Normas de inclusão reduzem efeitos da polarização e reforçam coesão social, aponta estudo
Pesquisa com mais de 12 mil pessoas em 12 países mostra que respeito, diálogo e senso de unidade aumentam tolerância e cooperação — mesmo entre grupos com visões opostas

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Em meio ao avanço da polarização política e social nas democracias contemporâneas, um novo estudo internacional sugere que a saída pode não estar apenas em reduzir divergências, mas em moldar a forma como as sociedades lidam com elas. Publicada em revista científica de circulação global, a pesquisa revela que normas sociais baseadas em respeito, diálogo e inclusão podem funcionar como um “amortecedor” dos conflitos — preservando a coesão social mesmo em contextos altamente polarizados.
O trabalho, conduzido por um consórcio de pesquisadores europeus, analisou dados de 12.041 participantes em 12 países do continente, incluindo Alemanha, França, Espanha, Suécia e Reino Unido. O objetivo era investigar como as chamadas “normas de inclusividade” — isto é, percepções compartilhadas de que as pessoas devem tratar os outros como iguais, dialogar e valorizar uma identidade comum — influenciam atitudes em relação a grupos com opiniões divergentes.
Os resultados são consistentes e robustos: indivíduos que percebem maior presença dessas normas tendem a demonstrar mais tolerância, maior disposição para cooperar e menor tendência a evitar pessoas com visões opostas.
“Essas normas funcionam como uma espécie de ‘cola social’”, afirmam os autores no artigo, ao destacar que elas ajudam a sustentar a confiança e a coesão mesmo quando há desacordos profundos.
Polarização: um fenômeno em transformação
O estudo parte de um diagnóstico amplamente compartilhado nas ciências sociais: a polarização deixou de ser apenas um desacordo de ideias para se tornar, em muitos casos, um conflito de identidades. Em debates sobre temas como imigração, mudanças climáticas e direitos de minorias, indivíduos passam a se definir por suas posições, formando grupos com forte identificação interna e rejeição ao “outro”.
Esse processo, segundo os pesquisadores, é perigoso porque transforma divergências legítimas em antagonismos rígidos. “A diversidade de opiniões é essencial para a democracia, mas pode se tornar prejudicial quando se converte em conflito baseado em identidade”, apontam.
É nesse ponto que entram as normas de inclusividade. Ao enfatizar o respeito mútuo e a existência de uma identidade compartilhada — por exemplo, a cidadania ou o pertencimento a uma mesma sociedade —, essas normas reduzem a percepção de ameaça entre grupos e favorecem comportamentos cooperativos.
Resultados que atravessam fronteiras ideológicas
Um dos achados mais relevantes da pesquisa é que os efeitos positivos das normas inclusivas não se limitam a grupos moderados ou já inclinados ao pluralismo. Pelo contrário: eles também aparecem entre indivíduos com posições mais rígidas.
Mesmo participantes que declararam forte desaprovação das opiniões opostas, ou que demonstraram tendências anti-pluralistas, apresentaram maior tolerância e disposição para cooperação quando percebiam um ambiente social mais inclusivo.
Em outras palavras, as normas sociais parecem atuar independentemente da posição ideológica — um dado que amplia o potencial de aplicação prática dos resultados.
Além disso, análises adicionais indicaram que essas associações se mantêm em diferentes contextos nacionais e temas controversos, como políticas migratórias e igualdade de gênero.
Impacto mensurável na confiança social
No nível coletivo, o estudo encontrou correlações significativas entre normas inclusivas e indicadores fundamentais para o funcionamento das democracias. Países com maior percepção dessas normas apresentaram níveis mais altos de confiança social e coesão.
Os dados mostram, por exemplo, uma correlação de 0,50 com confiança social e de 0,68 com coesão — índices considerados elevados em pesquisas desse tipo.
Para os autores, isso sugere que políticas públicas e iniciativas sociais voltadas à promoção de valores inclusivos podem ter efeitos amplos, indo além das atitudes individuais e alcançando o tecido social como um todo.
Embora o estudo seja observacional — o que impede conclusões definitivas sobre causalidade —, os pesquisadores apontam evidências complementares de experimentos que reforçam a hipótese de que normas inclusivas podem ser promovidas deliberadamente.
Intervenções simples, como campanhas educativas, programas escolares e iniciativas comunitárias, poderiam ajudar a fortalecer essas percepções coletivas. “Os resultados indicam que normas sociais oferecem uma via realista e escalável para enfrentar os efeitos negativos da polarização”, destacam.

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O potencial de impacto é significativo, especialmente em um momento em que democracias enfrentam desafios crescentes relacionados à fragmentação social e à desconfiança institucional.
Os próprios autores reconhecem limitações importantes. Como os dados se baseiam em autorrelatos, há risco de viés — participantes podem superestimar sua própria tolerância. Além disso, o estudo se concentra em países europeus, o que restringe a generalização para outras regiões com contextos políticos distintos.
Ainda assim, a consistência dos resultados em diferentes países e grupos sugere que o fenômeno tem base sólida. Pesquisas futuras, especialmente com desenhos experimentais e dados comportamentais, poderão aprofundar a compreensão dos mecanismos envolvidos.
Um antídoto possível para tempos de divisão
Em um cenário global marcado por disputas ideológicas intensas, o estudo oferece uma mensagem que contraria a lógica dominante: não é necessário eliminar o conflito para preservar a convivência democrática.
Ao contrário, o que parece fazer diferença é a existência de normas compartilhadas que orientem o comportamento diante da divergência. Respeitar, dialogar e reconhecer o outro como parte da mesma comunidade — princípios simples, mas cada vez mais raros — podem ser a chave para reconstruir pontes em sociedades fragmentadas.
Se confirmadas por novas evidências, essas conclusões colocam as normas sociais no centro do debate sobre o futuro das democracias — não apenas como reflexo da cultura política, mas como instrumento ativo de transformação.
Referência
Laura F Schäfer, Nicole Tausch, Marcin Bukowski, Eva Jaspers, Miranda J Lubbers, Maarten van Zalk, Alejandro Ciordia, Anna Potoczek, Lucía Estevan-Reina, Maor Shani, Jan-Willem Simons, Maria-Therese Friehs, Dominika Gurbisz, Wilma M Middendorf, Sarina J Schäfer, Jil Ullenboom, Sylvie Graf, Mikael Hjerm, Chloé Lavest, Inga Jasinskaja-Lahti, Anna Kende, Katerina Petkanopoulou, Francesca Prati, Oliver Christ, Associações entre normas de inclusão e tolerância, contato e cooperação em meio à polarização: Evidências de 12 países europeus, PNAS Nexus , 2026;, pgag087, https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgag087