário do que sugerem teorias clássicas da modernização, indivíduos mais ricos não são necessariamente mais próximos culturalmente do Ocidente.

“Não encontramos evidências de que renda ou status subjetivo reduzam a distância cultural em relação a países WEIRD”, destacam os autores.

Isso indica que o acesso à educação — mais do que o poder econômico — é o principal canal de difusão desses valores.

Impacto na ciência e na sociedade

As implicações do estudo são amplas. Para a ciência, reforçam críticas já antigas sobre a representatividade das amostras em pesquisas psicológicas. Estudos que utilizam majoritariamente estudantes universitários — mesmo em países diversos — podem estar captando uma cultura globalizada e homogênea, e não a diversidade real das sociedades.

“Amostras compostas por indivíduos altamente escolarizados tendem a super-representar valores típicos de países WEIRD”, alertam White e Muthukrishna.

Na prática, isso pode levar à subestimação de diferenças culturais e à generalização indevida de resultados.

No campo social e político, os resultados sugerem que a expansão da educação pode estar contribuindo para uma convergência cultural global — ainda que parcial e desigual. Países com maior desempenho educacional, medido por testes como o PISA, mostraram-se mais próximos culturalmente do padrão ocidental.

Um mundo mais homogêneo?

Apesar da tendência identificada, os autores ressaltam que o processo não é uniforme nem inevitável. Em regiões da Ásia, África e América Latina, os efeitos foram menos pronunciados ou até ausentes em alguns casos.

Além disso, outras forças — como tradições locais, religião e contextos históricos — continuam moldando valores culturais de forma independente.

“A expansão da educação não garante que o mundo se tornará mais ‘WEIRD’”, ponderam os pesquisadores.

Ainda assim, o estudo oferece uma das evidências mais robustas até hoje de que a sala de aula — mais do que o mercado ou a renda — é um dos principais motores da transformação cultural contemporânea.

Em um cenário de globalização acelerada, entender esse mecanismo pode ser crucial não apenas para a ciência, mas para políticas públicas, educação e o futuro das identidades culturais no século XXI.


Referência
White, CJM, Muthukrishna, M. O ensino superior prevê similaridade cultural global com países WEIRD. Nat Commun 17 , 2498 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70404-4

 

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