O clientelismo não desapareceu com a modernização: estudo no Piauí revela como favores políticos, obras públicas e redes de influência moldam o voto
Pesquisa realizada em quatro municípios piauienses mostra que eleitores economicamente vulneráveis combinam relações de dependência com lideranças políticas e autonomia na escolha de candidatos.

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Pesquisa realizada em quatro municípios piauienses mostra que eleitores economicamente vulneráveis combinam relações de dependência com lideranças políticas e autonomia na escolha de candidatos. Os resultados desafiam interpretações tradicionais sobre o clientelismo e revelam a permanência de mecanismos informais de poder nas democracias contemporâneas.
A modernização das instituições políticas não eliminou necessariamente as relações pessoais de dependência que historicamente influenciam o comportamento eleitoral. Ao contrário, elas podem ter adquirido novas formas, adaptando-se às estruturas da democracia representativa e às transformações econômicas e sociais. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa conduzida pelo jornalista José Cláudio da Silva Vasconcelos, que investigou as redes clientelísticas em pequenas cidades do interior do Piauí durante as eleições de 2016 e 2018.
O estudo oferece uma interpretação que contraria uma concepção tradicional da Ciência Política: a de que o clientelismo seria um resíduo de sociedades atrasadas, destinado a desaparecer à medida que avançassem a industrialização, a burocratização do Estado e a consolidação democrática. As evidências reunidas pelo pesquisador apontam em outra direção. O fenômeno não apenas persiste, como se reorganiza dentro das instituições modernas, estabelecendo conexões entre representantes políticos, administrações municipais e parcelas economicamente vulneráveis do eleitorado.
Publicado como tese de doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o trabalho investigou quatro municípios piauienses: Campo Maior, Cocal, Oeiras e São Raimundo Nonato. A escolha contemplou as quatro antigas mesorregiões do estado, permitindo observar diferentes contextos territoriais, econômicos e políticos.
Uma investigação que ultrapassa os números eleitorais
A pesquisa utilizou metodologia qualitativa, combinando entrevistas em profundidade, grupos focais e análise de informações socioeconômicas e eleitorais. Ao todo, foram ouvidas 177 pessoas: 150 eleitores, 18 vereadores, dois prefeitos e sete deputados, sendo cinco estaduais e dois federais.
Entre os eleitores, foram selecionadas pessoas residentes em bairros considerados economicamente vulneráveis, com atenção a variáveis como idade, escolaridade, profissão e renda. As entrevistas iniciais ocorreram em setembro de 2018, às vésperas das eleições estaduais e nacionais. Posteriormente, em 2019, foram realizados quatro grupos focais, um em cada município. As entrevistas com deputados aconteceram em Teresina, entre dezembro de 2020 e abril de 2021.
O levantamento também identificou um contexto socioeconômico relevante. Segundo indicadores do IBGE utilizados na tese, entre 45,8% e 57,6% da população dos quatro municípios apresentava renda mensal per capita de até meio salário mínimo. A dependência de receitas externas também era expressiva: variava de 82,1%, em Campo Maior, a 92%, em Oeiras.
A precariedade da infraestrutura urbana reforçava esse cenário. Em Cocal, apenas 0,7% dos domicílios tinham esgotamento sanitário adequado; em São Raimundo Nonato, o indicador alcançava 4,4%. São condições que ajudam a compreender por que a intermediação pessoal de recursos e serviços pode adquirir importância nas relações entre população e representantes políticos.
A engrenagem das trocas políticas
O principal resultado da investigação é a identificação de uma rede triangular de relações entre deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores e eleitores. Nesse arranjo, os parlamentares destinam recursos aos municípios, inclusive por meio de emendas, enquanto as lideranças locais articulam demandas comunitárias e organizam apoios eleitorais.
Os benefícios identificados não se restringem à distribuição de dinheiro. Incluem medicamentos, cestas básicas, passagens para tratamento de saúde, pagamento de contas de água e energia, materiais de construção, consultas médicas, indicações para empregos e encaminhamentos previdenciários. Na dimensão coletiva, aparecem obras de pavimentação, abastecimento de água, construção de escolas, unidades de saúde e equipamentos esportivos.
O estudo demonstra que essas relações não se limitam ao período das campanhas. Elas podem ser mantidas durante os mandatos, por meio de solicitações, atendimentos e compromissos recíprocos.
Um dos depoimentos reproduzidos na tese sintetiza essa dinâmica. Um vereador entrevistado afirma que os moradores procuram os representantes não necessariamente pelo trabalho legislativo, mas pela possibilidade de obter assistência imediata: “O vereador de cidade pequena não é eleito para legislar, mas para fazer um trabalho social”.
A declaração expõe uma contradição institucional: atribuições que deveriam ser asseguradas por políticas públicas universais acabam, em determinadas circunstâncias, sendo intermediadas por relações pessoais.
O eleitor não é inteiramente subordinado
A contribuição mais instigante da pesquisa, entretanto, está na contestação da ideia de que o clientelismo implica necessariamente controle integral do voto.
Vasconcelos identifica uma espécie de autonomia parcial dos eleitores. Segundo sua interpretação, parte deles aceita compromissos eleitorais com candidatos a deputado estadual e federal apoiados pelas lideranças locais, mas preserva a liberdade de escolha para governador, senador e presidente.
Um dos entrevistados, identificado como liderança local, resume essa realidade: “O eleitor não votar em todos os meus candidatos é uma coisa normal da política, da democracia”.
Outra liderança reconhece que os acordos eleitorais não asseguram a transferência integral dos votos: “É muito difícil o eleitor votar em seus candidatos todos, a governador, deputado federal, senador, presidente”.
A descoberta sustenta a hipótese central da tese: clientelismo e cidadania não são necessariamente fenômenos excludentes. O mesmo indivíduo pode estabelecer relações de dependência pessoal e, simultaneamente, exercer sua autonomia política.

Essa interpretação aproxima os resultados das abordagens contemporâneas do clientelismo, especialmente das contribuições de D'Ávila Filho, que compreende essas relações como instrumentos de intermediação de interesses, e de autores como Javier Auyero, que investigam a dimensão cotidiana das redes de assistência e reciprocidade política.
O que os dados demonstram — e o que não demonstram
Os resultados indicam que o clientelismo pode coexistir com instituições democráticas, organizações da sociedade civil e mecanismos formais de participação. A pesquisa também identifica a atuação de associações de moradores e sindicatos rurais na reivindicação de obras e serviços, mostrando que as comunidades não são necessariamente passivas diante das lideranças políticas.
Entretanto, é importante distinguir evidência qualitativa de demonstração estatística. A investigação identifica mecanismos, experiências e padrões de comportamento em quatro municípios, mas não estabelece a prevalência do clientelismo em todo o Piauí ou no Brasil. Tampouco permite calcular quantos votos foram efetivamente determinados por cada benefício recebido.
Há outras limitações. A seleção dos eleitores concentrou-se em bairros pobres indicados por lideranças municipais, o que pode introduzir vieses na composição da amostra. Além disso, 81 eleitores recusaram participar das entrevistas, e a resistência de parlamentares dificultou a obtenção de depoimentos. Apenas sete dos doze deputados inicialmente considerados foram entrevistados.
A natureza retrospectiva de parte dos relatos, a sensibilidade política do tema e a ausência de acompanhamento longitudinal também limitam a possibilidade de estabelecer relações causais definitivas entre benefícios recebidos e escolhas eleitorais.
Uma nova interpretação da democracia brasileira
Ao relacionar seus resultados à literatura internacional, Vasconcelos argumenta que o clientelismo não constitui exclusividade de sociedades periféricas. Formas contemporâneas de distribuição seletiva de recursos, como pork-barrel, patronage e logrolling, também aparecem em democracias economicamente desenvolvidas, particularmente nos Estados Unidos.
A conclusão desafia a interpretação de que modernização institucional e desaparecimento das relações clientelísticas necessariamente caminham juntos. No caso brasileiro, o fenômeno teria se adaptado à democracia, substituindo antigas relações de lealdade pessoal por mecanismos mais instrumentais de troca de recursos e apoio político.
O que pode mudar a partir dessas evidências?
Principalmente, a maneira de compreender os limites entre representação política, assistência social e garantia de direitos. Quando o acesso a medicamentos, consultas, transporte e infraestrutura depende da capacidade de estabelecer relações pessoais com representantes políticos, a cidadania permanece condicionada por mecanismos de intermediação.
A pesquisa não demonstra que toda ajuda oferecida por políticos seja clientelismo, nem que todos os eleitores vulneráveis participem dessas redes. Sua contribuição está justamente em mostrar a complexidade dessas relações.
O desafio que emerge é fortalecer políticas públicas universais, ampliar a transparência na distribuição de recursos e consolidar mecanismos institucionais que permitam às comunidades reivindicar direitos sem depender de vínculos pessoais com seus representantes.
A democracia, sugere o estudo, não se mede apenas pela existência de eleições livres ou pela modernização das instituições. Também depende da capacidade de assegurar que direitos sociais sejam acessíveis independentemente de compromissos políticos. É nesse espaço, entre a autonomia do eleitor e a dependência produzida pela desigualdade, que o clientelismo contemporâneo continua encontrando condições para sobreviver.