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Quando a seca apaga a luz: como a crise hídrica ameaça países dependentes de hidrelétricas
Secas cada vez mais frequentes reduzem a geração de energia, pressionam cofres públicos e colocam em risco a segurança energética de mais de 50 países no mundo. Especialistas alertam: o problema já não é climático — é econômico e político.
Por Laercio Damasceno - 16/01/2026




A água que movimenta turbinas e ilumina cidades está se tornando um recurso cada vez mais incerto. Dados recentes indicam que mais de 50 países dependem da energia hidrelétrica para ao menos 25% de sua eletricidade, tornando-se altamente vulneráveis a períodos prolongados de seca. Em alguns deles, como Zâmbia, Noruega e Albânia, esse percentual ultrapassa 70% da matriz elétrica.

O impacto já é visível. Somente no primeiro semestre de 2023, a produção hidrelétrica global caiu 8,5%, segundo dados internacionais de energia. Em países específicos, a perda foi ainda mais severa: a China registrou queda superior a 20% em regiões fortemente afetadas por estiagens extremas.

Prejuízo bilionário e efeito dominó

A redução na geração não afeta apenas o fornecimento de energia — ela atinge diretamente as finanças públicas. Hidrelétricas exigem investimentos bilionários e contratos de longo prazo. Quando a água falta, a receita despenca, mas os custos permanecem.

Um estudo publicado na revista Nature Communications estima que a perda anual média de receita em países dependentes de hidrelétricas pode ultrapassar US$ 18 bilhões, considerando custos adicionais com importação de energia, acionamento de termelétricas e subsídios emergenciais.

“Quando a geração cai drasticamente, os governos precisam cobrir o rombo”, explica Rosa Isabella Cuppari, pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte e autora do estudo.

“Isso pressiona o orçamento público, aumenta déficits fiscais e pode até provocar rebaixamentos na nota de crédito dos países.”

Rosa Isabella Cuppari

Segundo a pesquisa, menos de 5% dos países de baixa e média renda possuem grau de investimento, o que torna qualquer choque climático um gatilho para crises econômicas mais amplas.

Energia mais cara, contas mais altas

Em períodos de seca, muitos países são obrigados a recorrer a fontes alternativas mais caras e poluentes. O custo da eletricidade pode subir rapidamente, afetando indústrias, serviços essenciais e consumidores finais.

“Há um efeito cascata”, afirma Gregory W. Characklis, especialista em gestão de riscos climáticos.

“Menos água significa menos energia barata. O resultado são tarifas mais altas, maior uso de combustíveis fósseis e aumento das emissões de carbono.”

Gregory W. Characklis,

Em cenários extremos, a escassez de energia leva a apagões programados, afetando hospitais, sistemas de abastecimento e atividades econômicas estratégicas.

Para enfrentar o problema, pesquisadores propõem uma solução inovadora: o compartilhamento global de riscos financeiros. A ideia é simples — países com regimes climáticos diferentes podem dividir os prejuízos por meio de mecanismos financeiros, reduzindo custos individuais.

O estudo mostra que a criação de um fundo internacional de proteção contra secas poderia reduzir os custos de gerenciamento de risco em até 62%, quando comparado à estratégia tradicional de manter grandes reservas financeiras nacionais.

“Secas raramente ocorrem ao mesmo tempo em todos os países”, explica Tamlin M. Pavelsky, coautor da pesquisa.

“Ao agrupar riscos, é possível proteger mais países gastando menos recursos.”

O futuro da energia depende da água — e das decisões políticas

Com as mudanças climáticas intensificando eventos extremos, a dependência excessiva de uma única fonte energética torna-se cada vez mais arriscada. Especialistas defendem diversificação da matriz elétrica, investimento em energias complementares e novas ferramentas financeiras para proteger economias vulneráveis.

“O desafio não é abandonar a hidrelétrica, mas torná-la parte de um sistema mais resiliente”, resume Cuppari.

“A água continuará sendo essencial — mas não pode ser o único pilar.”

Enquanto o mundo corre para cumprir metas climáticas, a pergunta que permanece é clara: quem vai pagar a conta quando a água faltar?


Mais informaçóes
Cuppari, RI, Pavelsky, TM & Characklis, GW. A agregação global de riscos mitiga o risco financeiro da seca em países dependentes de energia hidrelétrica. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67082-z

 

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