Em A Mulher que Nunca Evoluiu – lançado pela Editora da USP (Edusp) –, a antropóloga estadunidense Sarah Blaffer Hrdy investiga o comportamento de primatas para desfazer falsos estereótipos femininos

Detalhe da capa do livro A Mulher que Nunca Evoluiu, de Sarah Blaffer Hrdy – Foto: Divulgação/Edusp
Na década de 1970, a antropóloga estadunidense Sarah Blaffer Hrdy percebeu que as teorias evolucionistas submetiam a mulher a um papel naturalmente passivo. Na época, fazendo pesquisas na Índia sobre o comportamento de macacos langures, ela notou que as fêmeas poderiam ser competitivas ou cooperativas de acordo com os seus próprios interesses. Com base nessas observações, a antropóloga publicou em 1981 o livro The Woman that Never Evolved, em que questionou os estereótipos atribuídos às mulheres com base na biologia, usados para justificar o papel feminino de submissão e passividade. Pioneiro e polêmico, o livro de Sarah Hrdy acaba de ser publicado no Brasil pela Editora da USP (Edusp), com o título A Mulher que Nunca Evoluiu.
“Quando abordou a evolução humana, Darwin falou muito sobre competição para acasalamento com foco nos machos e ignorou as estratégias das fêmeas para sua sobrevivência e a de sua prole”, afirma Sarah com exclusividade para o Jornal da USP, em entrevista pela plataforma Zoom. “Tinha muita coisa sendo deixada de fora. Então eu decidi fazer um livro só sobre as estratégias femininas, para mostrar que as mulheres não eram passivas, como foi dito por ele”, acrescenta a antropóloga, que se formou pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e atualmente é Professora Emérita da Universidade da Califórnia, também nos Estados Unidos.
Com 412 páginas, o livro traz exemplos de estratégias de populações de primatas – observadas por Sarah em suas pesquisas – para sugerir “algumas hipóteses plausíveis sobre a evolução da fêmea que estão mais de acordo com os dados atuais”, como a antropóloga escreve no prefácio. “Eu tinha dois objetivos. Por um lado, eu queria convencer colegas sociobiólogos de que tínhamos de ampliar nosso campo de visão para incluir os interesses e as perspectivas de ambos os sexos se quiséssemos ter uma compreensão abrangente do processo evolutivo”, destaca Sarah no prefácio da obra. “Por outro lado, ao ampliar os estereótipos darwinianos da natureza feminina para ser mais realista, eu esperava alcançar as mulheres há muito tempo céticas sobre a proposta de que a biologia era irrelevante, mas que, apesar disso, se sentiam compelidas a rejeitar explicações vistas como irremediavelmente tendenciosas por preconceitos patriarcais.”
Apesar do receio de ser criticada por comparar práticas de outros animais com o comportamento humano, Sarah estava certa de que uma compreensão mais ampla de outros primatas ajudaria a eliminar falsos estereótipos atribuídos à mulher com base em características biológicas. Seria como olhar o passado humano, suas origens.
Os primatas – ordem que inclui símios, macacos e lêmures, além do ser humano – servem como objeto de estudo quando o assunto é biologia humana por conta de similaridades genéticas. Espécies como os chimpanzés chegam a compartilhar 98% do DNA humano.

Primatas são estudados na biologia humana por conta da similaridade genética: os chimpanzés chegam a compartilhar 98% do DNA humano – Foto: Reprodução/livro A Mulher que Nunca Evoluiu
Ignoradas pelos evolucionistas
No livro A Origem do Homem e a Seleção Sexual, de 1871, o naturalista inglês Charles Darwin propôs o conceito de seleção sexual. Diferente do conceito de seleção natural – quando o ambiente elimina indivíduos pouco adaptados para a sobrevivência –, a seleção sexual acontece quando indivíduos com “melhores” características herdáveis têm maior triunfo no acasalamento.
No entanto, o foco de sua teoria foi a competição entre machos para acessar as fêmeas, desconsiderando o papel feminino. As fêmeas competiam pelos recursos, garantiam sua alimentação e a de sua prole e disputavam os melhores machos entre elas. “Elas foram ignoradas, até porque Darwin, com muitos dos primeiros evolucionistas, propôs que as mulheres nunca conseguiriam atingir a eminência intelectual masculina”, disse Sarah ao Jornal da USP. “A escritora inglesa e feminista Virgínia Wolf tem uma ótima frase no livro Três Guinéus, que explica bem o porquê desse ponto de vista. Ela diz: ‘A ciência, ao que parece, não é assexuada; ela é um homem, um pai e infectada também’. E está mesmo contaminada pelo androcentrismo.”
No seu livro, Sarah descreve táticas desenvolvidas por fêmeas de várias espécies para que suas características genéticas prosperem. Macacos-de-toque, mursanhos-das-árvores e macacos langures – foco inicial de seu estudo – são apenas algumas delas. No Capítulo três, por exemplo, a antropóloga mostra como as lutas entre fêmeas de saguis, como forma de defender a integridade do casal e o bem de sua prole, são mais frequentes e violentas do que entre os machos.
Outro exemplo é a reação das fêmeas diante do infanticídio. No Capítulo cinco, Sarah destaca problemas específicos da vida dos primatas, como o frequente assassinato de filhotes pelos machos. Ao adquirir a liderança de um grupo, o novo macho comandante pode decidir assassinar os filhotes do grupo, descendentes de outros competidores de sua espécie. Ao eliminá-los, as fêmeas se tornam sexualmente receptíveis mais rápido e ele garante a prevalência de seus genes na próxima geração. “Confrontadas com um recém-chegado, as fêmeas são, ao mesmo tempo, hostis ao novo macho e intensamente protetoras com os filhotes”, escreve Sarah.
No entanto, caso sua prole fosse morta, não seria benéfico a elas “boicotar” sexualmente o líder. “O jogo da reprodução inclui ainda outra oposição: feminino contra feminino. Assim como os machos individuais competem entre si para deixar o número máximo de progênie, as fêmeas individuais são, quer queira, quer não, colocadas umas contra as outras pelas regras genéticas.”
Para Sarah, essas características questionam a presunção da sociedade de que os homens são membros racionais e ativos da sociedade e as mulheres, meramente passivas, fecundas e nutridoras, de acordo com a antropológa. “Eu cresci numa parte muito patriarcal, muito machista dos Estados Unidos. Lá, era assumido que as mulheres eram muito passivas e o sexo era algo imposto a elas”, lembrou a antropóloga na entrevista. Quando chegou a Harvard, ela descobriu que essas mesmas visões eram aplicadas aos primatas não humanos. “Imagine minha surpresa ao começar a estudar os langures e perceber que não era bem assim. As fêmeas eram agressivas, só não eram da mesma maneira que os machos.”
Além de elaborar estratégias para a sobrevivência, as fêmeas tinham apetite sexual e solicitavam diversos machos para copular. Chegavam até a procurá-los em outros grupos. Antes, a teoria dominante era que mulheres se prenderiam ao “melhor” dos homens, porque ele seria a ajuda ideal para criar seus filhos. “Comecei, então, a encontrar exemplos em várias partes do mundo em que a matriarca tinha vários parceiros. No Brasil, inclusive, existem muitos na região amazônica em que, quando a mãe tinha mais de um companheiro, as chances de seus bebês permanecerem alimentados e sobreviverem eram maiores.”
A mulher que todas poderiam ser
No prefácio de A Mulher que Nunca Evoluiu, Sarah descreve uma conversa que teve com uma de suas duas filhas. Dizia estar feliz porque a filha estudava em Harvard – assim como ela mesma havia feito -, uma instituição que, segundo a antropóloga, enfatiza a igualdade de oportunidades para ambos os sexos. Assim como outras pessoas de sua geração, presumia que poderia falar o que pensava e tomar conta de seu futuro reprodutivo: algo impossível a suas antecessoras. Mas Sarah insistia em que a filha não deveria considerar esses direitos garantidos.
“Durante toda a história, é possível ver a queda da influência feminina em diferentes sociedades pelo mundo, seu poder sobre seus próprios bens, sobre quando e com quem se casam e muito mais”, declara. “O que eu não imaginava era o quão rápido isso poderia acontecer. Quem imaginaria que, na segunda década do século 21, tentariam invalidar o aborto aqui nos Estados Unidos?”
Para Sarah, além dos aparatos legais para retirar as conquistas femininas, as tendências culturais hoje buscam fazer o mesmo. Como exemplos, ela cita tradwives no Tiktok (mulheres que gravam vídeos aderindo a estereótipos de gênero ultra-tradicionais e se submetem à “liderança” de seus maridos), rostos “mar-a-lago” (piadas na internet que comparam rostos de mulheres, normalmente associadas a republicanos, que fizeram diversos procedimentos estéticos visando parecer mais jovens e ficar com aparência muito semelhante entre elas) e podcasts voltados para a machosfera (comunidades virtuais masculinas que disseminam ideias antifeministas e misóginas com um falso preceito autodesenvolvimentista).
Sarah afirma que essa série de fatores faz as mulheres se afastarem da “heroína do futuro, a mulher que muitas de nós ainda poderíamos nos tornar”: a mulher que nunca evoluiu. Alguém que a antropóloga acredita ter visto surgir no final do século 20: uma mulher que tomava conta de sua própria vida de uma forma nunca antes vista, negando os preceitos de passividade feminina. “O que havia tornado isso possível foi uma espécie de queda do patriarcado, atingido pelo trabalho conjunto das mulheres e de vários homens que acreditam na igualdade de gênero”, relata.
“Tenho minha própria definição de feminista: alguém que acredita em oportunidades iguais para homens e mulheres. O feminismo só se torna político a partir do momento em que uma força opositora tenta evitar essa igualdade. Quando alguém tenta impedir as mulheres de seus direitos, a partir desse momento, realmente o feminismo se torna político.”
A Mulher que Nunca Evoluiu, de Sarah Blaffer Hrdy, Editora da USP (Edusp), 412 páginas, R$ 60,00.

Capa do livro lançado pela Editora da USP (Edusp) – Foto: Divulgação/Edusp
"Afirmações sobre origens biológicas das assimetrias sexuais estão longe da verdade"
Leia a seguir trecho do livro A Mulher que Nunca Evoluiu, de Sarah Blaffer Hrdy, publicado pela Editora da USP (Edusp)
Por muitas vezes, pensa-se que a biologia tem funcionado contra as mulheres. Pressupostos sobre a natureza biológica de homens e mulheres têm sido frequentemente utilizados para justificar papéis submissos e inferiores femininos, além de um duplo padrão de moralidade sexual. Tem-se presumido que os homens são, por natureza, mais bem equipados para conduzir os assuntos da civilização e as mulheres, para perpetuar a espécie; que os homens são os membros racionais e ativos da sociedade e as mulheres, meramente passivas, fecundas e nutridoras. Ainda, muitos leitores abrirão um livro sobre a biologia dos primatas do sexo feminino com considerável apreensão.
Feministas, em particular, podem rebelar-se frente à ideia de recorrer à ciência da biologia em busca de informações que digam respeito à condição humana. Podem ficar desencorajadas pelo fato de que, entre nossos parentes mais próximos, os outros primatas, o equilíbrio de poder favorece os machos na maioria das espécies. No entanto, se persistirem, os leitores podem se surpreender com o que mais aprenderão sobre seus primos distantes e, por inferência, seus próprios ancestrais remotos. Eles não encontrarão nenhuma base para pensar que as mulheres – ou suas predecessoras evolucionárias – já foram dominantes sobre os homens no sentido convencional da palavra, mas eles acharão motivos substanciais para questionar estereótipos que retratam as mulheres como naturalmente menos assertivas, menos inteligentes, menos competitivas ou menos políticas do que os homens.
Por pelo menos duas razões as feministas tendem a rejeitar evidências biológicas sobre fêmeas de outras espécies em seu pensamento sobre a condição humana. Primeiro, existe um equívoco generalizado de que “biologia é destino”. De acordo com essa visão, se até mesmo parte do domínio do macho humano é atribuída a causas evolutivas, um status quo intolerável teria de ser tolerado com como fundamentalmente inalterável. Em segundo lugar, a evidência biológica tem sido repetidamente mal utilizada para apoiar vieses ideológicos, e estudos de campo foram elaborados e executados na escravidão de tais vieses. Certamente, esse foi o caso no estudo de outros primatas. A pesquisa se concentrou na maneira como os machos adultos manobram para obter domínio, enquanto as fêmeas realizam as tarefas de maternidade; negligenciou as manifestações de dominação e assertividade nas próprias mulheres, comportamento que às vezes leva as fêmeas a entrar em conflito com os machos e entre si.
A primatologia é um campo em rápida expansão. A informação mais precisa sobre fêmeas primatas só foi recolhida na última década. Grande parte dela está confinada a teses de doutoramento e relatos técnicos e ainda tem de encontrar seu caminho para a corrente dominante das ciências sociais. Desastrosamente, os peritos que escrevem sobre as diferenças sexuais entre os primatas têm confiado nos estereótipos da fêmea primata construídos no início dos anos 1960. (…)
No entanto, tais estereótipos levaram à impressão generalizada de que “as fêmeas primatas parecem biologicamente não programadas para dominar sistemas políticos, e todo o peso da história de procriação dos primatas relevantes milita contra a participação feminina no que podemos chamar de ‘vida pública primata'”. Como veremos no decorrer deste livro, poucas afirmações sobre as origens biológicas das assimetrias sexuais poderiam estar tão longe da verdade.