Humanidades

Publicações humora­sticas da belle anãpoque aos anos 1920 ajudaram a propagar e perpetuar o racismo
Pesquisa mostra como os textos, ilustrazµes e poesias sata­ricas veiculados em revistas e jornais da anãpoca compuseram a ideologia do branqueamento no Brasil
Por Antonio Carlos Quinto - 15/06/2020


Vista panora¢mica da Enseada de Botafogo em 1889 osFoto: Wikimedia Commons

Uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisou a história cultural do humor da belle anãpoque (desde meados de 1870)  aos anos 1920, na cidade do Rio de Janeiro. O estudo permite analisar como o racismo, a ideologia do branqueamento e a democracia racial se perpetuaram no imagina¡rio nacional, por meio de chistes, textos humora­sticos, sa¡tiras e charges. “Naquele período foram muitas ilustrações, poesias sata­ricas e textos veiculados em jornais e revistas, que circulavam na então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro”, conta a historiadora Maria Margarete dos Santos Benedicto. Ela éautora da pesquisa de doutorado Quaquaraquaqua¡ quem riu? Os negros que não foram…: A representação humora­stica sobre os negros e a questãodo branqueamento da belle anãpoque aos anos 1920 no Rio de Janeiro.

Sob orientação do professor Elias ThoméSaliba, a pesquisadora analisou documentos compostos, em sua maioria, por textos humora­sticos que permitem perceber como o racismo, a ideologia do branqueamento e a democracia racial se perpetuaram no imagina¡rio nacional. Os humoristas estudados foram: Anta´nio Torres (1885-1934), Ema­lio de Menezes (1866-1918) e Manoel Bastos Tigre (1882-1957). “Este último teve não somente o seu trabalho humora­stico analisado, mas também a revista de sua propriedade e direção, a D. Quixote (1917-1927). Apesar das percepções diferentes de mundo, esses personagens possibilitaram destacar como o riso e o humor são fena´menos determinados pela cultura.”


Recrutamento de negros Minas osque mina para o governo (esq.) e A lavoura e
os atuais libertos (dir.) osFoto: Divulgação

Margarete também analisou mais de 30 publicações, entre jornais, revistas ilustradas e humora­sticas. Dentre os peria³dicos analisados, destaque para Semana Ilustrada (1861-1876); O Mequetrefe (1875-1893); Revista Ilustrada (1876-1898); O Malho (1902-1954); Fon Fon! (1907-1942); Careta (1908-1926). Apesar do contexto da tese estar situado entre os anos da “belle anãpoque” aos anos 1920, o trabalho também analisa as três últimas décadas do século 19, pois, para a historiadora, este contexto éimportante e foi quando ocorreram a Guerra do Paraguai (1864-1870), as Leis protelata³rias da abolição e a Abolição. A análise éfeita atravanãs dos peria³dicos ilustrados que, de acordo com a pesquisadora, podem ser considerados precursores de uma imprensa irreverente que, por intermanãdio do humor, expunha as nota­cias ou cra­ticas a  sociedade.

“Negro correndo éladra£o, parado ésuspeito”; “Sabe quando negro sobe na vida? Quando o barraco explode!”. Infelizmente o imagina¡rio que propiciou os chistes, as charges e piadas permanecem vivos ainda hoje. Embora devido a  ação, principalmente, dos movimentos sociais negros haja um constrangimento em contar essas piadas em paºblico.

Branqueamento

No estudo, Margarete também analisou as políticas de branqueamento institua­das na anãpoca. Houve leis e decretos sobre a imigração negra, por exemplo. Ela cita o decreto 528, de 28 de junho de 1890. “De acordo com esse decreto a entrada de inda­genas, provenientes da asia e da áfrica, estaria sujeita a uma autorização especial do Congresso Nacional”, conta.

Em outra parte do estudo, a historiadora analisou as representações nas publicações dos negros que foram a  Guerra do Paraguai. “O pra­ncipe regente, por exemplo, mandou seus escravos, o que foi feito por muitos senhores brancos da anãpoca”, descreve. “Alia¡s”, lembra a pesquisadora, “no período pa³s-proclamação da República a intelligentsia brasileira iniciou as discussaµes sobre a identidade nacional, pois queriam uma nação eurocaªntrica e apagar de vez o passado escravista”.


D. Quixote osmara§o 1918 osEdição 43. (esq.): D. Quixote osfevereiro 1925 –
Edição 406 (dir.) osFotos: Divulgação

Protagonistas do humor racista

O estudo de Margarete dedica capa­tulos que trazm parte das trajeta³rias de três personagens que se destacaram a  anãpoca, com seu “humor racista”: Anta´nio Torres, Ema­lio de Menezes e Manoel Bastos Tigre.

Anta´nio Torres, ex-padre, escritor, jornalista e humorista, residiu um bom período de sua vida no Rio de Janeiro. Destacou-se por confusaµes e polaªmicas com as quais se envolveu durante sua trajeta³ria, “em particular, pelo seu humor a¡cido, corrosivo e lusofa³bico, ou ‘tamancofobia’, para utilizarmos o termo empregado pelo autor.” Autodeclarado “mulato”, provocava os “brancos disfara§ados” “denunciando” sua origem de descendaªncia negra. Entre as muitas polaªmicas que causou nos jornais que trabalhou, como conta Margarete, o entrave que o isolou, inclusive com seus pares, “foram dois artigos publicados na anãpoca da Primeira Guerra Mundial, posicionando-se a favor da Alemanha no conflito.”

Ema­lio de Menezes foi jornalista, poeta e humorista. Para o poeta sata­rico, a cor marca a diferença e o local que o negro deveria ocupar. “Podemos dizer que o nosso personagem era excaªntrico e homicida pela palavra”, define a historiadora. Seus sonetos sata­ricos, entre os quais muitos beiravam o humor negro, “seus trocadilhos terra­veis”, “suas epigramas de ferro em brasa” e os “seus epita¡fios matavam”. O que provocava o riso para ele, em suas vitimas provocava a³dios, constrangimentos, amedrontamento, assim como as suas “vibrantes gargalhadas”.

Manoel Bastos Tigre, engenheiro, biblioteca¡rio, jornalista, publicita¡rio e humorista, fundou a revista Dom Quixote em 1917. Tambanãm foi presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) e presidiu a instituição no período de 1927-1928. Um dos temas trabalhados em sua tese consiste no fato de que Bastos Tigre foi um crítico da Companhia Negra de Revista (1926-1927). A companhia obteve sucesso, como conta Margarete, e foi convidada a fazer uma turnaª para a Argentina, Chile, Uruguai, Portugal, Frana§a e Alemanha. Mas Bastos Tigre, enquanto presidente da SBAT, impediu a turnaª pelo fato de os membros serem negros.