Pesquisadora da Faculdade de Educação da USP confronta o imaginário social com a realidade de 3,7 mil crianças e adolescentes em situação de rua; estudo e dados oficiais expõem o 'desejo de cidade' de uma geração invisível

Desenho de meninos brincando com patinete na avenida Paulista – Foto: Reprodução/Tese da Autora
Às sete horas da noite, a Avenida Paulista, no centro de São Paulo, não parece um lugar feito para crianças. O fluxo de executivos, fones de ouvido e passos apressados em direção ao metrô Trianon-Masp desenha um cenário de produtividade onde o tempo é dinheiro. Mas, subitamente, o ritmo frenético é interrompido por um riso agudo. Na ciclovia, três meninos ziguezagueiam em patinetes elétricos de aluguel. A cena, capturada pelo olhar da pedagoga Lilith Neiman , é o ponto de partida para uma investigação que obriga a cidade a “ver de novo” a infância brasileira.
Em sua pesquisa de doutorado intitulada Ser criança nas ruas da cidade – espaço urbano e infância em situação de rua em São Paulo, defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP, Lilith Neiman decidiu deslocar o foco das paredes seguras da escola para a imprevisibilidade da calçada. “Eu pensava: tem um monte de criança aqui já no espaço público e sobre elas eu não sei nada”, relata Lilith.
Essa invisibilidade relatada por Lilith ganha contornos nítidos nos números oficiais. Segundo a pesquisa amostral do Censo de Crianças em Situação de Rua da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), em 2022 a cidade de São Paulo abrigava 3.759 menores nessa condição, sendo que a grande maioria (76%) é composta por paulistanos natos. O perfil revela uma predominância masculina entre os 7 e 17 anos (63,7%), enquanto na primeira infância (0 a 6 anos) as meninas são ligeiramente mais presentes (53,2%). No quesito raça, a vulnerabilidade tem cor: 44,4% se declaram pardos e 33,9% pretos.
Sua pesquisa ataca o que ela chama de “controvérsia da universalização”: a ideia de que existe uma infância padrão, escolarizada, protegida e branca, que acaba por rotular crianças pobres e negras em situação de rua como “não-crianças”. Para Lilith, a infância não se apaga sob uma lona improvisada. Pelo contrário, ela se sofistica.
Solução ética e tática
Pesquisar a rua sendo mulher e sozinha impõe desafios que os manuais de metodologia nem sempre prevêem. Para Lilith, o desenho foi a solução ética e tática. “Ficar parada olhando as pessoas na rua não é bem visto. O desenho me trazia um certo conforto; eu estava ali com meu caderno, fazendo alguma coisa”, explica. O lápis substituiu a lente fotográfica, muitas vezes invasiva em contextos de vulnerabilidade.
O desenho impôs à pesquisadora o “tempo da demora”. Foi no ato de traçar linhas que Lilith começou a enxergar os vestígios: um par de chinelos minúsculos perto de uma barraca, um carrinho de bebê dobrado ou um cobertor das Princesas da Disney servindo de parede. “O desenho permite perceber o que a fotografia ignora por ser rápida demais. São indicativos de que ali mora uma criança, mesmo quando o olhar apressado da metrópole não a alcança.”
Os vestígios lúdicos encontrados por Lilith escondem uma realidade de longa exposição. O Censo da SMADS aponta que 50% daqueles que hoje pernoitam na rua (na faixa de 7 a 17 anos) iniciaram essa trajetória ainda na infância precoce, com até 7 anos de idade. Além disso, a presença familiar é uma constante: 69,9% dos jovens nessa faixa etária possuem outro familiar na rua, e mais da metade (50,1%) iniciou essa vivência acompanhado pelo pai ou pela mãe.
A pesquisa atravessou os anos críticos da pandemia (2020-2022). Enquanto o lema era “fique em casa”, Lilith documentou a ironia cruel das famílias periféricas “expulsas” para o centro pela crise econômica. Surgia ali a lógica da “viração”, uma sobrevivência que mistura o trabalho de vender balas com o lazer de ocupar a fonte do Trianon.
Nesse cenário, surge Yasmin, uma menina de São Mateus, bairro da zona leste da cidade, que cruzava a cidade para “se aventurar” na Paulista. Através de trocas de mensagens por WhatsApp, o paradoxo da infância nas ruas se revelou: Yasmin não pedia apenas comida; ela queria um tênis de marca para o Natal. “Ela não queria um tênis simples, queria um caro”, recorda a pesquisadora.

Desenho de detalhe de barraca coberta com cobertor de princesas da Disney – Foto: Acervo da tese da autora
O desejo de Yasmin por itens de marca reflete a principal motivação detectada pela pesquisa censitária: a geração de renda. Para 78,7% dos jovens entre 7 e 17 anos, o motivo de estar na rua é garantir a sobrevivência financeira, sendo que 89,6% realizam atividades geradoras de renda, como a venda de produtos (51,1%) e a mendicância, o ato de pedir esmolas (43,2%). Entre os menores de 6 anos, a motivação é outra: 67,7% dos responsáveis levam as crianças para a calçada por não terem com quem deixá-las, embora 77,7% desse grupo ainda retorne para casa para dormir todos os dias.
O pedido da menina gerou uma discussão central na tese: por que a sociedade aceita doar fraldas, mas se choca quando uma criança pobre deseja o “brilho da vitrine”? “Elas estão inseridas na lógica capitalista e compartilham dos mesmos desejos de qualquer criança. Negar o desejo é negar a humanidade delas”, pontua Lilith. A pesquisadora admite, com honestidade, o medo que sentiu quando Yasmin a convidou para comprar o calçado em um reduto desconhecido na periferia de São Paulo. “Os vínculos na rua são frágeis. Senti medo de ir sozinha, sem apoio institucional, mas entendi que aquele tênis era a busca de Yasmin por pertencimento”.
Para Lilith, o uso dos patinetes elétricos de luxo pelas crianças de rua é o ápice dessa insurreição lúdica. Ao subirem em três no mesmo equipamento, burlando o sistema de pagamento, elas “hackeiam” a exclusão. “Brincar na Paulista é um ato de retomada. É o que chamo de ‘desejo de cidade’: a vontade de usufruir de tecnologias e espaços que a segregação geográfica lhes tenta roubar.”
Embora o lúdico resista, os riscos são severos. Os dados do SMADS alertam que 13,8% desses jovens estão expostos a atividades de altíssimo risco, incluindo a venda de produtos ilícitos (6,3%), furtos (10%) e exploração sexual (2,1%). Nos serviços de acolhimento institucional, que abrigam apenas 16,2% do total mapeado, as motivações mudam de foco: conflitos familiares (20%) e violência física doméstica (17,5%) surgem como os principais vetores da saída de casa.
A convergência entre a narrativa de Lilith Neiman e os indicadores da SMADS expõe uma São Paulo que não pode mais ignorar seus próprios filhos: com 76% dessas crianças tendo nascido na capital, a rua não é um lugar de passagem, mas um território de permanência forçada. Quando os dados revelam que 89,6% dos jovens entre 7 e 17 anos estão na “viração” para sobreviver, o desejo pelo “tênis de marca” ou o uso dos patinetes elétricos deixam de ser anedotas para se tornarem evidências de uma infância que, embora sofisticada na resistência, é sistematicamente privada do direito à cidade. O riso agudo na ciclovia da Paulista, portanto, não é um erro no fluxo da metrópole, mas um manifesto vivo; validar essa existência é o primeiro passo para que a gestão pública deixe de tratar essas crianças como um “entulho visual” e passe a reconhecê-las como cidadãos que, apesar da invisibilidade estatística, reivindicam seu lugar no asfalto.
Hoje atuando na Secretaria Municipal de Educação, Lilith Neiman carrega a lição das calçadas para a gestão pública. Sua tese foi orientada pela professora Marcia Aparecida Gobbi, da FE.