Humanidades

Sonho de milhões, renda para poucos
Maioria dos canais brasileiros do Youtube paga menos de um salário mínimo por mês
Por Marina Gama - 19/08/2026


Influencer monta tripé para iniciar gravações: pesquisa aponta que youtuber opera como empreendedor autônomo, mas está submetido a regras da plataforma


Logotipo com fundo em tons de cinza apresentando padrão de linhas entrecruzadas e setas direcionais, contendo no centro texto em branco "TRABALHO" e em vermelho "SEM REDE" sobre uma forma retangular escura.
Paulo tem 58 anos e é doutor em Ciências Veterinárias por uma universidade federal na qual trabalha como docente há quinze anos. Às terças, quintas e sextas, após as aulas e reuniões do Comitê de Ética em Pesquisa, ele assiste a jogos de futebol em velocidade acelerada, analisa estatísticas e grava vídeos para o YouTube. A cada vídeo de 40 minutos que produz e sobe na plataforma, são gastos quase 15 horas de trabalho. “Se não fosse o canal, meus filhos não teriam onde estudar”, relatou ele ao pesquisador Gabriel Viana Braz. “Não tenho carro, não tenho plano de saúde. Talvez nem pudesse fazer uma viagem.”

A trajetória de Paulo é um dos cinco casos analisados na dissertação de mestrado de Braz, defendida no Instituto de Economia (IE) da Unicamp, sob orientação do professor do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho) José Dari Krein. O trabalho investiga o protagonismo brasileiro nesse setor: “O Brasil é o país que tem mais produtores de conteúdo do mundo”, afirma Braz. O pesquisador ressalta que essa aspiração é disseminada. “Três em cada quatro jovens entrevistados disseram desejar se tornar influenciadores.”

O YouTube, porém, não criou esse fenômeno. A dissertação mostra que a plataforma chegou a um mercado de trabalho historicamente precarizado, que a tornou não uma novidade, mas uma continuação desse sistema. “No passado, você tinha a ideia de que, se estudasse, conseguia um bom emprego que daria estabilidade e uma perspectiva de vida com direitos, com aposentadoria”, diz Krein. “Essa ideia foi sendo desconstruída nos últimos quarenta anos com o avanço do neoliberalismo e suas reformas trabalhistas e da proteção social.”

Para o orientador, o YouTube representa hoje uma promessa de rápida ascensão social, lugar que o futebol ocupou por décadas. “Se no passado ser jogador de futebol era a forma de sair desse mundo sem opção, hoje o YouTube aparece como uma dessas alternativas.”

Promessas

Para milhões de brasileiros, a plataforma se consolidou como forma de trabalho e promessa de renda. A resposta vem dos dados: entre 895 canais com mais de 50 mil inscritos em 2018, pouco mais da metade continuava ativa em 2026. Considerando o total desses canais, a renda estimada de 72% deles era inferior a um salário mínimo (R$ 1.621) por mês.

Segundo a dissertação, se excluídos os canais hoje desativados, fora do ar ou sem monetização, esse índice cai para 58%, enquanto apenas 10% chegam a dez salários. Os dez canais mais bem monetizados do país recebem em média 343 salários mínimos mensais (cerca de meio milhão de reais). Os que ocupam as posições de 11º a 50º já caem para uma média de 45 salários (cerca de R$ 73 mil). “Não é todo mundo que fica rico no YouTube. O que os dados mostram é qual a pirâmide que se desenha entre os que ficam”, diz Braz.

“É uma ilusão”, avalia Krein. “O discurso é cruel, porque diz que todo mundo tem essa oportunidade, afinal, todo mundo tem um celular na mão. Mas existe um filtro enorme. Muito poucos conseguem de fato ganhar dinheiro com isso.”

Para a maioria dos criadores, a monetização direta do YouTube representa uma fatia pequena da renda. O grosso vem de parcerias com marcas, venda de cursos e mentorias, um tipo de receita que depende da visibilidade construída na plataforma, mas que não passa por ela.

Paulo tem como principal parceira, desde 2017, uma empresa de análise de dados do site Cartola. “O YouTube me servia como vitrine”, resume o professor.

Caminhos possíveis

O resultado principal da dissertação é a construção de uma taxonomia com três perfis de inserção na plataforma. O primeiro, chamado por Braz de “reconfiguração”, reúne profissionais de áreas afetadas pela ascensão das plataformas (caso de jornalistas e publicitários) que migraram para o digital buscando continuidade de carreira. Entre os entrevistados pelo pesquisador está Rafael, 38 anos, jornalista com passagens por veículos como Band, Record e SBT. Seu canal de vídeos curtos chegou a empregar 22 funcionários, mas o ritmo de produção gerou um burnout. “O lado ruim é a instabilidade. Você não pode falhar. Tem dia que eu estou muito ruim da cabeça e tenho que gravar. Você vira um personagem, uma persona.”

O segundo perfil, chamado de “complemento”, traz casos de todas as faixas de renda, mas alguns casos não eram esperados inicialmente: o ingresso de profissionais de alta qualificação na plataforma. É o caso de Pedro, 31 anos, doutor em Matemática pelo Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), que usou o canal sobre ciência de dados para construir autoridade técnica na vida acadêmica. Tanto ele como Paulo, do início da reportagem, veem o YouTube como vitrine estratégica e fonte de renda paralela diante da insuficiência do salário principal.

O terceiro perfil, classificado como “inserção e horizonte”, corresponde a quem entra na plataforma como primeira experiência profissional. Gabriel, 27 anos, começou em 2013 ao gravar uma partida do jogo de cartas Yu-Gi-Oh que atingiu 30 mil visualizações. Hoje mantém o maior canal sobre o tema na América do Sul, com 65% da renda proveniente de parcerias com marcas, segundo Braz.

Transferência de riscos

O conceito central que atravessa essas três categorias, aponta a dissertação, é o da transferência de responsabilidade. O youtuber opera como empreendedor autônomo, mas está submetido a regras de visibilidade e monetização definidas unilateralmente pela plataforma. “A ideia de que a pessoa tem autonomia é muito relativa, pois reforça o discurso predominante, de que o indivíduo é responsável pelo seu sucesso ou fracasso.”

Krein resume a lógica de lucro por trás desse modelo: “O YouTube diz: ‘Eu sou só um divulgador do seu conteúdo, você que está colocando vídeo aqui’. Mas, se você tiver sucesso, vou te pagar pelo sucesso que você alcançou. E vou ganhar dinheiro de qualquer jeito’”. Nesse arranjo, o criador assume integralmente os riscos e custos de produção, enquanto a plataforma utiliza o trabalho alheio para ganhar dinheiro.

“O trabalhador assumiu, inclusive, o risco de não ter sucesso naquilo que fez. E o que o YouTube perdeu? Nada. Porque tem outro [trabalhador] que está dando certo”, complementa Braz, ressaltando o fato de que, em 2024, os investimentos em publicidade digital superaram os da mídia tradicional pela primeira vez no Brasil.

As condições instáveis de quem sustenta esse sistema são, para o professor, parte de uma estratégia de controle. É justamente o discurso de responsabilização individual que torna o YouTube uma opção ou uma ilusão em um mercado de trabalho marcado por baixos salários, precariedade e ausência de perspectiva de futuro para a maioria, especialmente para os jovens.

 

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