Estudo indica que ética nas organizações exige equilíbrio entre controle e confiança
Pesquisa propõe modelo híbrido que combina mecanismos de compliance com cultura de integridade e corresponsabilidade dos colaboradores

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Artigo de Luciana Stocco Betiol e Vitor Orquiza de Carvalho, professores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), publicado na revista GV Executivo, analisa as diferenças entre compliance e integridade e propõe uma abordagem híbrida para fortalecer a ética nas organizações. A proposta combina controles formais, valores compartilhados, liderança humanizada e participação dos colaboradores na construção de uma cultura de corresponsabilidade.
Fraudes corporativas, escândalos financeiros e problemas sociais, como precarização do trabalho, assédio e falta de diversidade, ampliaram a importância da ética empresarial. Nesse contexto, o compliance passou a ser utilizado como mecanismo para assegurar o cumprimento de normas e reduzir riscos. No entanto, a simples obediência a regras não é suficiente para estabelecer uma cultura ética consistente.
A integridade surge como complemento a essa abordagem, ao priorizar a internalização de valores morais, a confiança e a autorregulação dos colaboradores. Segundo a análise dos autores, enquanto o compliance está associado a controles formais e a uma governança mais verticalizada, a integridade valoriza a participação e a corresponsabilidade, ampliando o papel da liderança e dos funcionários na construção de padrões éticos.
A partir de uma revisão sistemática da literatura, que identificou 265 registros e resultou em uma amostra final de 28 artigos, o estudo mapeou convergências e diferenças entre os dois modelos. A análise também identificou a emergência de uma terceira dimensão: a abordagem híbrida, que busca combinar mecanismos normativos e valores organizacionais de acordo com o nível de risco, o mercado e a maturidade ética de cada organização.
No modelo proposto, controles essenciais permanecem necessários para reduzir riscos e comportamentos oportunistas, mas são combinados com práticas de confiança, autonomia e participação. A governança passa a considerar diferentes níveis de atuação, da alta liderança aos colaboradores da base, que podem participar da primeira linha de defesa da integridade como agentes de cogovernança ética.
Entre as práticas associadas ao modelo híbrido estão comitês de integridade, grupos de afinidade, canais de acolhimento para conflitos sensíveis, programas de embaixadores da ética e participação dos colaboradores na elaboração de políticas e na composição de comitês de ética. A proposta também considera indicadores relacionados à liderança, à percepção dos funcionários e ao reconhecimento de práticas éticas.
Os autores ressaltam, porém, que a adoção do modelo híbrido traz desafios. A combinação entre métricas jurídicas e morais aumenta a complexidade operacional e exige comunicação clara da liderança para evitar mensagens ambíguas. Além disso, a efetividade do sistema depende de mudanças reais na cultura organizacional, e não apenas de iniciativas voltadas à reputação.
A abordagem híbrida, portanto, busca superar a dicotomia entre compliance e integridade ao integrar controles formais, confiança, valores compartilhados e participação dos colaboradores. O objetivo é criar sistemas de ética organizacional mais adaptáveis às diferentes realidades e capazes de fortalecer a confiança interna e externa.