Humanidades

Trilogia celebra o centenário e a atualidade de Celso Furtado
Volumes com artigos sobre o economista paraibano são lançados pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba
Por Claudia Costa - 03/07/2020


O economista brasileiro Celso Furtado – Fotomontagem de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Arquivo Nacional/Domínio Público e Eduepb

“Pensei em iniciar este texto de apresentação com a expressão ‘se vivo fosse, Celso Furtado completaria 100 anos em julho de 2020’. Mas como não afirmar que ele está vivo hoje? Afinal, não há melhor forma de permanecermos vivos que pelas ideias, pelas obras”, escreve o reitor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Antonio Guedes Rangel Junior, na apresentação do livro Celso Furtado – A Esperança Militante (Interpretações), lançado no dia 2 de junho passado e disponível gratuitamente, na íntegra, no site da Editora da Universidade Estadual da Paraíba (Eduepb), que publica a obra. Segundo o reitor, o livro “é uma prova da atualidade do pensamento do paraibano mais destacado como pensador e intérprete do Brasil, que foi além da realidade brasileira, tornando-se uma referência no mundo e, sobretudo, na América Latina”.

O volume é o primeiro de três que serão publicados pela Eduepb, dentro do Projeto Editorial 100 Anos de Celso Furtado. O segundo volume, Celso Furtado – A Esperança Militante (Depoimentos), será lançado nesta sexta-feira, dia 3. Já o terceiro volume, Celso Furtado – A Esperança Militante (Desafios), está previsto para o dia 26 de julho, data em que se completa o centenário de Celso Furtado, nascido em 26 de julho de 1920 em Pombal, na Paraíba, e morto em 2004, no Rio de Janeiro, aos 84 anos. “A trilogia é a maior e mais robusta obra já publicada sobre Furtado. Foi pensada com o propósito celebrar os 100 anos de nasci­mento desse paraibano que se tornou um clássico do pensamento brasi­leiro e, sobretudo, um militante da esperança”, afirma o professor Cidoval Morais de Sousa, docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da UEPB e um dos organizadores da obra, ao lado de Ivo Marcos Theis e José Luciano Albino Barbosa. Os três são também os coordenadores do projeto editorial. “Celso Furtado foi um dos mais importantes economistas e cientistas sociais brasileiros. Sua obra atravessou o século 20 e chegou ao século 21 agendando, provocando e iluminando debates e proposições para a solução de problemas ainda crônicos no Brasil, como as desigualdades regionais”, acrescenta Sousa.

Celso Furtado – A Esperança Militante (Interpretações) reproduz textos já divulgados em outros espaços (livros, dossiês, pe­riódicos, anais), criando novas oportunidades de divulgação, com a intenção de estimular leituras, discussões e instigar novas interpretações do pensa­mento furtadiano, como explica Sousa. Segundo ele, a proposta desse primeiro volume é a de oferecer não um manual técnico do tipo “para compreender Furtado”, mas, sim, um guia crítico, que não conduz o leitor, necessariamente, por um mesmo caminho, que não embala e entrega uma compreensão pronta, fechada, definitiva de sua obra. “No máximo, indica pistas, recortes, trajetos incon­clusos, projetos em curso e uma avalanche de desafios e questões que nos provocarão ainda por muito tempo, dada a singularidade de sua obra. Por isso, este livro interessa, assim pensamos, tanto aos que desejam co­nhecer quanto aos que pretendem realizar estudos mais aprofundados ou mesmo revisitar a obra de Furtado”, completa.

O segundo volume, que também estará disponível gratuitamente no site da editora, reúne entrevistas realizadas pelos organizadores, nos últimos cinco anos, com pessoas que trabalharam, estudaram e interagiram com Celso Furtado  nos principais momentos de sua carreira acadêmica e política, entre 1959 e 2003. Esse período envolve sua atuação na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), na criação da Sudene e nos ministérios do Planejamento e da Cultura, além do exílio. “Entre os entrevistados estão Otamar de Carvalho, o falecido sociólogo Chico Oliveira, o economista Osvaldo Sunkel, Gonzaga Belluzo, Oswaldo Martneer, Ângelo Osvaldo e o paraibano Juarez Farias, que foi a primeira pessoa contratada por Furtado para o projeto da Sudene”, conta Sousa, informando ainda que as entrevistas são precedidas de apresentações, leituras e contextos que situam esses atores na história recente do Brasil e, sobretudo, na vida de Furtado.


John Kennedy e Celso Furtado na Casa Branca, nos Estados Unidos, em 1961,
discutindo o desenvolvimento do Nordeste brasileiro –
Foto: Arquivo Nacional/Domínio Público

Sousa adianta que o terceiro volume, que será disponibilizado no próximo dia 26 com o subtítulo Desafios, foi produzido com a colaboração de pesquisadores que, inspirados em Furtado, atuam na área do desenvolvimento regional – um dos principais temas da obra do economista paraibano. “Estão contemplados, nesse conjunto, pesquisadores de todas as regiões do País que têm como linha comum de ação o desenvolvimento regional, em temáticas que vão da clássica industrialização, passando por questões relacionadas ao planejamento, desenvolvimento e subdesenvolvimento, até temas como educação, cultura e desenvolvimento”, informa.

Um militante da esperança

O primeiro volume da trilogia está dividido em quatro partes – Identidade, Pensamento e contribuições, Desenvolvimento e subdesenvolvimento e Desenvolvimento regional -, reunindo textos de mais de 20 pensadores do Brasil, de outros países da América Latina e de Portugal.

Segundo Cidoval Sousa, são textos produzidos nos últimos 30 anos por leitores atentos e privilegiados. “Atentos, porque pesquisadores, estudiosos dos problemas brasileiros, vinculados a ins­tituições de prestígio nacional e internacional e que têm a crítica como natureza de ofício; privile­giados, porque conviveram com Celso Furtado em algum momento da sua vida pessoal, profis­sional ou acadêmica. Puderam, além de estudá-lo e ouvi-lo, testemunhar aquilo que nos parece a principal característica de seu legado: a prova de que teoria e prática são indissociáveis. A trilogia é um convite à leitura do clás­sico Furtado”, diz o organizador.

A abertura do livro é feita pela viúva de Celso Furtado, a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar. Ela traça um perfil intelectual do economista, que nasceu no sertão da Paraíba, onde passou os 20 primeiros anos de sua vida entre literatura, história, filosofia e ciências sociais. “O pai, dr. Maurício, era advogado e professor de português, e também maçom, o que então significava ser anticlerical e aberto a ideias novas. Graças a essa abertura de espírito, bem jovem Celso teve em casa uma fornida biblioteca que lhe deu acesso a escritores como Swift e Defoe e às primeiras leituras de ciências sociais, filosofia, história e até mesmo psicanálise”, conta Rosa.


Capa do livro Celso Furtado – A Esperança Militante (Interpretações)
Foto: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (Eduepb)


Rosa Freire d’Aguiar e Celso Furtado – Foto: Divulgação/Celso Furtado via Portal
Belo Horizonte

Mesmo com uma forte vertente literária – seu primeiro livro, publicado aos 25 anos, foi uma coleção de contos –, a formação em direito acabou levando Celso Furtado para outro lado. “Foi no terceiro ano da faculdade que, motivado pelo que aprendia nas aulas de direito administrativo, Celso prestou concurso para assistente de organização do Departamento de Administração do Serviço Público (Dasp). Um ano depois, fez outro concurso, desta vez para técnico de administração do Departamento de Serviço Público do Estado do Rio de Janeiro. Nos dois, passou em primeiro lugar. A partir daí, embora continuasse os estudos de direito, a temática da organização e da administração pública entrou em seu universo intelectual, e foi tema de seus primeiros textos acadêmicos”, recorda Rosa. Ela acrescenta que, até terminar o doutorado na França, em 1948, Furtado escreveu diversos trabalhos sobre teoria da administração, Estado e democracia, organização e programação em empresas privadas e estatais, necessidade de criação e implementação do planejamento. “Ideias que seriam o embrião de outras tantas aprofundadas adiante, quando chefiou a Divisão de Desenvolvimento da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina, órgão das Nações Unidas), em Santiago do Chile, e quando, ainda mais tarde, idealizou o Ministério do Planejamento do Brasil, do qual foi o primeiro titular”, completa.

No livro, o sociólogo José Luciano Albino Barbosa revisita temas recorrentes na vida de Celso Furtado: a crítica do subdesenvolvimento, a luta contra as oligarquias nordestinas e a criação da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) como expectativa de transformação de estruturas. “Celso Furtado investiu bastante esforço pessoal para a criação de um conhecimento de cunho técnico e político orientado ao desenvolvimento do Nordeste e do Brasil, tomando como ponto de partida a crítica das estruturas arcaicas e antissociais que são a causa do nosso estado de subdesenvolvimento: as oligarquias, os coronéis, a desigualdade regional e a exclusão e exploração do mais pobre. Ele não elaborou isso na Sorbonne ou em outro lugar de sua rigorosa formação acadêmica. Tal ímpeto patriótico a que me refiro teve origem na infância, quando viu, ele mesmo, a seca, os coronéis, a violência, beatos e cangaceiros, a miséria do povo, enfim.”

Em outro texto presente no livro, o economista e cientista político Luiz Carlos Bresser-Pereira apresenta Método e Paixão em Celso Furtado, artigo publicado originalmente em A Grande Esperança em Celso Furtado (Editora 34, 2001). Segundo Bresser-Pereira, na segunda metade do século 20, nenhum intelectual contribuiu mais do que Furtado para a compreensão do Brasil. “Ele não ofereceu apenas explicações econômicas para nosso desenvolvimento e nosso subdesenvolvimento. Mais do que isso, ele situou o Brasil no contexto do mundo, analisou sua sociedade e sua política, ofereceu soluções para os grandes problemas enfrentados. Para realizar essa tarefa tão ambiciosa quanto frustrante – porque, afinal, o Brasil ficou aquém de suas grandes esperanças –, Celso usou do método e da paixão. No método ele foi rigoroso, mas isso não o impediu de encarar com paixão seu objeto de estudo, que foi sempre também um projeto republicano de vida: o desenvolvimento do Brasil.”

Teoria estruturalista

Professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Bernardo Ricupero, em artigo também publicado em Celso Furtado – A Esperança Militante (Interpretações), foca sua reflexão na contribuição de Furtado para o pensamento social brasileiro. Segundo Ricupero, “a contribuição particular de Celso Furtado ao que ficou conhecido como teoria estruturalista da Cepal foi historicizá-la, mostrando como foi estabelecida, ao longo do tempo, a relação entre colônias e metrópoles, países desenvolvidos e subdesenvolvidos, centro e periferia”. O artigo trata ainda da relação de Furtado com obras sobre a formação do Brasil. “Se é verdade que Furtado não cita, em profusão, em Formação Econômica do Brasil e em seus escritos posteriores, os ‘novos clássicos’ da modernidade brasileira, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda, o mesmo não ocorre com sua tese de doutorado. Uma das possibilidades oferecidas pela leitura de Economia Colonial do Brasil nos Séculos XVI e XVII é precisamente permitir iniciar o desvelamento do diálogo implícito de seu autor com o pensamento social brasileiro. A obra de Furtado faz parte, em particular, de um ‘quase’ gênero brasileiro: os livros sobre a formação de nossa sociedad

Para o economista e ex-ministro do Planejamento e da Fazenda Guido Mantega, o surgimento e a consolidação do pensamento econômico no Brasil estão indissoluvelmente ligados a Celso Furtado. “O faro aguçado de Furtado, para decifrar a problemática socioeconômica, advém não apenas de sua formação multidisciplinar, mas principalmente de sua participação direta nos acontecimentos mais importantes dessa época, como personagem e observador privilegiado”, escreve. “Pode-se dizer que Furtado estava no lugar certo no momento certo, pois assistiu ao nascimento da Cepal e ajudou na sua consolidação, participou do BNDE, fundou a Sudene, foi membro destacado dos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulard, de quem foi ministro do Planejamento, estudou na França e Inglaterra e depois lecionou nesses países. Enquanto expoente do desenvolvimento, Furtado é um dos pais do intervencionismo keynesiano no Brasil e o primeiro pensador brasileiro a desenvolver um modelo de análise baseado na heterodoxia estruturalista”, analisa Mantega.

Um artigo do  sociólogo Francisco de Oliveira, da USP, que morreu em 2019, também está no livro lançado pela Editora da UEPB. Intitulado Subdesenvolvimento: Fênix ou Extinção, o texto foi publicado originalmente no ano 2000, no livro Celso Furtado e o Brasil, organizado pela economista Maria da Conceição Tavares. Nele, Oliveira afirma que, “apesar de todos os possíveis predecessores que possam ser apontados como inspiradores da teorização cepalina do subdesenvolvimento, de que Celso Furtado é um dos autores, há poucas dúvidas de que o conceito do subdesenvolvimento como uma formação singular do capitalismo – e não como um elo na cadeia do sequenciamento que vai do não-desenvolvido ao desenvolvido – é uma criação cuja densidade e cujo poder heurístico explicativo da especificidade da periferia latino-americana só foram plenamente alcançados com os trabalhos da Cepal e sua mais abrangente e aprofundada elaboração pelo nosso homenageado”. Segundo Oliveira, todo o pensamento em torno da questão nacional e regional de países “atrasados” mudou a partir dos trabalhos da Cepal.

Entre os artigos de pesquisadores internacionais está o texto do português José Luís Cardoso, Celso Furtado e as Encruzilhadas do Desenvolvimento. Ali Cardoso afirma que Furtado cruzou uma diversidade de ciências sociais, mostrando que a ciência econômica não pode ficar alheia, nem ignorar, as contribuições de outros domínios científicos que alargam e enriquecem a compreensão da realidade econômica e social. Segundo o autor, a atualidade e relevância dos temas da agenda de investigação de Celso Furtado justificam a atenção que continuam a suscitar sempre que se discutem os problemas do desenvolvimento econômico no mundo contemporâneo.