Humanidades

Agressores transformam redes sociais em ‘armadilhas’ para mulheres
Caism, há 40 anos referência de atendimento a vítimas de violência sexual e doméstica, registra aumento de casos e desafio é ampliar ação nas periferias
Por Unicamp - 15/04/2026


Vítimas, muitas vezes, chegam ao Hospital da Mulher acompanhadas pelos próprios agressores


Perfis falsos atraem a atenção, geram uma confiança ilusória e, ao final, surge a armadilha que abre caminho para todo tipo de ameaça, agressão e abuso. As redes sociais são um território livre para predadores sexuais atacarem mulheres e meninas. “Democrática”, a violência não escolhe idade, lugar ou condição econômica, apesar de as vítimas pretas e pobres serem os registros mais comuns nas estatísticas. O impacto é tão devastador que alguns profissionais de saúde afirmam que é comum pacientes apresentarem traumas aliados a hipervigilância, ansiedade e amargos flashbacks – um quadro que se encaixa na descrição do transtorno de estresse pós-traumático, semelhante àquele vivenciado por veteranos de guerra.

Esta realidade é cada vez mais comum entre os atendimentos no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism-Unicamp), que há 40 anos é referência no atendimento e acompanhamento de vítimas de violência sexual. Ali, as pacientes — 50% das quais são menores de 18 anos — têm acompanhamento por seis meses após sofrerem a violência sexual. Mesmo entre as demais pacientes que buscam o local para atendimentos diversos, até 15% trazem algum registro de violência.

“As redes sociais estão virando uma armadilha para a mulher. Temos visto um número significativo delas que começa a ter algum contato com uma pessoa pela internet, marca um encontro e percebe que não era nada daquilo. Identidade fake do outro lado, a conversa vai evoluindo e, de repente, ela chega lá e é estuprada”, afirma José Paulo de Siqueira Guida, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism.

O uso das redes sociais como isca para a violência sexual é um fenômeno que ainda desafia os profissionais da saúde. “Isso é uma coisa que a gente está colocando no nosso radar. Há 25 anos, não tínhamos aplicativos. Estamos tentando levantar dados de forma mais consistente até para, depois, poder ajudar as autoridades a terem dimensão de que isso é um problema que está acontecendo. É um novo desafio”, acrescenta o médico.

As consequências de vários desses contatos virtuais que, cada vez mais, se transformam em pesadelos reais acabam sendo registradas no Caism, e sua frequência vem crescendo. “Podemos até comparar como algo em uma escala de catástrofe. Muitas chegam em um estado de apatia, vulnerabilidade, precisando de um lugar de cuidado. A nossa tentativa, o tempo inteiro, é oferecer esse espaço”, afirma Mariana Santos, psicóloga assistencial e supervisora do treinamento na área da Ginecologia do Caism.

“Temos casos que se assemelham ao transtorno de estresse pós-traumático. Muitas desenvolvem esse quadro, que é mais grave e com maior risco de repercussão social, emocional, de distanciamento da rotina e contato com as pessoas. Elas enfrentam a perda da rotina, não conseguem estudar ou trabalhar, passam a viver em um isolamento”, relata a psicóloga.

A profissional, que é responsável por acompanhar as condições emocionais das pacientes, destaca o papel negativo das redes sociais nos últimos anos. “A gente percebe que são ambientes de abuso. Identificamos isso aqui, inclusive, em alguns estudos que produzimos. A violência gerada pelo contato em redes sociais, dos chamados ‘conhecidos virtuais’, aparece nos dados de nossos levantamentos”, confirma Santos.

Sua colega Laíse Potério, supervisora do setor de Psicologia, com quatro décadas de atuação no Caism e muitos momentos de dor e alegria vividos ali, confirma os novos casos que têm chegado. “A busca para conhecer alguém em aplicativos de relacionamentos leva à violência e ao abuso. Eles acontecem nesses encontros marcados. Virou armadilha mesmo”, aponta.

Resgate 

Ândria Cléia Alves, supervisora de seção do Serviço Social do Caism, confirma que as novas formas de relacionamento trouxeram com elas as velhas situações de exploração do corpo e mente das mulheres. “A violência sexual, aquela que atendemos com maior frequência aqui, tem envolvimento de um companheiro, parente, ex-namorado ou conhecido da família, mas também temos essas abordagens através das redes sociais. São pessoas que criam um perfil falso, um vínculo de confiança, e depois cometem o crime. É uma questão de oportunidade”, conta.

Alves está há mais de duas décadas no hospital e convive, ao lado de uma equipe especializada, com a missão de resgatar mentes destruídas pela exposição à violência sexual. “A mulher que vem para o Caism traz todo o seu histórico de vida, e as violências física e doméstica fazem parte disso. Muitas ocorrências são subnotificadas porque, muitas vezes, a mulher não consegue dizer o que está acontecendo, pois existe uma dependência emocional e financeira. Há ameaças a ela e aos filhos. Então, a gente vai acompanhando a situação dessas pessoas. Queremos fortalecer essas mulheres para que, nas próximas ações, elas possam sair dessa situação.”

A subnotificação das pessoas vivendo em situação de violência é o grande desafio para dimensionar, de fato, o problema social que ganhou ares de epidemia nos últimos tempos. Apenas em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um crime é considerado feminicídio quando a vítima é morta pelo simples fato de ser mulher. Em 2015, quando essa tipificação penal foi adotada, o Brasil registrou 535 mortes. Uma década depois, o número cresceu 316%.

Ândria Cléia Alves reforça a questão dos diversos perfis de pacientes: existe a mulher que reconhece a violência sofrida, mas não tem condições de sair da relação naquele momento; as que justificam picos de agressividade dos companheiros provocados pela bebida ou drogas; e há aquelas que naturalizam a situação e não percebem que são vítimas. Existem aquelas que sofrem graves ameaças e têm medo de contar e morrer. A inconformidade do ex-parceiro com o fim da relação, associada a um comportamento violento, são as maiores causas de feminicídio no Brasil.

“Precisamos sempre ter respeito pelo momento delas. Eu tenho como voltar para minha casa e saber como me reorganizar, mas algumas mulheres não têm isso; elas enfrentam o medo de não serem protegidas”, lamenta a supervisora do Caism. “Vivemos sob a cultura do estupro, que busca apontar justificativas para o que acontece com a mulher: a roupa que usa, o horário em que está na rua… Há uma inversão do senso comum. Isso é grave porque você naturaliza a violência e a enxerga como algo que a mulher causou. Na realidade, uma mulher pode estar em qualquer lugar a qualquer momento”, acrescenta Alves.

Como se não bastasse, em algumas ocasiões, as vítimas chegam acompanhadas pelos próprios agressores. “Quando vejo que a pessoa é muito misógina, chamo um médico ou um enfermeiro para atender junto. Daí, o cara baixa a bola. Mas foram poucas vezes que aconteceu isso, porque aqui dentro eles costumam manter o papel de bom moço”, conta a supervisora. “Se a mulher determinar que o acompanhante não entre, não adianta espernear, ele ficará do lado de fora. Pode ter certeza, ele jamais chamará a polícia”, comenta ela.

Ainda de acordo com Alves, sempre foi difícil ocupar o papel de mulher na sociedade. Elas são colocadas em um lugar onde existe a necessidade de proteção porque aos homens tudo é permitido. “Penso que há um movimento de ódio contra a mulher. Tem relação com o que vivemos nos últimos anos. Houve um movimento de desmobilização, falta de investimento em políticas públicas para a mulher. Todo esse trabalho precisou ser reconstruído”, diz a profissional do Caism.


Em 2023, o hospital lançou “Violência contra a Mulher – Cartilha para profissionais de saúde na atenção pré-natal e pós-natal”, das autoras Odette del Risco Sánchez, então doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da FCM, Ândria Cléia Alves, assistente social, Fernanda Garanhani de Castro Surita, professora da FCM. O objetivo do material, que é distribuído gratuitamente, é pontuar questões relevantes para os profissionais da saúde sobre a violência contra a mulher, disponibilizar referências para aprofundar o conhecimento sobre o tema e disponibilizar os serviços existentes na região para oferecer os encaminhamentos necessários. 

A abordagem deste tema dentro do serviço permite que as mulheres possam identificar as instituições de saúde como espaços acolhedores e de proteção.

Além dessa espécie de guia de atendimento, os profissionais do Caism também adotam a conduta de fazer com que as vítimas contem suas histórias apenas uma vez, tudo para que elas não revivam os chamados “gatilhos” de sofrimento. Outra iniciativa é incluir um protocolo de questões em todos os tipos de atendimento, para identificar situações menos evidentes. Algumas perguntas são: Está tudo bem em sua casa, com seu companheiro? Você está com problemas no relacionamento familiar? Você acha que os problemas em casa estão afetando sua saúde?

Morte

Além da dificuldade de lidar com histórias sempre complexas, há ainda uma dor maior: a derrota para a morte. “Já aconteceu de perdermos alguém. Não vou entrar em detalhes, mas era uma pessoa que já vinha de um processo crônico de violência doméstica. O sentimento é horroroso, muito difícil. Foi uma pessoa que lutou bastante, teve toda uma rede envolvida e cuidados, mas, mesmo assim, a gente não conseguiu”, lamenta a supervisora do Serviço Social. “Tem circunstâncias que independem dos serviços. Em alguns momentos, a gente fica em uma situação de impotência diante de algumas coisas que não vão mudar completamente… Sabemos que alguns casos vão dar certo e outros não, por isso não podemos naturalizar ou perder a força de nos indignarmos diante das situações de violência”, observa Alves.


A psicóloga Laíse Potério incorpora essa mentalidade de que o apoio às mulheres vai além dos atendimentos. “Estou aqui desde o princípio, e todos os casos nos atravessam de alguma forma, porque a gente é mulher, mãe, filha. Essa violência é sempre um divisor de águas mesmo. A vida da mulher nunca mais será igual”, diz ela. “Chega, basta! Não dá para você ter um filho ou uma filha e não discutir essas questões com eles hoje em dia ou esperar que a escola faça isso. Falta um letramento sobre educação sexual. Nossa sociedade está doente”, desabafa Potério.

Ela conta que algumas mulheres têm necessidade de contar o ocorrido, como uma saída terapêutica. Já outras não têm mais estrutura para isso. São adolescentes e mulheres trazendo uma culpa enraizada, como se o ocorrido tivesse sido provocado por elas, através de um comportamento ou da escolha de uma roupa. Buscar ajuda e passar pelos procedimentos e exames necessários já é um desafio. “Quando a vítima chega aqui, esse reviver é avassalador. Os mecanismos de esquecimento precisam ser remexidos, e isso é extremamente doloroso. Algumas dizem que não vão contar para a família porque temem o julgamento, a vergonha, o ataque à reputação e a visão distorcida do ocorrido. Outras começam a tomar muitos banhos para tirar uma sujeira que está, na verdade, na alma”, afirma a psicóloga. “Elas vêm desesperadas e, ao vivenciar uma escuta empática, mudam. Ao final, buscam um longo abraço. É a sensação de não estar sozinha. As mulheres estão tendo acesso à informação e tentando buscar outros caminhos”, afirma Potério, com a experiência de quem sabe que, enquanto existir empatia, a batalha não estará perdida.

Infográfico Raixo-X dos feminicídios 

Tecnologia que permite avanços é a mesma que fomenta agressões
Aspas

Com o crescimento acelerado dos aplicativos e sites de relacionamento, aliado a uma vida cada vez mais conectada nas redes sociais e ao avanço das tecnologias de geração de conteúdo por inteligência artificial, os cuidados ao se expor nesse ambiente precisam ser redobrados. Um dos principais pontos de atenção é a dependência emocional: pessoas mal-intencionadas frequentemente buscam indivíduos em situação de vulnerabilidade, explorando carência e fragilidade emocional. Por isso, antes de iniciar qualquer interação, é fundamental cuidar de si, fortalecer a autoestima e encontrar satisfação na própria vida, reduzindo a chance de manipulação por terceiros.

Mesmo ao se sentir preparada para um relacionamento — seja uma amizade virtual ou algo mais sério —, a cautela continua sendo indispensável. Perfis falsos criados com o uso de tecnologias generativas (que utilizam dados, textos, imagens, vídeos, áudios e códigos verdadeiros para criar algo diferente) são cada vez mais comuns, exigindo atenção a sinais suspeitos, como perfis excessivamente perfeitos ou comportamentos inconsistentes.

Nunca compartilhe dinheiro, dados pessoais sensíveis ou informações que possam comprometer sua segurança. Em chamadas de vídeo, observe possíveis falhas, como desalinhamento entre voz e imagem ou irregularidades faciais. Caso decida encontrar alguém presencialmente, avise pessoas de confiança, escolha locais públicos e movimentados e, se possível, vá acompanhada. Adotar essas precauções não é exagero, mas sim uma forma responsável de preservar sua segurança. Aspas

Stephane de Freitas Schwarz é doutoranda em Ciência da Computação, na Unicamp, na área de Análise Forense, e pesquisadora do Laboratório de Inteligência Artificial (Recod.ai).

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Feminicídio é epidêmico no país, diz ministra das Mulheres

Assistente social e professora universitária aposentada, Márcia Lopes, ministra das Mulheres, defende a regulamentação das mídias sociais como forma de combate à violência digital que afeta meninas e mulheres no Brasil. Durante uma agenda em Campinas, ela se mostrou alarmada com a escalada do feminicídio no País.

“É muito importante que todas as políticas públicas olhem para esse fenômeno para, inclusive, analisar, dimensionar e entender o que tem ocorrido. O Ministério da Saúde, por exemplo, está tomando uma série de medidas, e uma delas é a solicitação junto à Organização Mundial da Saúde para incluir o feminicídio como um item do CID (Classificação Internacional de Doenças)”, afirmou a ministra, concordando que há uma epidemia de violência de gênero no País.

“A violência não nasce do nada. Precisamos investir na educação, na formação, romper ciclos históricos de machismo e misoginia. Se, daqui a alguns anos, tivermos profissionais de todas as áreas com outra formação, certamente essa realidade de banalização da violência vai se modificar. Por isso, queremos mais mulheres na política. Defendemos paridade: 50% de mulheres nos espaços de poder. Isso faz diferença. Sabemos que o mundo vem de uma raiz patriarcal, machista e misógina. Por isso a nossa luta é grande”, comentou Lopes.

A ministra citou o Pacto Brasil contra o feminicídio, lançado em fevereiro em todo o território nacional, que representa um compromisso entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para agilizar o enfrentamento da violência contra a mulher. A meta é reduzir a impunidade e acelerar medidas que fortaleçam as redes de proteção. (Colaborou Daniela Prandi)

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OS REDPILLS E A ‘MACHOSFERA’

Hoje, vemos a proliferação de conteúdos misóginos, como os chamados “redpills”, que não só reforçam estereótipos violentos, mas também normalizam o ódio, a desumanização e até a legitimação da violência contra mulheres.

Ao mesmo tempo, temos um cenário em que a juventude tem se mostrado mais conservadora do que gerações anteriores, algo que pesquisas recentes vêm apontando. O que se observa é que os mais jovens têm concordado mais com visões tradicionais sobre gênero, muitas delas baseadas em desigualdade e violência contra as mulheres.

A questão é que esse conservadorismo, combinado com a misoginia presente em parte da Geração Z, tem forte influência do ambiente digital. Por meio dos conteúdos da chamada “machosfera”, jovens encontram espaços que não só reforçam essas visões como também legitimam e incentivam comportamentos violentos contra mulheres. O caso recente de estupro coletivo em Copacabana, em que um dos suspeitos se apresentou à polícia usando uma camiseta com o lema de um influenciador “redpill”, evidencia como esses conteúdos transbordam para a vida real.

O que circula na internet impacta diretamente os comportamentos fora dela, influencia atitudes, molda relações e, no caso dos conteúdos “redpill”, alimenta todas as formas de violência contra a mulher: física, sexual, psicológica e moral. Esse cenário é agravado por características próprias do ambiente digital, como a velocidade de disseminação, o alcance maciço e a sensação de anonimato, que reduz barreiras para comportamentos agressivos.

Nesse contexto, é fundamental fortalecer políticas de formação e proteção para esses jovens. Estamos falando de pessoas em formação, expostas a um ambiente ainda pouco regulado e insuficientemente monitorado. É necessário avançar na regulação, tanto para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, através de iniciativas como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) digital, quanto para garantir a retirada de conteúdos criminosos e a responsabilização de quem os produz e dissemina. Aspas
Beatriz Schroeder, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 

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