Publicado na revista Nature Conservation , o estudo revela que mais de 55% da vegetação nativa do Cerrado já foi convertida, principalmente para expansão agrícola nas últimas cinco décadas.

Distribuição percentual de espécies ameaçadas entre diferentes grupos biológicos no Cerrado. As informações foram adaptadas da Lista Vermelha da IUCN (2024), do portal Flora e Fungos do Brasil (2024), da lista nacional oficial de espécies ameaçadas do MMA (2022), de dados de vertebrados terrestres de Vieira-Alencar et al. (2025), de dados de peixes de água doce de Lima e Ribeiro (2011) e de dados de invertebrados da Embrapa (2023). Crédito: Walisson Kenedy-Siqueira, CC BY.
Uma nova e abrangente revisão, que sintetiza décadas de pesquisa, alerta que o Cerrado brasileiro — um ponto crítico de biodiversidade, conhecido por suas vastas florestas invertidas — enfrenta uma crise ecológica massiva e multifacetada.
Publicado na revista Nature Conservation , o estudo revela que mais de 55% da vegetação nativa do Cerrado já foi convertida, principalmente para expansão agrícola nas últimas cinco décadas.
O Cerrado é frequentemente ofuscado pela Amazônia, mas cobre 24% do território nacional brasileiro e sustenta as principais bacias hidrográficas e aquíferos do país. Uma de suas características mais singulares é a floresta invertida.
Armazenamento de carbono único e ameaças de incêndio
Diferentemente das florestas tropicais que armazenam biomassa em copas altas, o Cerrado armazena aproximadamente 90% do seu carbono no subsolo, por meio de sistemas radiculares profundos e extensos, o que o torna um regulador hídrico crucial e um sumidouro primário de carbono. No entanto, quando o ecossistema é degradado em decorrência do desmatamento, incêndios antropogênicos e uso inadequado da terra, essa enorme reserva de carbono é rapidamente liberada, comprometendo a estabilidade climática.
Uma ameaça crítica e frequentemente negligenciada é a banalização do fogo dentro do Ecodomínio. Embora algumas espécies estejam adaptadas aos ciclos naturais do fogo, quase todos os incêndios atuais são causados pela ação humana, resultando em degradação cumulativa.
"O Cerrado não é uma savana única, mas um mosaico interdependente de campos, savanas e florestas, cada um com estruturas, processos ecológicos e vulnerabilidades distintas", afirmam os autores.
Classificar o Cerrado como uma savana homogênea e resistente ao fogo ignora ecossistemas sensíveis, como fragmentos florestais, as veredas e os campos rupestres, que são profundamente vulneráveis à intensificação dos incêndios antropogênicos. À medida que esses habitats se degradam, as enormes reservas de carbono das florestas invertidas são liberadas, comprometendo a estabilidade climática e acelerando a crise ecológica da região.
Crise hídrica e seus impactos na agricultura
Apesar de sua imensa importância ecológica, a região enfrenta uma crise hídrica silenciosa que coloca em risco a biodiversidade, a economia e a resiliência climática do Brasil. A agricultura irrigada , a contaminação por agrotóxicos e a construção de barragens estão perturbando o equilíbrio hídrico natural, levando à redução da vazão dos rios e à degradação de formações de mangue essenciais para a regulação da água, como as veredas.
Paradoxalmente, os setores do agronegócio e da energia que impulsionam essa destruição são os que mais dependem desses recursos hídricos cada vez mais escassos, criando um ciclo perigoso de crescente insegurança hídrica.
Lacunas na conservação e recomendações de políticas
A revisão também destaca um padrão preocupante de extinções silenciosas. Embora o Cerrado abrigue milhares de plantas e animais endêmicos, existe uma enorme lacuna na forma como são monitorados, sendo as plantas e os invertebrados os mais ameaçados e, ao mesmo tempo, os menos estudados.
Uma descoberta crucial da pesquisa é que as proteções legais atuais são insuficientes para garantir a resiliência ecológica do Cerrado. Embora o Código Florestal brasileiro determine a proteção, os autores argumentam que os limites atuais, como a exigência de 20% de Reserva Legal, são inadequados para o complexo mosaico de campos, savanas e florestas do Cerrado.
Atualmente, apenas 8% do Ecodomínio está coberto por Unidades de Conservação, com menos de 3% sob proteção rigorosa. Um dos destaques do trabalho deles é preencher essa lacuna por meio da elaboração de um inventário detalhado e inédito de todas as 706 Unidades de Conservação do Cerrado, que servirá como recurso fundamental para pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
"A conservação eficaz exige o reconhecimento do Cerrado como um hotspot de biodiversidade, com instrumentos legais específicos capazes de proteger toda a sua heterogeneidade ecológica", afirmam os autores.
Para evitar o colapso total do ecossistema, os pesquisadores defendem reformas políticas urgentes, incluindo o aumento das exigências de "Reserva Legal" para pelo menos 35%, a transição para sistemas regenerativos e o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, cujo conhecimento tradicional mantém o equilíbrio do Cerrado há milênios.
Detalhes da publicação
Cássio Cardoso Pereira et al, Revisão da crise do Cerrado: destacando ameaças e fornecendo caminhos futuros para salvar o hotspot de biodiversidade do Brasil, Nature Conservation (2026). DOI: 10.3897/natureconservation.61.168273
Informações do periódico: Conservação da Natureza