Humanidades

Islamofobia persiste e se espalha por diferentes esferas da vida de mulheres muçulmanas no Brasil
Discriminação atinge maioria das mulheres muçulmanas no Brasil e se manifesta da violência verbal à exclusão social, com baixa procura por apoio institucional e impacto direto na vida cotidiana
Por Sofhia Camargo - 19/04/2026


Mulheres muçulmanas continuam sofrendo discriminação no Brasil, segundo relatório de islamofobia – Foto: Freepik


Resultados iniciais do terceiro relatório sobre islamofobia no Brasil, coordenado pela antropóloga Francirosy Campos Barbosa, docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, indicam um quadro persistente de discriminação contra mulheres muçulmanas no País, com episódios que vão da hostilidade verbal à violência física e institucional.

A pesquisa contou com a participação de 328 mulheres muçulmanas, que responderam questionários e fizeram relatos anônimos. A coleta de dados ocorreu de janeiro a março de 2026 em todo Brasil, com maior participação de mulheres do Sul e Sudeste. Os resultados mostram que 92,2% das participantes acreditam que mulheres muçulmanas sofrem discriminação no Brasil, enquanto 80,4% afirmam já ter sido vítimas de preconceito.

A forma mais recorrente de agressão é a verbal. Entre os relatos, são mencionadas ofensas diretas, muitas vezes associadas a termos como “terrorista” ou “mulher-bomba”. No entanto, os dados também revelam situações mais graves, como agressões físicas, perseguições e constrangimentos em instituições, incluindo revistas abusivas, impedimentos em provas e dificuldades em acessar serviços públicos.

Dentro do número total de participantes são identificadas diferentes categorias de mulheres muçulmanas: 82,3% são brasileiras revertidas, aderiram à religião ao longo da vida, após terem sido criadas em outra tradição religiosa; 12,2% são brasileiras nascidas muçulmanas; 1,5% são estrangeiras nascidas; 0,9% são estrangeiras revertidas.

Violência cotidiana e invisível

Entre mulheres brasileiras revertidas, os dados aprofundam o diagnóstico de vulnerabilidade. A ampla maioria reconhece a existência de discriminação, e mais de quatro em cada cinco relatam já ter sofrido preconceito ou atos diretos de islamofobia. Os episódios se concentram em espaços públicos, no ambiente de trabalho, na internet e também dentro de casa, um dado que expõe o alcance doméstico da intolerância.

A rejeição familiar aparece com mais força neste grupo. Segundo a coordenadora da pesquisa, “o principal fator não é propriamente a nacionalidade, mas o fato de que a família de origem não compartilha da mesma fé”. A incompreensão religiosa, muitas vezes alimentada por estereótipos difundidos socialmente, tende a se intensificar quando há mudanças visíveis na identidade, como o uso do véu.

Os relatos evidenciam o impacto concreto dessa hostilidade. “Fui agredida no ônibus e tiraram meu hijab”, escreveu uma das participantes. Outra descreve um cotidiano ainda mais brutal: “Já fui agredida fisicamente por um homem evangélico, fui apedrejada por crianças, vítima de piadas e risadas nas ruas”. Em muitos casos, a violência se prolonga no ambiente profissional: “Fui em uma entrevista de trabalho e a empregadora me falou que não aceitava gente como eu”.

Entre as estrangeiras, a islamofobia frequentemente se soma à xenofobia. Mais da metade relata discriminação por origem, e a totalidade afirma já ter sido alvo de preconceito por ser muçulmana. Nos relatos, a percepção de exclusão é recorrente, ainda que os números absolutos desse grupo sejam menores na amostra.

O véu como marcador de exposição

O uso do hijab aparece como elemento central na experiência de discriminação. A própria pesquisadora ressalta que “o hijab é um marcador visível que sinaliza a diferença. Ele não é o causador da violência, mas contribui para maior exposição”.

Os dados confirmam essa leitura: mulheres que utilizam o véu relatam maior incidência de abordagens hostis, constrangimentos públicos e restrições institucionais. Em alguns casos, há tentativas de retirada forçada do hijab ou impedimentos em processos seletivos e avaliações.

As consequências dessa exposição são concretas. Parte das entrevistadas afirma ter deixado de usar o hijab no Brasil por medo. Outras relatam adaptações mais profundas. “Sou professora, e as mães dos meus alunos descobriram a minha religião pelas minhas redes sociais. Desde esse dia me tornei a ‘pior’ professora para as crianças”, escreveu uma participante, que acabou pedindo demissão após pressão psicológica.

Subnotificação e descrença institucional

Apesar da gravidade e da frequência dos episódios, a maioria das vítimas não busca apoio institucional nem formaliza denúncias. A subnotificação é um dos pontos críticos identificados no relatório.

De acordo com Francirosy, isso ocorre porque “consideram que a denúncia não vai resultar em alguma resposta positiva e também porque a maioria das violências acontece em espaço público, muitas vezes difícil de provar”.

Os relatos reforçam essa percepção de desamparo. “Fui agredida fisicamente, fiz boletim de ocorrência, mas não quiseram testemunhar a meu favor, mesmo muita gente tendo presenciado”, diz uma das respostas. A sensação recorrente é de impotência e isolamento, o que contribui para o silêncio diante das agressões.

Mesmo quando não há violência física, os efeitos psicológicos são profundos. Medo, vergonha e sensação de não pertencimento aparecem de forma sistemática, indicando que a islamofobia atua não apenas como evento pontual, mas como experiência contínua.

O conjunto dos dados e depoimentos aponta para um padrão consistente. A islamofobia no Brasil se manifesta de forma difusa, atravessando relações familiares, espaços públicos e instituições, e tende a permanecer invisível diante da baixa procura por mecanismos formais de denúncia.

Além da coordenadora Francirosy Campos Barbosa, participam da pesquisa Luiz Felipe D. Pereira, Camila Motta Paiva, Felipe Sanches Carnielli, Natalia Augustini e Najwa Dagash.

 

.
.

Leia mais a seguir