Humanidades

Em livro, professor da Fafich coteja Wittgenstein com Nietzsche, Maquiavel, Fleck, Kuhn e Koyré
Obra de Mauro Condé busca dar “respostas wittgensteinianas” às questões filosóficas sobre o que sejam uma “teoria da ciência” e uma “teoria da história”
Por Ewerton Martins Ribeiro - 22/08/2020


WITTGENSTEIN E OS FILÓSOFOS: SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA
MAURO LÚCIO LEITÃO CONDÉ - Reprodução

Meio à pandemia, algumas notícias do grande universo de produção de conhecimento que é a UFMG não diretamente relacionadas com o novo coronavírus acabam passando despercebidas. Uma delas foi a publicação nas últimas semanas do livro Wittgenstein e os filósofos: "Semelhanças de família", Mauro Lúcio Leitão Condé, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich).

Na coletânea, que reúne capítulos de livros e artigos publicados em diferentes livros e revistas entre 1993 e 2018, o especialista em epistemologia e história da ciência busca dar “respostas wittgensteinianas” às questões filosóficas sobre o que sejam uma “teoria da ciência” e uma “teoria da história”, atacando, para isso, noções wittgensteinianas fundamentais, como “forma de vida”, “jogos de linguagem”, “semelhanças de família” e “gramática”.

“Sempre vi em Wittgenstein uma possibilidade de ler outros autores ou de lidar com diferentes problemas filosóficos. Em certo sentido, tornei-me um ‘usuário’ do pensamento de Wittgenstein: a partir do autor, procurei explorar problemas filosóficos – não necessariamente os mesmos abordados por ele – ou contrapor sua filosofia às de outros pensadores com a finalidade de elucidar tais problemas”, explica o autor.

O livro tem sete capítulos. Nos dois primeiros, Mauro trata da “gramática da ciência” e da “gramática da história”. Nos três seguintes, aborda as aproximações e os distanciamentos do pensamento de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) com os postulados de Ludwik Fleck (1896-1961), Thomas Kuhn (1922-1996) e Alexandre Koyré (1892-1964), visando avançar na reflexão sobre problemas de história e filosofia da ciência. Nos dois últimos capítulos, Mauro coteja o filósofo austríaco com Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Nicolau Maquiavel (1469-1527), usando como pano de fundo para essa aproximação a crítica à racionalidade ocidental.

Mauro Condé: "usuário" do pensamento de Wittgenstein
Foca Lisboa / UFMG

Reconhecer o alvo, em vez da flecha

No prefácio da obra, o filósofo Wagner Teles de Oliveira, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), lembra que em Sobre a certeza, um dos seus últimos textos, Wittgenstein disse acreditar que suas anotações interessariam sobretudo a alguém capaz de pensá-las por si próprio, pois, independentemente de ele ter “acertado em cheio”, alguém assim estaria em condições de reconhecer “o alvo no qual ele mirou”. Segundo Wagner, é exatamente isso o que Mauro Condé faz em seu livro.

"Ao longo de seus ensaios, o autor formula questões e respostas em sintonia com as interrogações filosóficas da obra wittgensteiniana, mas que não ganharam expressão nela. Não é, portanto, exatamente o pensamento de Wittgenstein que orienta a narrativa, mas o do próprio autor, o que se reflete sobretudo na escolha de questões e em sua diversidade, que dão forma às preocupações filosóficas que atravessam o livro.”

Para Wagner Oliveira, a potência do volume está justamente em fazer a obra de Wittgenstein “ser experimentada em domínios que não são exatamente os que ela construiu para habitar” e pronunciar-se sobre questões que, ao seu tempo, ela não tematizou. Essa “aproximação do pensamento de Wittgenstein de universos filosóficos alheios cumpre o propósito de esclarecê-los mutuamente”, segundo Wagner, mas “preservando a autonomia de ambos”. “Em conjunto, os ensaios mostram, sem que precisem se pronunciar a respeito, que seguir a rota desenhada pela reflexão de Wittgenstein pode ter o efeito paradoxal de caminhar para fora dos muros da obra que ela própria constitui”, anota o apresentador.

O autor

Professor de História da Ciência na UFMG, Mauro Lúcio Leitão Condé é doutor em filosofia pela própria Universidade, com estágios de pós-doutorado na Universidade de Boston, nos EUA, na Universidade de Viena, na Áustria, e na Universidade de São Paulo (USP). Já lançou, entre outros volumes, Um papel para a história: o problema da historicidade da ciência.

 

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