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Não só palhaços: registros de mergulho noturno mostram simbiose de peixes e anêmonas
Em águas escuras, pesquisa documenta novas interações de mutualismo com larvas de anêmonas de pelo menos quatro famílias de peixes
Por Jean Silva - 11/12/2025


Em fase larval entre a superfície e o fundo do mar aberto, anêmonas e peixes interagem facultativamente em troca de possíveis benefícios – Foto: Richard Collins


A relação entre o peixe-palhaço (Amphiprion ocellaris) e suas casas vivas de anêmonas é um exemplo de mutualismo bastante explorado pela literatura científica, mas essas associações parecem não se limitar ao pequenino tricolor laranja, preto e branco. É o que relata um artigo com participação da USP, publicado no Journal of Fish Biology.

Fotografias da parte superficial do mar permitiram analisar a associação de quatro famílias de peixes (Monacanthidae, Ariommatidae, Bramidae e Carangidae) com três famílias de antozoários, todos em estágio de vida inicial: Arachnactidae e Cerianthidae (Ceriantharia), popularmente conhecidas como anêmonas tubulares – ou que habitam tubos; e Sphenopidae (Zoanthidea), frequentemente referidas como anêmonas incrustantes ou zoantídeos.

“Pela primeira vez, foi documentado esse comportamento entre peixe-anêmona de outras espécies, que era restrito ao peixe-palhaço, em ambiente recifal”, afirma Murilo Pastana, coautor do artigo e professor associado ao Museu de Zoologia (MZ) da USP


O registro dos zooplânctons (organismos que vivem em suspensão no ambiente aquático) foram feitos por mergulhadores de águas escuras (mergulho à noite) na Flórida. “É um completo um breu, um mergulho assustador. Demos sorte de descobrir que isso era o hobby de alguém”, conta Pastana. Ele explica que esse comportamento nunca havia sido registrado, exatamente por essa dificuldade de documentar águas epipelágicas (da superfície até aproximadamente 200 metros ou 660 pés de profundidade) no ambiente de mar aberto à noite. As coletas usuais, que conservam espécimes com químicos em potes fechados, não são propícias para se observar o mutualismo entre elas. “Podemos observar eles vivos nessas fotos e vídeos. Com base nisso, temos acesso a uma qualidade, uma quantidade de informação que não tínhamos antigamente.”

Essas relações são caracterizadas por benefícios mútuos. A hipótese dos autores é que as toxinas liberadas a partir da dispersão das larvas de anêmonas protegem os peixes filhotes. Eles explicam, ainda, que essa interação é facultativa, e ocorre apenas nas fases iniciais da vida. A identificação taxonômica das fotos foi baseada em informações da localidade, por outras fotografias, comparações com descrições da literatura e com espécimes do acervo do MZ, além do registro da observação dos mergulhadores. 

Mergulho e parceria 

Larvas de peixes carregando anêmonas larvais foram fotografadas, o que pode indicar relação ecológica de dispersão dessas últimas – Foto: Richard Collins

Mergulhar para tirar essas fotografias em mar aberto à noite é um hobby caro e novo, conforme o pesquisador. Do equipamento de mergulho às câmeras fotográficas com flashes potentes capazes de registrar animais tão pequenos, muitos recursos precisam ser destinados à tarefa. Richard Collins, mergulhador e fotógrafo responsável pelos registros do artigo, diz que as dificuldades não estão nos recursos, mas na dificuldade para captar boas imagens. “É uma hora ou mais de carro até o barco, uma hora ao cais, mais uma para chegar à água onde vamos mergulhar. Mergulhamos por algumas horas, voltamos para casa e tenho que trabalhar no espécime”, explica o mergulhador ao Jornal da USP.

Esse trabalho exaustivo torna mais restrito o público que pratica mergulho, mas Collins diz ser grato em contribuir com a ciência com informações ainda pouco entendidas. “A recompensa é poder participar e trabalhar com cientistas de renome mundial, alguns dos melhores zoólogos de invertebrados do mundo. É bom ter um hobby com propósito e valor”, vislumbra o fotógrafo. Esse resultado é apenas um dos trabalhos em que seus registros estão sendo usados. Ele alega que outro trabalho foi publicado e um montante está a caminho da publicação. 

Murilo Pestana conheceu o trabalho de Collins pelas mídias sociais em um grupo de compartilhamento de fotos feitas em mergulhos em águas escuras criado por um colega do mergulhador. Como o americano não tem perfil na rede social, foi conhecer Murilo Pastana diretamente no Smithsonian Museum, um dos maiores complexos de museus e centros de pesquisa do mundo localizado nos Estados Unidos (EUA). Depois de um tempo, os dois fizeram uma parceria para realizar esse estudo.

Águas brasileiras
 
Os registros, feitos na zona temperada das águas da Flórida, traz dados inéditos para a ciência que preenchem lacunas no entendimento das interações do zooplâncton em mar aberto. Gabriel Afonso, doutorando no Instituto de Ciências Marinhas da Virgínia e coautor do artigo, indica que essas lacunas podem ser maiores em zonas tropicais devido à rica biodiversidade. “Deveríamos ter todos esses equipamentos [nos laboratórios], mas falta recurso. Eles são necessários [para esses achados científicos]”, explica.

“Por mais que não tenhamos o financiamento necessário para esse tipo de hobby através de métodos mais baratos, como madeiras luminosas, é possível fazer essa coleta em praias ou cais, tanto de dia quanto à noite. Encontraríamos uma diversidade muito interessante, considerando a biodiversidade do Brasil” Gabriel Afonso


Essa desigualdade nos recursos entre os EUA e o Brasil é vista de maneira crítica pelo pesquisador, que reconhece a capacidade dos cientistas daqui em fazer muito com pouco. Ele ainda ressalta que os brasileiros são muito bem recebidos pelos curadores das coleções, porque existe uma rede de colaboração forte com diversos brasileiros também formados nessas instituições. O contato com a sociedade nesse trabalho destacou para ele o valor das colaborações. “O nosso trabalho fica meio fechado nesse ambiente. É muito limitado na associação com o público. Esse trabalho é muito bacana, porque interagimos com pessoas que não são cientistas”, diz Gabriel Afonso.


Mais informações: murilopastana@gmail.com, com Murilo Pastana; gvafonso@vims.edu, com Gabriel Afonso

 

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