Mais de um terço da população em situação de rua de Ribeirão Preto nunca fez um exame de vista
Pesquisa aponta barreiras estruturais ao acesso à saúde ocular, mostra que oferecer serviços não garante atendimento efetivo e indica adaptação de cuidados para essa população

“Para reduzir desigualdades, não basta oferecer o serviço da forma tradicional; é preciso adaptar a organização do cuidado à realidade concreta dessa população”, afirma pesquisador – Foto: Magnific
Mais de um terço da população em situação de rua nunca passou por um exame oftalmológico, enquanto outra parcela semelhante estava há mais de cinco anos sem qualquer avaliação da visão. Os dados fazem parte de um estudo desenvolvido pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, que investigou a saúde ocular dessa população, expondo barreiras que vão além da oferta de serviços, como falta de documentos, dificuldade de acesso, estigma social e prioridades ligadas à própria sobrevivência.
A pesquisa, chamada Hopes – sigla de Homelessness in Ribeirão Preto Eye Study (Estudo da Saúde Ocular em Pessoas em Situação de Rua de Ribeirão Preto) –, adaptou métodos tradicionais para alcançar essa população, historicamente invisibilizada pelas estatísticas. Segundo o professor da FMRP João Marcello Furtado, principal autor do estudo, enfrentar essa lacuna importante do conhecimento foi a principal motivação. “As pesquisas oftalmológicas tradicionais costumam depender de domicílios, endereços fixos e bases censitárias, o que acaba excluindo pessoas em situação de rua.”
A população em situação de rua, afirma o professor, permanece pouco visível nas estimativas de deficiência visual, cegueira e acesso a cuidados oftalmológicos. Por isso, o estudo “nasceu justamente da necessidade de produzir dados mais inclusivos e de entender melhor as barreiras reais de acesso ao cuidado ocular em um grupo social altamente vulnerável, mesmo em uma cidade com boa infraestrutura e com presença de serviços especializados como Ribeirão Preto”.
Exames oftalmológicos em abrigos e instituições parceiras
Para participar, os voluntários tinham que ter mais de 18 anos, estar em situação de rua no momento da abordagem e viver em Ribeirão Preto. Ao todo, 518 pessoas foram convidadas. Dessas, 491 aceitaram participar e 461 concluíram todas as etapas dos exames oftalmológicos, números considerados altos para estudos com populações de difícil acesso. A pesquisa foi realizada em abrigos, centros de apoio municipais e instituições sociais parceiras.
Os pesquisadores optaram por não fazer coletas diretamente nas ruas ou em espaços abertos, tanto por questões de segurança quanto pela necessidade de condições adequadas para a realização dos exames. “Na prática, a equipe levou o exame oftalmológico até os locais onde essa população já estava sendo atendida, como centro especializado, abrigos e instituições parceiras. Isso incluiu visitas repetidas, coordenação prévia com as equipes locais e uso de equipamentos portáteis para avaliação visual, refração, pressão intraocular, biomicroscopia, exame de fundo de olho e fotografia de retina”, explica Furtado.
Segundo ele, essa adaptação foi necessária porque não havia como aplicar um modelo convencional de amostragem populacional, nem depender de comparecimento posterior a clínicas. “A alta mobilidade, a ausência de endereço fixo, a dificuldade de documentação e as prioridades imediatas de sobrevivência exigiram um desenho mais flexível, mais próximo da realidade dessa população e, ao mesmo tempo, capaz de manter a qualidade técnica.”
Além disso, os pesquisadores forneceram óculos gratuitamente aos participantes que precisavam de correção visual, enquanto casos considerados mais graves foram encaminhados para atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Vulnerabilidade social e dificuldade de acesso
Como resultados, o estudo revelou um cenário de forte vulnerabilidade social e grande déficit no acesso à saúde ocular entre pessoas em situação de rua. A amostra foi composta principalmente de homens (84,8%), com maior concentração entre 40 e 59 anos (51,0%). Quase metade relatou estar em situação de rua havia até um ano (47,5%); 55,7% tinham até oito anos de escolaridade; 33,8% nunca haviam feito exame oftalmológico e 33,2% relataram que o último exame havia sido realizado há mais de cinco anos.
Mesmo em uma cidade estruturada e atendida pelo SUS, o acesso a cuidados oftalmológicos se mostrou limitado, com mais de um terço dos participantes sem nunca ter realizado um exame de vista. “A simples existência de serviços oftalmológicos na cidade não garante acesso real para quem vive em situação de extrema vulnerabilidade. Além disso, o estudo reforça que a situação de rua nem sempre é estática: muitos participantes estavam nessa condição havia relativamente pouco tempo, o que indica trajetórias marcadas por instabilidade e recorrência, e não apenas marginalização crônica fixa” acrescenta Furtado.
Além dos dados clínicos e sociais, a pesquisa trouxe aprendizados práticos sobre o atendimento dessa população. O professor aponta a entrega imediata de óculos como uma solução importante. “Essa estratégia faz diferença porque o seguimento é difícil. Em uma população com alta mobilidade e grande instabilidade, depender de retorno posterior reduz muito a chance de o benefício realmente chegar à pessoa.”
O estudo mostrou que óculos para perto, entregues no mesmo momento, eram especialmente bem-aceitos. Já os óculos personalizados, mesmo quando produzidos em prazo relativamente curto, ainda enfrentam perdas no seguimento: 41 pares não puderam ser entregues porque os participantes não foram localizados nas visitas seguintes. “Portanto, a entrega imediata transforma uma oportunidade de cuidado em benefício concreto, enquanto modelos que exigem reencontro posterior tendem a falhar mais nessa população”, ressalta.
Redução de desigualdades exige adaptação de cuidados à população
Os resultados do estudo indicam ainda que ampliar o acesso à saúde ocular vai além da simples oferta de consultas ou exames. “A vulnerabilidade social produz barreiras específicas e cumulativas ao cuidado ocular, mesmo quando o sistema de saúde é universal e mesmo quando há oferta de especialistas na região”, diz Furtado.
Para o docente, falta de documentos, estigma, dificuldade de navegação no sistema, necessidades urgentes de alimentação e segurança e instabilidade habitacional reduzem muito a chance de prevenção, diagnóstico e tratamento em tempo oportuno. “Em outras palavras, proximidade geográfica de serviços não é sinônimo de acesso efetivo.”
O estudo sugere ainda que, para reduzir desigualdades, não basta oferecer o serviço da forma tradicional; é preciso adaptar a organização do cuidado à realidade concreta dessa população. A pesquisa também abre caminho para futuras análises sobre prevalência de deficiência visual, cegueira, fatores de risco e qualidade de vida relacionada à visão nessa população.
Além disso, os dados coletados poderão contribuir para avaliar indicadores internacionais de cobertura de serviços oftalmológicos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ajudando a dimensionar desigualdades no acesso ao cuidado visual. “Em uma perspectiva de médio prazo, também pretendemos desenvolver novos estudos voltados a identificar estratégias que possam ampliar o acesso e melhorar a qualidade do cuidado oftalmológico oferecido a essa população”, conclui o professor.
Mais informações: João Marcello Furtado, furtadojm@fmrp.usp.br