Estudo global revela que vento, ondas e sol nos oceanos poderiam levar eletricidade a comunidades costeiras isoladas — mas investimentos continuam concentrados nos países ricos.

Domínio público
Enquanto turbinas eólicas offshore se multiplicam ao largo de países desenvolvidos, cerca de 670 milhões de pessoas no mundo ainda vivem sem acesso pleno à eletricidade. Muitas delas estão justamente em regiões costeiras, cercadas por uma das maiores fontes de energia renovável do planeta: o oceano.
Um estudo internacional publicado em 2026 na revista Scientific Reports lança luz sobre esse paradoxo. A pesquisa mostra que a energia renovável oceânica — proveniente do vento, das ondas e do sol em áreas costeiras — está amplamente distribuída pelo mundo, inclusive em regiões pobres e remotas. No entanto, os investimentos seguem direcionados quase exclusivamente a países ricos, já atendidos por grandes redes elétricas.
“O desenvolvimento atual da energia oceânica prioriza compensar emissões em países industrializados, não levar eletricidade a quem mais precisa”, afirmam os autores do estudo.
Um mapa global da desigualdade energética
Os pesquisadores analisaram dados globais de energia eólica offshore, energia das ondas e energia solar, cruzando essas informações com a distância das comunidades costeiras às redes elétricas existentes. O resultado é um mapa inédito que evidencia o que os cientistas chamam de “potencial de eletrificação de última milha” — áreas onde há energia abundante, mas falta acesso à rede.
Os principais achados:
40% da população mundial vive próxima ao litoral, muitas vezes em áreas com fornecimento elétrico precário;
África Austral, América do Sul, Oceania, partes da Ásia e o Ártico concentram alto potencial energético oceânico;
A média global de potencial energético costeiro é 130 pontos, em uma escala que vai até 300;
África Austral lidera o ranking, com mediana de 190 pontos de potencial energético;
Já o Sudeste Asiático e o Sul da Europa apresentam os menores índices relativos.
Apesar disso, quase todos os parques eólicos offshore em operação hoje estão em regiões com infraestrutura elétrica consolidada, especialmente na Europa e na América do Norte.
Energia para quem já tem energia
O estudo aponta um dado revelador: os locais onde já existem parques eólicos offshore não apresentam, necessariamente, maior potencial energético natural. O diferencial está nas chamadas “condições habilitadoras” — infraestrutura, financiamento, estabilidade institucional e facilidade de investimento.
“A lógica atual privilegia onde é mais fácil investir, não onde a energia teria maior impacto social”, destaca o relatório.
Entre 2017 e 2021, por exemplo, mais de US$ 4 bilhões foram destinados apenas ao setor de energia eólica offshore na Europa, enquanto comunidades costeiras da África e de pequenas ilhas continuam dependentes de geradores a diesel caros e poluentes .
O potencial escondido das ondas e do sol
Embora menos explorada comercialmente, a energia das ondas se destaca por sua alta densidade energética e regularidade, especialmente em costas expostas ao oceano aberto. Já a energia solar, incluída no estudo por sua viabilidade imediata, aparece como a fonte mais uniformemente distribuída ao longo das costas globais.
Em muitas regiões tropicais e equatoriais, sistemas híbridos — combinando sol, vento e ondas — poderiam garantir fornecimento contínuo, reduzindo custos e aumentando a autonomia energética.
Em algumas ilhas do Caribe, moradores gastam até metade da receita de exportações apenas para importar combustíveis fósseis para geração de energia.
Soberania energética e justiça social
Mais do que eletrificação, os autores defendem um conceito central: soberania energética. Isso significa que as próprias comunidades devem controlar como a energia é produzida, distribuída e utilizada, rompendo a dependência de combustíveis importados e decisões externas.
O estudo alerta que projetos mal planejados, mesmo “verdes”, podem reproduzir desigualdades históricas, especialmente em territórios indígenas e comunidades tradicionais.
“Sem participação local, a transição energética corre o risco de se tornar apenas mais uma forma de exploração”, afirmam os pesquisadores.
A conclusão é direta: há energia suficiente nos oceanos para iluminar comunidades esquecidas, mas isso exige uma mudança profunda de prioridades.
Os autores defendem que bancos multilaterais e governos redirecionem recursos para projetos comunitários; a transição energética considere equidade social, não apenas redução de emissões; pequenos projetos locais recebam o mesmo apoio que megaprojetos industriais
“Levar energia à ‘última milha’ não é um problema técnico. É uma decisão política.”
Em um mundo que corre para descarbonizar sua matriz energética, o estudo deixa uma pergunta incômoda: a energia do futuro vai apenas tornar ricos mais sustentáveis — ou finalmente incluir quem sempre ficou no escuro?
Mais informações
Cisneros-Montemayor, AM, Hirsch, SL, Dillon, T. et al. Energia renovável oceânica para acesso equitativo à energia em uma Economia Azul. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-025-33690-4