Humanidades

Sistemas digitais usados no policiamento não são neutros
O trabalho discute o crescimento do chamado 'policiamento preditivo', que usa dados para tentar antecipar crimes, locais ou suspeitos
Por USP - 17/05/2026


Foto: Agencia Brasil


Uma tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP investiga como o policiamento orientado por dados pode acabar reproduzindo desigualdades raciais.

Letícia Pereira Simões Gomes, a pesquisadora responsável pelo trabalho, definiu como base para o estudo a Polícia Militar de São Paulo e o Departamento de Polícia de Nova York nos Estados Unidos, pois são duas instituições de cidades grandes e que, de acordo com suas especificidades, recebem modernizações e incorporações tecnológicas. “Eu identifiquei que havia uma certa interação entre as preocupações das duas corporações”, comentou ela.

A pesquisa inicialmente tinha ordem qualitativa, através de entrevistas e análises documentais. Conforme foi avançando, Letícia também realizou questionários de maneira remota com os policiais norte-americanos.

O policiamento orientado por dados utiliza um grande volume de informações para guiar decisões e estratégias de vigilância. Segundo ela, a polícia de Nova York já utiliza métodos de quantificação desde a década de 70. São tecnologias com sensores, leitores de placa, câmeras de reconhecimento facial. Lá, a vigilância com o uso desses recursos acontece em bairros com maioria não branca, o que cria uma densidade de dados diferente em grupos sociais. “Você tem uma produção e digitalização de dados que vão contribuir para produzir determinadas representações e memórias coletivas sobre pessoas e territórios”, explica a pesquisadora.

Como funciona em São Paulo?

Letícia explica que uma das principais diferenças no uso dessas ferramentas de policiamento entre as duas cidades está no fato de que, em São Paulo, o foco não está tanto em vigiar as regiões consideradas mais marginalizadas, mas sim em áreas centrais, para garantir o controle de circulação de pessoas. Segundo a autora, isso leva à vigilância maior sobre pessoas negras em determinados locais da cidade, especialmente quando são vistas como “fora do lugar”.  Outro fator que diferencia é que a Polícia de São Paulo utiliza vários sistemas como o Copom On-line, o Muralha Paulista e o Infocrim.

Para ela, essas inovações servem principalmente para legitimar a atuação policial, sem necessariamente romper com modelos marcados pela violência de Estado e pela desigualdade no tratamento das populações periféricas e negras. Ao mesmo tempo em que essas tecnologias são apresentadas como modernas, eficientes e capazes de melhorar a segurança pública, elas também reforçam práticas históricas de controle social e seletividade racial. 

 

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