Humanidades

Brincar com lama é um ato político capaz de combater o racismo ambiental
Pesquisadora acompanhou por dez meses uma turma de crianças na zona norte de São Paulo, em uma escola onde o contato com a natureza é livre
Por Mariana Gaia - 06/08/2026


Foto: Magnific


“Eu moro no Brasil e a África que eu sou é no Bairro do Limão.” A frase foi dita por uma criança de cinco anos enquanto desenhava em um álbum de fotografias na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Nelson Mandela, na zona norte de São Paulo. É o ponto de partida da dissertação de mestrado homônima de Elena Castello, defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP em agosto de 2025, sobre como o contato livre com a natureza e a pedagogia antirracista se cruzam para enfrentar o racismo ambiental na educação infantil.

Elena passou dez meses acompanhando a Turma Wangari Maathai, uma sala de crianças de 4 e 5 anos, observando sua convivência com árvores, água, chão de terra e tatus-bolinhas — e como essa convivência constrói identidades.

A escola ocupa o terreno de um antigo parque infantil idealizado por Mário de Andrade na década de 1950. As árvores são monumentais, cobrindo quase todo o pátio, num bairro cercado de galpões industriais e asfalto. Mas entrar por aquele portão também é atravessar uma história de resistência — o muro da escola, hoje estampado com o rosto de Nelson Mandela, já foi pichado com símbolos nazistas e mensagens racistas. A resposta da comunidade foi ocupar o espaço com outra imaginação.

Elena não observou de fora. Usou cadernos de bolso e um álbum de registros fotográficos que ficava sempre na altura das crianças. “A socialização dos dados desloca parte da autoridade interpretativa do pesquisador para uma construção efetivamente compartilhada com aquelas que colaboram com a pesquisa”, explica.

Foto: Elena Castello

As crianças assumiram o processo rápido. Diziam o que escrever, escolhiam os enquadramentos das fotos. “Elas me diziam o que registrar, quais acontecimentos eram importantes e até mesmo quais enquadramentos consideravam mais relevantes para apresentar suas brincadeiras”, conta Elena. Nos saltos do balanço, gritavam para garantir o registro. “Leleeeeê, você gravou?”, e caíam na terra, que amortecia o impacto e virava palco do que chamavam de “voos estrelares”.

No Jardim Agroecológico, o estudo identifica algo que Elena chama de amizade entre espécies, um contraponto direto à lógica sanitarista que domina a maioria das escolas urbanas. Onde o senso comum adulto vê sujeira ou perigo, os alunos criaram vínculo. Luiz, uma das crianças colaboradoras, descrevia os tatus-bolinhas como “perfeitos”. Preparava pratinhos de terra e pó de giz para que eles “brincassem”.

“As crianças mostraram outro caminho, uma relação baseada na amizade, no cuidado, na curiosidade e na convivência. Isso modifica o foco da transmissão de conteúdos para a construção de vínculos afetivos”, diz Elena.

A água seguiu o mesmo caminho. Na maioria das escolas ela é restrita à higiene e ao consumo. Ali, virou brinquedo. As crianças usavam a “casinha” de madeira como esconderijo para misturar terra, água e giz colorido no que chamavam de “Bolo Vulcão”. Foi Luiz quem provocou a virada — questionou por que a escola tinha água para beber, mas não para brincar. A partir daí, a instituição passou a autorizar cada vez mais esses momentos.

“Proteger as crianças não significa afastá-las da natureza, mas criar condições para que possam viver esses encontros em liberdade”, diz Elena.

Elena não tratou sua própria posição como neutra. É branca, pesquisando em um contexto de maioria negra e pedagogia antirracista, e as crianças notaram isso antes de qualquer explicação. Pelo cabelo liso e comprido, virou “Tia Rapunzel”. Depois de cortar o cabelo, “Tia Cinderela”. Os apelidos não ficaram de fora da dissertação. Viraram material de análise sobre como o imaginário das princesas da Disney satura o cotidiano infantil.

Foto: Acervo da pesquisadora

“Não faz sentido tratar a identidade da pesquisadora como algo neutro ou irrelevante. Reconhecer esses atravessamentos mostrou ser uma condição ética para produzir conhecimento”, afirma. E vai direto ao ponto sobre o papel de pesquisadores e educadores brancos. “Meu fenótipo produzia significados e mobilizava imaginários que também representavam violências e exclusões. Reconhecer que meu próprio corpo também fazia parte da pesquisa foi um passo indispensável para transformar práticas.”

Essa autocrítica mudou a forma como ela escutava as crianças. Nas brincadeiras de “cabeleireiro”, nas quais Elena deixava de ser quem recebia cuidado para também se transformar na cabeleireira das crianças, os turbantes e os cabelos cacheados eram valorizados.

Encontros com a natureza para enfrentar o racismo ambiental

A distribuição de áreas verdes nas cidades não é aleatória. Elena lê a escassez de verde nos bairros periféricos como racismo ambiental, uma continuidade, não um acidente. “A mesma lógica colonial que distribuiu de maneira desigual a terra, moradia, infraestrutura e qualidade ambiental continua produzindo diferentes possibilidades de viver a cidade”, diz.

A partir de 2024, a EMEI Nelson Mandela passou a rodar o projeto Bopi. A palavra vem do congolês, tirada do livro Kakopi, Kakopi!, e significa “lugar onde os filhos da floresta se reúnem para brincar”. Na prática, o tempo de circulação livre nas áreas externas dobrou, chegando a uma hora e meia por período, manhã e tarde. O lanche também ficou mais flexível, pode acontecer nos jardins, de forma autônoma, e as poças de lama e água deixaram de ser exceção tolerada para virar parte da proposta pedagógica. No fim de 2023, a escola inaugurou um lago no Jardim Agroecológico. Era um pedido antigo das crianças e da comunidade.

Nada disso resolve o racismo ambiental nas cidades brasileiras. Mas mostra, em pequena escala, o que muda quando uma escola para de tratar as infâncias periféricas como algo a ser contido, e deixa que elas brinquem de corpo inteiro em seus encontros com a natureza.

 

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