Estudo mostra que materiais de Ciências destinados às escolas rurais incorporam apenas parcialmente a diversidade sociocultural prevista nas políticas públicas; análise de duas edições do PNLD Campo expõe o abismo entre a norma e a sala de aula

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A escola do campo brasileira avançou nas últimas décadas com a criação de políticas públicas voltadas à valorização da diversidade cultural, dos saberes tradicionais e das especificidades das populações rurais. Entretanto, quando o assunto é o ensino de Ciências, ainda existe um descompasso entre aquilo que determinam os documentos oficiais e o que efetivamente chega às salas de aula por meio dos livros didáticos.
Essa é a principal constatação da tese "Aproximações e distanciamentos na Educação do Campo: dos documentos oficiais aos livros didáticos – componente curricular Ciências", desenvolvida pela pesquisadora Edneide Maria Ferreira da Silva no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sob orientação da professora Elenita Pinheiro de Queiroz Silva. A pesquisa analisou como os livros de Ciências aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático do Campo (PNLD Campo) incorporam os princípios definidos para a Educação do Campo.
O estudo parte de uma questão central: até que ponto os livros distribuídos às escolas rurais brasileiras respeitam as diretrizes que defendem uma educação construída a partir da realidade, da cultura e das formas de vida das populações do campo?
Para responder à pergunta, a pesquisadora realizou uma ampla investigação documental envolvendo legislações, pareceres, resoluções, decretos, editais do PNLD Campo e duas coleções de livros didáticos de Ciências aprovadas pelo Ministério da Educação para utilização nas escolas do campo.
Segundo a pesquisa, desde a consolidação das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, o Brasil passou a reconhecer oficialmente que o ensino voltado às populações rurais não poderia simplesmente reproduzir o modelo urbano. As políticas públicas passaram a defender currículos capazes de dialogar com o trabalho, os conhecimentos tradicionais, os tempos da natureza, a diversidade sociocultural e as experiências históricas das comunidades camponesas.
Na prática, porém, essa aproximação permanece limitada.
A pesquisa conclui que os livros analisados apresentam momentos em que reconhecem o cotidiano das populações rurais e valorizam determinados aspectos da vida no campo. Entretanto, essas referências aparecem de forma pontual e insuficiente para caracterizar uma proposta pedagógica efetivamente alinhada aos princípios da Educação do Campo.
De acordo com a pesquisadora, muitos conteúdos permanecem organizados segundo uma lógica universalizante, distante das especificidades culturais, sociais e econômicas dos sujeitos do campo. Em diversos momentos, os livros deixam de estabelecer relações entre os conhecimentos científicos e os saberes produzidos historicamente pelas comunidades rurais.
A investigação também demonstra que os princípios defendidos pelos movimentos sociais ligados à Educação do Campo — como o reconhecimento da diversidade dos povos do campo, das diferentes formas de produção, das práticas culturais e dos conhecimentos tradicionais — aparecem apenas parcialmente nas obras didáticas.
Um dos argumentos centrais defendidos pela autora é que o ensino de Ciências destinado às escolas rurais deve superar a ideia de um conhecimento único e homogêneo. Em seu lugar, propõe uma abordagem baseada no diálogo entre ciência, cultura e cotidiano, permitindo que os conteúdos escolares façam sentido para estudantes que vivem em assentamentos, comunidades tradicionais, áreas agrícolas e diferentes territórios rurais.
O estudo também destaca que o livro didático continua sendo um dos principais instrumentos pedagógicos disponíveis para professores das escolas do campo. Em muitas localidades, trata-se do único material de apoio utilizado regularmente em sala de aula, o que amplia sua responsabilidade na construção das práticas educativas.
Foi justamente essa realidade que motivou o desenvolvimento do estudo. Durante sua atuação como docente da Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Edneide Silva observou que muitos estudantes e futuros professores dependiam quase exclusivamente dos livros distribuídos pelo governo federal para desenvolver suas atividades pedagógicas.
Essa experiência levou à investigação sobre a concepção desses materiais, suas intenções pedagógicas e sua capacidade de responder às necessidades específicas da Educação do Campo.
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e documental, analisando documentos normativos produzidos pelo Ministério da Educação, pelo Conselho Nacional de Educação e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, além das coleções didáticas aprovadas nas edições de 2013 e 2016 do PNLD Campo.
Entre os documentos examinados estão pareceres, resoluções e decretos que estruturaram a política nacional voltada à Educação do Campo, consolidando princípios como respeito à diversidade, valorização dos sujeitos do campo, adequação curricular e reconhecimento das especificidades territoriais.
Ao confrontar essas diretrizes com os conteúdos presentes nos livros de Ciências, a autora identifica avanços, mas também lacunas importantes.
Embora existam exemplos de contextualização dos conteúdos científicos com aspectos da vida rural, predominam situações em que os conhecimentos aparecem desconectados da realidade cotidiana das comunidades camponesas. Essa distância reduz o potencial do ensino como instrumento de fortalecimento da identidade, da cidadania e da permanência dos estudantes no campo.

Mais do que uma análise sobre livros didáticos, a pesquisa oferece uma reflexão sobre o próprio papel da educação pública brasileira. Ao defender uma ciência construída em diálogo com diferentes culturas e modos de vida, a tese reforça que qualidade da educação não significa uniformização dos currículos, mas capacidade de reconhecer a pluralidade dos sujeitos que frequentam as escolas.
Ao final, a autora conclui que os livros didáticos de Ciências aprovados pelo PNLD Campo apresentam aproximações importantes com os princípios da Educação do Campo, porém essas aproximações permanecem restritas e não são suficientes para atender plenamente às diretrizes construídas ao longo das últimas décadas por pesquisadores, educadores, movimentos sociais e pelas políticas públicas voltadas às populações rurais.
O estudo representa uma contribuição relevante para o debate sobre políticas educacionais e evidencia que a consolidação da Educação do Campo depende não apenas da existência de legislação específica, mas também da produção de materiais didáticos capazes de transformar esses princípios em práticas efetivas dentro da sala de aula.