Humanidades

Trabalho, diploma e salário: estudo global revela que ter educação acima do cargo pode reduzir rendimentos
Pesquisa com dados de 26 países mostra que excesso de escolaridade e excesso de habilidades estão associados a penalidades salariais, enquanto trabalhadores subqualificados tendem a receber prêmios salariais.
Por Laercio Damasceno - 12/06/2026


Imagem: Reprodução


Durante décadas, economistas partiram de uma premissa aparentemente intuitiva: mais educação significa mais habilidades, e mais habilidades significam salários maiores. Um novo estudo internacional, porém, sugere que a realidade é mais complexa. Utilizando dados de mais de 72 mil trabalhadores em 26 países, o pesquisador Vsevolod Iakovlev conclui que educação e habilidades não são sinônimos e que a forma como elas se alinham às exigências do emprego tem efeitos significativos sobre os rendimentos.

O trabalho, intitulado “Skill vs Education Types of Labour Mismatch and Their Association with Earnings”, foi desenvolvido na Heriot-Watt University e divulgado em junho de 2026. A pesquisa utiliza informações da primeira rodada do Programa Internacional para Avaliação das Competências de Adultos (PIAAC), coordenado pela Organisation for Economic Co-operation and Development, uma das mais abrangentes bases de dados sobre educação, habilidades e mercado de trabalho no mundo.

O principal achado desafia interpretações tradicionais da economia do trabalho. Após controlar diferenças estruturais entre países, o estudo mostra que trabalhadores com escolaridade acima da exigida para suas funções — os chamados “sobre-educados” — enfrentam penalidades salariais. O mesmo ocorre com profissionais que possuem habilidades superiores às requeridas pelo cargo, classificados como “sobrequalificados”. Em contraste, trabalhadores com menos educação formal ou habilidades abaixo das exigências teóricas frequentemente recebem salários mais altos do que seus pares adequadamente enquadrados.

“Os resultados confirmam que incompatibilidades educacionais e de habilidades devem ser distinguidas tanto conceitualmente quanto empiricamente”, escreve Iakovlev. Segundo ele, utilizar educação como substituta direta das habilidades pode produzir conclusões equivocadas sobre os determinantes dos salários.

Um debate que atravessa seis décadas

A pesquisa se insere em uma longa tradição inaugurada pelo economista Jacob Mincer, cujo trabalho sobre capital humano, publicado nos anos 1950, estabeleceu a relação entre escolaridade e renda como um dos pilares da economia do trabalho. Desde então, estudiosos buscam compreender por que indivíduos com níveis semelhantes de educação frequentemente recebem salários muito diferentes.

Uma das explicações mais influentes é o chamado “descasamento” ou mismatch laboral: a diferença entre as qualificações de um trabalhador e as exigências do emprego que ocupa. Tradicionalmente, pesquisadores mediam esse fenômeno comparando anos de estudo e requisitos educacionais dos cargos. O avanço de pesquisas que avaliam diretamente competências cognitivas abriu caminho para uma nova pergunta: habilidades e educação contam a mesma história?

Iakovlev mostra que não.

Uma amostra global sem precedentes

O estudo analisou trabalhadores empregados em países que vão de Dinamarca e Noruega a México, Chile e Equador. A base inclui informações detalhadas sobre renda, escolaridade, ocupação, idade, gênero e desempenho em testes padronizados de alfabetização, numeracia e resolução de problemas.

Ao todo, foram considerados mais de 72 mil indivíduos. A renda média observada foi de US$ 14,60 por hora, ajustada por paridade de poder de compra, embora existam grandes diferenças entre os países. A Dinamarca apresentou uma renda mediana superior a US$ 23 por hora, enquanto México, Equador e Cazaquistão registraram valores inferiores a US$ 5.

As habilidades foram avaliadas em uma escala de 500 pontos. As médias observadas foram de aproximadamente 272 pontos em alfabetização, 268 em numeracia e 280 em resolução de problemas.

O peso da escolha metodológica

Um dos aspectos mais importantes do trabalho é a comparação entre diferentes formas de medir o descasamento profissional. O autor analisou três métodos baseados em educação e três baseados em habilidades, avaliando como cada abordagem altera as conclusões sobre salários.

Os resultados revelaram que indicadores distintos podem gerar interpretações opostas. Em alguns países, níveis elevados de sobre-educação coexistem com baixa incidência de incompatibilidade de habilidades. Em outros, ocorre o contrário. Isso sugere que diploma e competência efetivamente capturam dimensões diferentes da inserção profissional.


Segundo o pesquisador, parte das divergências observadas na literatura internacional decorre justamente da escolha dos indicadores. Quando diferenças estruturais entre países não são controladas, os resultados podem sofrer viés significativo.

Implicações para empresas e políticas públicas

As conclusões têm relevância prática para governos, universidades e empregadores. Em muitos países, a expansão do ensino superior foi vista como estratégia central para aumentar produtividade e renda. Entretanto, o estudo sugere que simplesmente elevar a escolaridade da população não garante melhor correspondência entre trabalhadores e vagas.

Para empresas, a pesquisa reforça a importância de processos de recrutamento capazes de identificar competências efetivas, e não apenas credenciais acadêmicas. Para formuladores de políticas públicas, os resultados apontam para a necessidade de alinhar sistemas educacionais às demandas reais do mercado de trabalho.

O trabalho também identifica diferenças importantes entre grupos populacionais. O autor observa heterogeneidade relevante segundo gênero e condição migratória, indicando que a dinâmica do descasamento profissional pode afetar trabalhadores de maneira desigual.

Uma nova agenda para a economia do trabalho

Embora a relação entre educação e salário continue sendo um dos pilares da teoria econômica, a pesquisa mostra que essa conexão é mediada por fatores mais complexos do que se imaginava. O diploma permanece importante, mas não substitui a análise das competências efetivamente utilizadas no trabalho.

Ao distinguir educação de habilidades, Iakovlev recoloca em debate uma questão central para economistas, gestores e governos: como garantir que o capital humano acumulado por uma sociedade seja utilizado de forma eficiente?

A resposta, sugere o estudo, não está apenas em formar mais trabalhadores qualificados, mas em criar mercados de trabalho capazes de conectar, de maneira mais precisa, as competências das pessoas às necessidades das ocupações. Em uma economia cada vez mais dependente do conhecimento, essa correspondência pode ser tão importante quanto a própria educação.


Referência
Tipos de desajuste entre habilidades e educação no mercado de trabalho e sua relação com os rendimentos. Vsevolod Iakovlev. https://doi.org/10.48550/arXiv.2606.13506

 

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