Humanidades

Oito em cada dez mulheres muçulmanas já foram alvo de islamofobia no Brasil
Terceira edição do Relatório de Islamofobia no Brasil alerta para um cenário de violações sistemáticas de direitos fundamentais decorrentes da intolerância religiosa
Por Silvana Salles - 28/07/2026


Grupo de pesquisa coletou relatos de 328 mulheres muçulmanas, moradoras de todas as regiões do País – Foto: Pxhere


As mulheres muçulmanas no Brasil são majoritariamente brasileiras, altamente escolarizadas, têm participação econômica ativa, atuam em diversas áreas profissionais e estão em variados momentos da vida. Porém, nenhuma dessas características as protege de situações de violações de direitos fundamentais: as mulheres muçulmanas são os principais alvos de islamofobia no País, frequentemente vistas como vítimas ou como suspeitas. Cerca de oito em cada dez relatam que já passaram por episódios de islamofobia, que vão de discriminação no local de trabalho a xingamentos na rua e até agressões físicas.

Os dados são do 3º Relatório de Islamofobia no Brasil, produzido pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias) da USP. Segundo o estudo, os episódios de islamofobia contra mulheres muçulmanas acontecem principalmente em espaços públicos, no ambiente virtual e nos locais de trabalho. Também são comuns em escolas, universidades e dentro das famílias. Essas violências são subnotificadas e poucas mulheres buscam apoio psicológico após enfrentar uma situação de discriminação. Quando denunciam, também encontram pouco apoio do Estado brasileiro.

Segundo Francirosy Campos Barbosa, professora da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coordenadora do Gracias, o relatório apresenta a análise mais abrangente já realizada sobre as vivências de mulheres muçulmanas no Brasil.

“Pela primeira vez, reunimos dados quantitativos e qualitativos que permitem comparar diferentes grupos: brasileiras nascidas muçulmanas, brasileiras revertidas, estrangeiras nascidas muçulmanas e estrangeiras revertidas, evidenciando como gênero, religião, nacionalidade e racialização se articulam na produção da islamofobia”, diz a docente. O termo “revertidas” se refere às mulheres que passaram por um processo de conversão ao Islã, enquanto as nascidas muçulmanas são aquelas que seguem a religião de suas famílias.

Infográfico destaca alguns dados apresentados no 3º Relatório de Islamofobia no Brasil

Uma situação de inconstitucionalidade estrutural

As pesquisadoras do Gracias coletaram os dados por meio de um questionário que circulou por comunidades muçulmanas em todo o País nos primeiros meses de 2026. Ao todo, 328 mulheres responderam o questionário, compartilhando suas vivências. “Além de mapear os principais espaços de discriminação, o relatório também analisa seus impactos na saúde mental, na vida profissional, na mobilidade e no acesso a direitos, reforçando que a islamofobia é um problema estrutural e não um conjunto de casos isolados”, explica a coordenadora do Gracias.

Em vários relatos contidos no relatório, o uso do véu islâmico está ligado a experiências de assédio e agressão sofridas por mulheres muçulmanas. Algumas mulheres contaram ter perdido oportunidades de trabalho por usar o hijab ou outras vestimentas islâmicas, outras relataram situações de assédio envolvendo colegas de trabalho ou faculdade.

“Outro professor na escola em que eu trabalho me desmoralizou como feminista e mulher independente por ser muçulmana, debochou das minhas origens e me chamou de mulher bomba, na frente dos meus alunos” – Relato de participante do questionário do 3º Relatório De Islamofobia no Brasil

Nas redes sociais, o Instagram lidera os relatos sobre violências. “A maior parte da discriminação que sofro é na internet. Já sofri perseguição e ameaças por parte de uma pessoa que me causou ansiedade e medo”, relata uma participante. Nas ruas e nos transportes públicos, algumas relatam agressões físicas, como uma mulher que perdeu parcialmente a visão após um episódio de islamofobia. “Jogaram inseticida nos meus olhos, e tenho que usar óculos, afetou minha visão”, conta essa participante da pesquisa.

A maioria das participantes da pesquisa atribui o preconceito contra o Islã e a comunidade muçulmana principalmente à mídia tradicional. As pesquisadoras também destacam a responsabilidade do Estado brasileiro. O relatório defende o reconhecimento da islamofobia no Brasil como uma situação de inconstitucionalidade estrutural.

“O relatório propõe compreender a islamofobia não apenas como um conjunto de episódios de intolerância religiosa, mas como um problema estrutural que compromete direitos fundamentais assegurados pela Constituição. Nossa expectativa é que a comunidade muçulmana se aproprie desse debate e fortaleça a incidência política e jurídica sobre o tema. Essa discussão ainda está em construção, mas tem ganhado espaço à medida que produzimos dados consistentes e periódicos. Com evidências científicas, torna-se mais fácil demonstrar a dimensão do problema e fundamentar políticas públicas e medidas de enfrentamento”, afirma Francirosy.

 

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