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A energia que vem do mar pode iluminar milhões esquecidos pela rede elétrica
Estudo global revela que vento, ondas e sol nos oceanos poderiam levar eletricidade a comunidades costeiras isoladas — mas investimentos continuam concentrados nos países ricos.
Por Laercio Damasceno - 16/01/2026


Domínio público


Enquanto turbinas eólicas offshore se multiplicam ao largo de países desenvolvidos, cerca de 670 milhões de pessoas no mundo ainda vivem sem acesso pleno à eletricidade. Muitas delas estão justamente em regiões costeiras, cercadas por uma das maiores fontes de energia renovável do planeta: o oceano.

Um estudo internacional publicado em 2026 na revista Scientific Reports lança luz sobre esse paradoxo. A pesquisa mostra que a energia renovável oceânica — proveniente do vento, das ondas e do sol em áreas costeiras — está amplamente distribuída pelo mundo, inclusive em regiões pobres e remotas. No entanto, os investimentos seguem direcionados quase exclusivamente a países ricos, já atendidos por grandes redes elétricas.

“O desenvolvimento atual da energia oceânica prioriza compensar emissões em países industrializados, não levar eletricidade a quem mais precisa”, afirmam os autores do estudo.

Um mapa global da desigualdade energética

Os pesquisadores analisaram dados globais de energia eólica offshore, energia das ondas e energia solar, cruzando essas informações com a distância das comunidades costeiras às redes elétricas existentes. O resultado é um mapa inédito que evidencia o que os cientistas chamam de “potencial de eletrificação de última milha” — áreas onde há energia abundante, mas falta acesso à rede.

Os principais achados:

40% da população mundial vive próxima ao litoral, muitas vezes em áreas com fornecimento elétrico precário;
África Austral, América do Sul, Oceania, partes da Ásia e o Ártico concentram alto potencial energético oceânico;
A média global de potencial energético costeiro é 130 pontos, em uma escala que vai até 300;
África Austral lidera o ranking, com mediana de 190 pontos de potencial energético;
Já o Sudeste Asiático e o Sul da Europa apresentam os menores índices relativos.

Apesar disso, quase todos os parques eólicos offshore em operação hoje estão em regiões com infraestrutura elétrica consolidada, especialmente na Europa e na América do Norte.

Energia para quem já tem energia

O estudo aponta um dado revelador: os locais onde já existem parques eólicos offshore não apresentam, necessariamente, maior potencial energético natural. O diferencial está nas chamadas “condições habilitadoras” — infraestrutura, financiamento, estabilidade institucional e facilidade de investimento.

“A lógica atual privilegia onde é mais fácil investir, não onde a energia teria maior impacto social”, destaca o relatório.


Entre 2017 e 2021, por exemplo, mais de US$ 4 bilhões foram destinados apenas ao setor de energia eólica offshore na Europa, enquanto comunidades costeiras da África e de pequenas ilhas continuam dependentes de geradores a diesel caros e poluentes .

O potencial escondido das ondas e do sol

Embora menos explorada comercialmente, a energia das ondas se destaca por sua alta densidade energética e regularidade, especialmente em costas expostas ao oceano aberto. Já a energia solar, incluída no estudo por sua viabilidade imediata, aparece como a fonte mais uniformemente distribuída ao longo das costas globais.

Em muitas regiões tropicais e equatoriais, sistemas híbridos — combinando sol, vento e ondas — poderiam garantir fornecimento contínuo, reduzindo custos e aumentando a autonomia energética.

Em algumas ilhas do Caribe, moradores gastam até metade da receita de exportações apenas para importar combustíveis fósseis para geração de energia.

Soberania energética e justiça social

Mais do que eletrificação, os autores defendem um conceito central: soberania energética. Isso significa que as próprias comunidades devem controlar como a energia é produzida, distribuída e utilizada, rompendo a dependência de combustíveis importados e decisões externas.

O estudo alerta que projetos mal planejados, mesmo “verdes”, podem reproduzir desigualdades históricas, especialmente em territórios indígenas e comunidades tradicionais.

“Sem participação local, a transição energética corre o risco de se tornar apenas mais uma forma de exploração”, afirmam os pesquisadores.

A conclusão é direta: há energia suficiente nos oceanos para iluminar comunidades esquecidas, mas isso exige uma mudança profunda de prioridades.

Os autores defendem que bancos multilaterais e governos redirecionem recursos para projetos comunitários; a transição energética considere equidade social, não apenas redução de emissões; pequenos projetos locais recebam o mesmo apoio que megaprojetos industriais

“Levar energia à ‘última milha’ não é um problema técnico. É uma decisão política.”

Em um mundo que corre para descarbonizar sua matriz energética, o estudo deixa uma pergunta incômoda: a energia do futuro vai apenas tornar ricos mais sustentáveis — ou finalmente incluir quem sempre ficou no escuro?


Mais informações
Cisneros-Montemayor, AM, Hirsch, SL, Dillon, T. et al. Energia renovável oceânica para acesso equitativo à energia em uma Economia Azul. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-025-33690-4

 

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