Humanidades

Poesia filosófica de Hölderlin faz a crítica da razão moderna
Editora da USP lança “Fragmentos de Poética e Estética”, do autor de “Pão e Vinho”
Por USP - 21/03/2021


O poeta alemão Friedrich Hölderlin – Foto: Wikimedia Commons

O poeta alemão Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1843) esteve profundamente envolvido com os principais temas filosóficos e estéticos de sua época, criando um rico e intenso diálogo com as filosofias de Kant, Fichte, Schelling e Hegel. Em Hölderlin, poesia e filosofia estão intimamente ligadas, tornando impossível distinguir uma da outra. Enquanto suas reflexões filosóficas são expostas em linguagem poética, sua poesia trata das principais questões da filosofia pós-kantiana. O autor de Brot und Wein (Pão e Vinho) personifica o ideal de um filósofo poeta ou de um poeta filosófico.

Essas reflexões estão contidas na introdução do livro Fragmentos de Poética e Estética, de Hölderlin, lançado recentemente pela Editora da USP (Edusp), escrita pelo professor Ulisses Razzante Vaccari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que também assina a tradução da obra.

Para Vaccari, a união entre poesia e filosofia em Hölderlin não se dá por mero diletantismo do poeta alemão. Trata-se, antes, de uma tentativa de reconquistar a função educadora da cultura que, desde a Antiguidade grega, cabia aos poetas e foi obscurecida nos tempos modernos. “O poeta moderno carece de uma formação poético-filosófica que lhe ensine a grandiosidade e a importância de Homero para a formação da polis e ao mesmo tempo lhe proporcione a consciência de sua própria função formadora diante da humanidade moderna”, escreve o professor na introdução, lembrando que é nesse contexto que se deve entender o significado do famoso verso presente em Pão e Vinho: “E para que poetas em tempos de indigência?”.

Mesmo permeado pelo espírito filosófico, esse fazer poético pressupõe a superação da filosofia, no seu sentido moderno – uma forma de pensamento centrada exclusivamente no intelecto e no entendimento. Essa racionalidade exacerbada é justamente o que difere o homem moderno do homem grego antigo. Neste, “o intelecto gozava de uma relação imediata e harmônica com a natureza e a sensibilidade, harmonia presente em sua relação com o divino, própria da poesia homérica”, como escreve Vaccari. Ao enxergar o mundo apenas por meio do entendimento filosofante, o homem moderno ressente-se da perda da presença reconfortante da divindade e da relação harmônica com a natureza, acrescenta o professor. “Em vez de aproximar o homem da natureza, as filosofias modernas, centradas numa atividade abstrata de pensar, acabaram por acentuar o fosso entre ambos. Nuclear nas filosofias iluministas, o entendimento afinal se define por sua analiticidade, por sua função de separação e catalogação do Ser em conceitos e categorias abstratas, que espelha em última instância a visão fragmentada do homem burguês do século 18, o homem de negócios.”

Para Hölderlin, é preciso fazer com que o poeta seja novamente mestre da humanidade, à maneira de Homero. “Tornar a poesia a educadora da humanidade significa reconquistar a força e o fogo da fantasia, relegados ao segundo plano em tempos de confiança exagerada no entendimento burguês”, escreve Vaccari. “Ecoando a filosofia pós-kantiana como um todo, Hölderlin assume para si esse papel de crítico da sociedade do entendimento e da reflexão ao mostrar a necessidade de superação desse momento histórico determinado, o que, nos termos da história da filosofia, equivale à superação do Iluminismo.”

O belo e o sublime

As reflexões de Vaccari podem ser confirmadas através da leitura dos 35 textos de Hölderlin publicados no livro lançado pela Edusp – cada um deles precedido por breves comentários sobre sua origem, também escritos pelo professor. Tome-se como exemplo o fragmento A Lei da Liberdade, datado de 1794 e visto como um esboço de um texto sobre estética em que Hölderlin busca superar os conceitos de belo e sublime do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). “Hölderlin fala de dois estados da imaginação: um que se refere à anarquia das representações que o entendimento organiza e outro em que a imaginação é pensada em união com a lei da liberdade”, comenta Vaccari. “Enquanto o primeiro se refere ao caos do belo sem conceito, o segundo se refere ao sentimento do sublime em toda sua conexão com o reino prático. Em todo caso, belo e sublime não são, para Hölderlin, duas instâncias apartadas, tal como na terceira crítica de Kant, mas dois estados poéticos distintos da mesma imaginação, que ora está voltada para o belo, ora para o sublime.”

A Antiguidade grega é uma das principais referências na obra
de Hölderlin – Foto: Reprodução
 
Em outro fragmento, composto em 1800 e intitulado A Diferença dos Modos Poéticos, Hölderlin aborda os gêneros poéticos – o lírico, o épico e o trágico. “Além de ser particularmente importante para o desenvolvimento da concepção hölderliniana de tragédia, esse texto traz à tona o conceito de metáfora em sua ligação estreita com o conceito de intuição intelectual”, comenta Vaccari. “Na segunda parte do texto, Hölderlin insere ainda no debate poetológico o conceito, igualmente central, de sensação ou sentimento.”

O livro traz aforismos em que Hölderlin expõe sua visão sobre a poesia e a estética. Num deles, o poeta afirma: “O entusiasmo possui graus. Desde o jocoso, que é o mais inferior, até o entusiasmo do general que, no meio da batalha, se apodera imponente da clareza de pensamento do gênio, há uma escala infinita. Subir e descer nessa escala constitui a vocação e a glória do poeta”.

Fragmentos de Poética e Estética, de Friedrich Hölderlin, tradução e introdução de Ulisses Razzante Vaccari, Editora da USP (Edusp), 288 páginas, 42 páginas.

 

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