Estudo internacional revela inconsistências nos indicadores de desenvolvimento regional e propõe uma nova métrica capaz de medir, com maior precisão, a sofisticação econômica de territórios subnacionais

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A teoria da complexidade econômica transformou a forma como economistas interpretam o desenvolvimento das nações. A premissa é simples e poderosa: economias mais desenvolvidas são aquelas capazes de produzir e exportar bens mais sofisticados, resultado da acumulação de conhecimento, tecnologia e capacidades produtivas. Mas um novo estudo sugere que essa lógica pode não funcionar da mesma forma quando aplicada a estados, províncias e municípios.
Em artigo científico intitulado “Economic Complexity at Subnational Level: A Consistency Analysis”, publicado no repositório científico arXiv em junho de 2026, os pesquisadores Wenli Du e Andrea Zaccaria demonstram que os métodos tradicionais de mensuração da complexidade econômica produzem resultados inconsistentes quando aplicados em escalas subnacionais. O trabalho foi desenvolvido pela Scuola Superiore Meridionale e pelo Istituto dei Sistemi Complessi.
Os autores analisaram dados de três países com estruturas econômicas distintas — Brasil, China e Itália — utilizando diferentes escalas territoriais, desde províncias e estados até municípios e condados. O banco de dados brasileiro, por exemplo, abrangeu 27 estados, 134 mesorregiões, 476 microrregiões e 1.663 municípios, além de aproximadamente 1.180 produtos classificados pelo Sistema Harmonizado de Comércio (HS).
O resultado surpreendeu os pesquisadores. Os indicadores de complexidade calculados para um mesmo produto mudavam significativamente dependendo da escala geográfica utilizada. Em outras palavras, um produto considerado altamente complexo em uma análise nacional poderia aparecer como pouco sofisticado quando observado em nível regional.
“As medidas globais não estão correlacionadas com as medidas locais, revelando uma inconsistência substancial tanto teórica quanto empírica”, escrevem Du e Zaccaria. Segundo os autores, isso coloca em dúvida a prática, amplamente difundida na literatura científica, de aplicar diretamente indicadores nacionais de complexidade econômica em análises regionais.
Os pesquisadores também identificaram que os métodos mais utilizados atualmente — como o Economic Complexity Index (ECI) e o Fitness and Complexity Algorithm — tendem a produzir resultados divergentes entre si quando empregados em níveis subnacionais. Em muitos casos, as correlações entre os indicadores foram extremamente baixas, chegando próximas de zero.
O estudo mostra ainda que a relação entre complexidade econômica e riqueza territorial não é universal. Na China e na Itália, os indicadores tradicionais mantiveram correlações positivas relativamente fortes com o PIB per capita. No Brasil, porém, o comportamento foi distinto: o ECI apresentou, em determinados níveis de agregação, correlações negativas com o PIB per capita, contrariando a hipótese de que regiões mais complexas seriam necessariamente mais ricas.
Para explicar essa discrepância, os autores argumentam que a economia brasileira possui um padrão de diversificação territorial mais concentrado e heterogêneo. Regiões altamente diversificadas nem sempre coincidem com aquelas de maior renda, tornando inadequada a interpretação convencional dos índices de complexidade.
Diante dessas limitações, o estudo propõe uma nova abordagem metodológica denominada Job-Based Extensive Fitness, que incorpora informações sobre ocupações e competências associadas às atividades produtivas. Segundo os pesquisadores, esse indicador apresentou desempenho significativamente superior, exibindo correlações positivas e consistentes com o PIB per capita e com as taxas de emprego em todos os países e níveis territoriais analisados.
“Essa métrica apresenta correlações elevadas e consistentes entre países e escalas administrativas, tornando-se uma forte candidata para representar a complexidade econômica em diferentes níveis geográficos”, afirmam os autores.
As implicações do estudo vão além do debate acadêmico. Organizações internacionais, governos e agências de desenvolvimento utilizam medidas de complexidade econômica para formular políticas industriais, identificar setores estratégicos e direcionar investimentos. Se os indicadores tradicionais produzem resultados inconsistentes em escalas regionais, decisões de política pública podem estar sendo baseadas em diagnósticos imprecisos.
O trabalho também levanta uma questão mais ampla sobre a natureza do desenvolvimento econômico. Em vez de depender exclusivamente da diversidade produtiva ou do volume de exportações, a capacidade de um território parece estar fortemente ligada à qualidade do conhecimento incorporado em suas atividades econômicas e à complexidade das competências de sua força de trabalho.
Ao desafiar uma das ferramentas mais influentes da economia do desenvolvimento contemporânea, o estudo de Du e Zaccaria abre caminho para uma nova geração de indicadores capazes de capturar, com maior fidelidade, a sofisticação econômica das regiões. Em um mundo cada vez mais marcado por desigualdades territoriais e pela competição por conhecimento e inovação, compreender como medir a complexidade econômica pode ser tão importante quanto promovê-la.
Referência
Complexidade econômica em nível subnacional: uma análise de consistência. Wenli Du, Andrea Zaccaria. https://doi.org/10.48550/arXiv.2606.26966