Pesquisa resgata protagonismo e resistência afro-indígena na formação de cidade no interior da Bahia
Por meio de análise documental e história oral, dissertação investiga os conflitos e práticas de resistências de indígenas, escravizados e operários na formação do município de Aramari

Mika dos Santos, ainda criança em Aramari, que foi caminho estratégico no povoamento de partes do Estado - Foto: cedida pelo pesquisador
A escassez de registros históricos aliada à curiosidade e ao anseio de criança levaram Mika dos Santos (Milena dos Santos Silva), arquiteto pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, a investigar, a partir de um panorama cronológico, o protagonismo negro e indígena na construção, povoamento e ocupação do município de Aramari.
Localizado no Território Litoral Norte e Agreste Baiano, região que concentra 22 municípios, Aramari fica há cerca de 120 quilômetros de Salvador e, de acordo com o censo de 2022, tem aproximadamente 10 mil habitantes e cerca de 92% (9.112 pessoas) da população é negra. Ao longo do tempo, seu território foi caminho estratégico para a expansão do povoamento do sertão baiano e ampliação da malha ferroviária.
Intitulada Aramari: Práticas e Memórias Afroindígenas no Portal do Sertão Baiano, a dissertação que teve a orientação da professora Renata Martins, da FAU USP, investigou o protagonismo negro e indígena na construção, ocupação e povoamento da cidade, da paisagem e do território. E também, como os ambientes de memória, insurgência e fugitividade do passado sustentam redes de pertencimento e resistência no presente.
“Eu morava em uma casinha pequena. Há cerca de 300 metros do complexo ferroviário, a linha de ferro, que já estava em processo de arruinamento. Apesar disso, ainda era uma coisa monumental em uma cidade pequena. O trem e a ferrovia estão muito presentes no fundo das fotos. Quando eu perguntava sobre, a única resposta que obtinha era que os ingleses vieram e construíram ali”, conta Mika.
Para entender o processo de ocupação e povoamento, o pesquisador parte do conceito de “biocartografia”, que propõe analisar a produção da cidade atravessada por questões de racialidade. Desenvolvido por Gabriela Leandro Pereira, professora da UFBA, a biocartografia se vale da observação participante, da oralidade e do sensível para posicionar indivíduos marginalizados como agentes de memória.
Herdeiros de um passado colonial escravocrata que, para Gabriela Pereira, “continua a moldar a cidade e as possibilidades de produção da vida nesses espaços”, estes indivíduos constantemente modelam o ambiente a partir de suas experiências.
“Até pouco tempo, a história da urbanização brasileira se preocupava, sobretudo, em investigar a interferência direta das políticas de Estado (Coroa e República) no arranjo territorial de vilas e cidades localizadas nas áreas de maior vigor econômico”, destaca Damião Arraes, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), mestre e doutor pela FAU USP e um dos membros da banca que analisou o trabalho de Mika.
“Os povos indígenas e pessoas negras escravizadas aparecem no discurso como uma espécie de apêndice das intervenções urbanas levadas a cabo pelo Estado, isto é, lança-se pouca luz no agenciamento afro-indígena de criação urbana e territorial. Esse é o lume deste trabalho! Ressignificar, material e simbolicamente, a cidade, a paisagem e o território como produtos de operações cotidianas protagonizadas por gente afro-indígena dos sertões”, completa o professor.
Na prática, Mika se debruçou sobre arquivos oficiais e pessoais – cartas, fotografias, mapas, textos literários, pesquisas e documentos – acerca de Aramari. Assim como entrevistas, relatos, oralidade, práticas e performances culturais.
As estradas do sertão: terra de indígenas e mocambos
Os primeiros registros sobre a porção territorial do Saco dos Tapuias ou Saco dos Aramarizes, hoje conhecida como Aramari, são dos séculos 18 e 19. Nos arquivos oficiais, assim como na memória e imaginário popular, as técnicas fugitivas afro-indígenas dos povos que habitavam a região, a Estrada das Boiadas e a Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, permanecem dispersas e fragmentadas.
Tapuias, Tapuios ou Tapuya eram como colonizadores e os Tobayáras, indígenas da costa baiana, denominavam os povos da etnia Kiriri que viviam na porção interior da região. Tobá significa rosto, era como chamavam as terras que habitavam, e Ará significa senhores, ou seja, eles “senhoriavam as terras da costa”. Em contraste aos Tapuias, que “senhoriavam as terras de dentro” e eram tidos como selvagens, isolados e “aversos à civilização”.
Por volta de 1619, a área abrangia parte dos rios Real, Itapicuru, Inhambupe, Jacuípe e a Vila de Água Fria, comarca de Inhambupe, que hoje corresponde a Aramari e foi doada em sesmarias aos irmãos João Peixoto Viegas e Felipe Peixoto, pela sua atuação na repressão dos “bárbaros”.
O incentivo às violentas “entradas” do sertão acirrou as disputas entre colonizadores e indígenas e deflagrou, a partir da segunda metade do século 17, a “Guerra dos Bárbaros”, descrita em cartas e documentos como uma prolongada resistência à expansão colonial. Apesar disso, o expansionismo colonial abriu novas rotas de acesso, escoamento da produção agropecuária na região e ocupação da terra.
Entre estas, a mais antiga delas, a Estrada das Boiadas, que cortou e ainda corta o território de Aramari. A extensa ocupação de terras pela presença de pequenos rebanhos marcou o povoamento de agrupamentos humanos na região, bastante dispersos entre si.
Para Mika, a consolidação da estrada marca o processo de contato violento entre aramarizes e colonizadores, que reverbera tanto no imaginário popular quanto na paisagem da região. O “mito da boiada” perpetua parte deste “agouro colonial”, descrito como “uma boiada invisível, mas audível, atravessando e atormentando a cidade durante a madrugada”.
A Estrada ou Linha de Ferro, da mesma forma que a Estrada das Boiadas, reverbera no imaginário e na paisagem de Aramari. A construção, sob condução e capital inglês devido à falta de apoio do Governo Geral, ligaria Salvador ao Rio São Francisco, em Juazeiro, no norte da Bahia, amenizando o problema de isolamento regional enfrentado no Estado.
A chegada dos trilhos à Alagoinhas, cidade vizinha de Aramari, em 1863, marcou o fim da primeira etapa da construção. Dos 350 operários que lá trabalharam, 150 eram italianos. Com a negativa inglesa de prolongar a ferrovia, houve uma pausa das obras e a retomada, por parte do Governo Imperial, aconteceu só em 1876, e a construção das Oficinas Ferroviárias em Aramari foi iniciada em 1881.
A partir desse momento, há mais uma reorganização territorial. A cidade passa a adquirir traços de uma vila operária com uma população composta majoritariamente por operários. Com isso, ao analisar a condição dos trabalhadores no período pós-abolição, Mika entende que, “a transição da escravidão para o trabalho livre não representou uma superação das práticas autoritárias, mas uma reconfiguração das formas de sujeição, coerção e disciplinamento social”.
As formas de resistência
No contexto aramariense, a presença majoritária de trabalhadores afro-indígenas – ex-escravizados, indígenas “civilizados” e seus descendentes – abriu margem para práticas fugitivas e de mobilização. Para o pesquisador, essas práticas podem ser entendidas como “formas de resistência e reinvenção do cotidiano, que emerge da fissura do projeto colonial-capitalista e aponta para uma mobilidade criativa das formas de vida subalternizadas”.
Na Bahia, a Greve Geral de 1919, a Associação Geral de Auxílios Mútuos dos Empregados do Prolongamento da Estrada de Ferro do São Francisco (Agam) e as irmandades religiosas são exemplos disso. Em Aramari, o Clube Minerva, de cunho literário de 1905, e, sobretudo, a Sociedade Filarmônica União e Recreio Operário ampliaram as possibilidades de atuação coletiva e expressão cultural dos trabalhadores.
Diante disso, como cita Mika, “compreende-se que a luta operária não foi um mero ato de reação, mas uma ação criadora, um gesto de reinscrição territorial”, e também uma “forma de rejeição ao novo projeto econômico, ideológico, social e político associado a práticas de dominação”.
Ao resgatar essas memórias e histórias de formação, não apenas da cidade, mas do seu povo, Mika restitui e devolve o direito à memória e, sobretudo, não deixa que outras crianças cresçam sem conhecer o seu passado.
“Cada vez mais jovens pesquisadoras e pesquisadores de iniciação científica, mestrado e doutorado têm reposicionado a memória afro-indígena na construção de nossas cidades e paisagens. Muitas universidades públicas do Brasil têm acolhido bem o conhecimento afro-indígena, isso potencializa pautas pedagógicas com profundo significado na reelaboração de políticas públicas de reparação e de educação patrimonial inclusiva”, comemora o professor Arraes.
“Trabalhos como o de Mika são muito generosos. Generosos com o território e com a memória das pessoas que não estão disputando este debate na academia. E é um trabalho generoso com a própria academia, ao trazer das margens e entregar para o centro e ao construir uma perspectiva de pesquisa que não fica refém as práticas hegemônicas já instituídas”, conclui a professora Gabriela Pereira.

Membros da Sociedade Filarmônica União e Recreio Operário de Aramari - Foto: Cedida por Mika dos Santos