Humanidades

Likes, hábitos e algoritmos: estudo revela que redes sociais moldam comportamento como um sistema de recompensas
Pesquisa com quase 2.700 usuários do X mostra que curtidas funcionam como reforços psicológicos capazes de transformar ações conscientes em hábitos automáticos. Jovens e mulheres são mais sensíveis às recompensas digitais, enquanto usuários mais...
Por Redação MaisConhecer - 06/06/2026


Imagem: Reprodução


Pesquisa com quase 2.700 usuários do X mostra que curtidas funcionam como reforços psicológicos capazes de transformar ações conscientes em hábitos automáticos. Jovens e mulheres são mais sensíveis às recompensas digitais, enquanto usuários mais frequentes agem de forma cada vez mais automática.

As redes sociais transformaram a comunicação global em pouco mais de duas décadas. Agora, um estudo publicado nesta quinta-feira (4), na revista científica Nature Communications, lança nova luz sobre uma questão central da era digital: por que continuamos postando, curtindo e retornando às plataformas mesmo quando não temos um objetivo claro?

A resposta pode estar em mecanismos psicológicos profundamente enraizados na evolução humana. Segundo a pesquisa liderada por Georgia Turner, da MRC Cognition and Brain Sciences Unit, em colaboração com cientistas da Stanford University e da École Normale Supérieure, o comportamento nas redes sociais é impulsionado por uma combinação de aprendizado por recompensa e formação de hábitos — os mesmos mecanismos observados em estudos clássicos com animais.

O trabalho analisou dados reais de 2.696 usuários do Twitter/X, examinando mais de 684 mil publicações coletadas ao longo de vários anos. A equipe desenvolveu um modelo computacional capaz de medir como cada usuário reage às recompensas recebidas na plataforma, especialmente às curtidas.

“Mostramos que o comportamento nas redes sociais não é guiado apenas pela busca consciente por recompensas. Há uma interação entre sistemas de aprendizagem por reforço e processos habituais”, afirmam Turner e seus colegas no artigo.

O cérebro aprende com curtidas

O conceito central da pesquisa é o chamado aprendizado por reforço (reinforcement learning), um mecanismo pelo qual indivíduos ajustam suas ações com base nos resultados obtidos anteriormente.

Na prática, quando uma postagem recebe mais curtidas do que o esperado, o cérebro interpreta isso como um sinal positivo. O resultado é uma maior probabilidade de publicar novamente em menos tempo.

Os pesquisadores verificaram que esse padrão aparece de forma consistente nos dados. Usuários que recebiam mais curtidas do que previam tendiam a acelerar sua próxima postagem. O efeito foi estatisticamente robusto e replicado em diferentes grupos da amostra.

“Os dados mostram que recompensas digitais exercem influência mensurável sobre decisões futuras”, observam os autores.

Segundo o estudo, esse comportamento lembra mecanismos observados em animais que aprendem a pressionar alavancas para obter alimento. A diferença é que, no ambiente digital, o “alimento” é substituído por sinais de aprovação social, como curtidas, compartilhamentos e engajamento.

Quando o hábito assume o controle

Mas o trabalho vai além da ideia de que usuários simplesmente perseguem curtidas.

Os cientistas descobriram que, à medida que a frequência de postagem aumenta, o comportamento passa a ser dominado por hábitos. Em outras palavras, muitos usuários continuam publicando não porque estejam avaliando conscientemente os benefícios de cada postagem, mas porque o comportamento se tornou automático.

Os participantes que postavam com maior frequência apresentavam níveis significativamente mais altos do chamado “peso do hábito”, um parâmetro desenvolvido pelo modelo computacional para medir a influência de ações repetidas ao longo do tempo.


“Os usuários mais frequentes exibiram assinaturas computacionais convergentes de comportamento habitual”, conclui o estudo.

Essa descoberta reforça preocupações antigas de psicólogos e especialistas em tecnologia. Redes sociais modernas utilizam mecanismos de recompensa intermitente — semelhantes aos observados em máquinas caça-níqueis — capazes de fortalecer hábitos persistentes e difíceis de interromper.

Jovens e mulheres respondem mais às recompensas

Outro resultado importante envolve diferenças demográficas.

A análise revelou que jovens e mulheres apresentam maior sensibilidade às recompensas sociais online, ajustando seu comportamento de maneira mais ativa para maximizar curtidas e engajamento.

Já usuários mais velhos e homens mostraram maior predominância de padrões habituais, com menor adaptação estratégica às recompensas recebidas.

Segundo os autores, essa diferença pode refletir fatores biológicos e sociais. Adolescentes, por exemplo, costumam atribuir maior valor às recompensas sociais. Mulheres também enfrentam pressões específicas em ambientes digitais, onde aprovação e visibilidade frequentemente exercem influência mais intensa sobre comportamentos cotidianos.

“Essas populações são mais propensas a adaptar ativamente seu comportamento para maximizar recompensas sociais”, escrevem os pesquisadores.

O debate sobre saúde mental

Apesar da crescente preocupação pública sobre os impactos das redes sociais na saúde mental, a pesquisa encontrou um resultado surpreendente: não houve evidências consistentes de associação entre os parâmetros de aprendizado por recompensa e os níveis de bem-estar psicológico medidos nos participantes.

Os autores analisaram respostas ao Authentic Happiness Inventory (AHI), questionário amplamente utilizado para avaliar felicidade e satisfação com a vida. Nenhuma relação significativa foi identificada entre o funcionamento dos sistemas de recompensa observados no modelo e os níveis declarados de bem-estar.

Isso não significa que as redes sociais sejam inofensivas, alertam os pesquisadores. O resultado sugere apenas que a relação entre uso de plataformas digitais e saúde mental pode ser muito mais complexa do que simples correlações entre tempo de tela e felicidade.

Uma nova forma de estudar as redes sociais

Para os autores, o principal avanço do estudo não está apenas nos resultados, mas na metodologia.

Durante anos, grande parte das pesquisas tentou explicar os efeitos das redes sociais medindo apenas o tempo gasto nas plataformas. Essa estratégia produziu resultados frequentemente contraditórios.

O novo modelo computacional busca algo diferente: compreender os mecanismos cognitivos que operam por trás de cada ação digital.

“Questões fundamentais sobre como as redes sociais estão transformando a vida moderna permanecem limitadas pela falta de métodos científicos adequados para medir e compreender o comportamento online”, escrevem os pesquisadores.

A equipe acredita que futuras versões do modelo poderão ajudar a entender fenômenos que vão da polarização política ao uso compulsivo de plataformas digitais. Também poderão orientar políticas públicas e mudanças de design em aplicativos.

A conclusão é provocativa. Curtidas, compartilhamentos e notificações não são apenas elementos decorativos da experiência digital. Eles interagem com sistemas cognitivos moldados ao longo de milhões de anos de evolução. E, em muitos casos, aquilo que começa como uma escolha consciente pode acabar se transformando em hábito.

Num mundo em que bilhões de pessoas acessam redes sociais diariamente, compreender essa transição talvez seja uma das questões científicas mais importantes da era digital.


Referência
Turner, G., Gunschera, L.J., Subrahmanya, S. et al. Um modelo computacional de aprendizagem de recompensa e hábitos em mídias sociais. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73547-6

 

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