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Florestas da Amazônia e dos Andes mudam em silêncio, aponta estudo internacional
A pesquisa analisou 406 parcelas permanentes de floresta, distribuídas por 10 países, monitoradas ao longo de quatro décadas, desde 1971. No total, foram avaliados cerca de 420 hectares de florestas tropicais, tornando o trabalho...
Por Laercio Damasceno - 23/01/2026


Foto: Wikipédia


Um dos maiores levantamentos já feitos sobre a diversidade de árvores na Amazônia e nos Andes revela um cenário complexo: a riqueza total de espécies permanece aparentemente estável, mas essa média esconde perdas significativas em regiões mais quentes e secas e ganhos em áreas montanhosas e menos fragmentadas. Os dados estão em um estudo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution, assinado por pesquisadores de universidades da América do Sul e da Europa.

A pesquisa analisou 406 parcelas permanentes de floresta, distribuídas por 10 países, monitoradas ao longo de quatro décadas, desde 1971. No total, foram avaliados cerca de 420 hectares de florestas tropicais, tornando o trabalho um dos mais abrangentes já realizados na região amazônico-andina.

“Quando olhamos o conjunto da Amazônia e dos Andes, a diversidade parece estável. Mas essa estabilidade mascara mudanças profundas em escala regional”, afirma o ecólogo florestal Fernando Fadrique, da Universidade de Liverpool, autor da pesquisa.

Onde as espécies estão aumentando — e onde estão desaparecendo

Segundo os pesquisadores, a diversidade de árvores aumentou no Norte dos Andes e na Amazônia Ocidental, regiões mais úmidas e menos sazonais. Já o Centro dos Andes, o Escudo das Guianas e a Amazônia Centro-Oriental registraram queda significativa no número de espécies.

Metade das parcelas analisadas apresentou redução de riqueza, enquanto 146 tiveram aumento. As variações chegaram a quedas de até 1,95% ao ano ou ganhos de 3,3% ao ano, dependendo da região.

Os autores identificaram um padrão claro: florestas mais quentes, secas e com maior sazonalidade de chuvas tendem a perder espécies, enquanto áreas em maior altitude e cercadas por florestas contínuas apresentam ganhos.

Clima mais quente, menos árvores

O estudo mostra que mais de 90% das áreas analisadas aqueceram nas últimas décadas, com uma taxa média de 0,028 °C por ano. Na Amazônia Centro-Oriental e no sul da região amazônica, o ritmo de aquecimento foi ainda maior, chegando a 0,05 °C por ano, associado a perdas mais rápidas de espécies.

“Florestas já quentes estão próximas do limite fisiológico das árvores. Pequenos aumentos de temperatura podem causar mortalidade e reduzir a diversidade”, explica Fadrique.


Além da temperatura, a irregularidade das chuvas apareceu como um dos fatores mais críticos. Florestas que se tornaram mais sazonais — com longos períodos secos — perderam diversidade de forma consistente.

Outro fator decisivo é a integridade da paisagem, medida pela quantidade de floresta preservada num raio de 50 quilômetros ao redor das parcelas. Áreas mais fragmentadas, comuns no sul e leste da Amazônia, apresentaram maior mortalidade de árvores e menos recrutamento de novas espécies.

“Manter grandes áreas contínuas de floresta é essencial para que novas espécies consigam se estabelecer”, destacam os autores no estudo.

Andes como refúgio climático

O trabalho indica que os Andes do Norte podem funcionar como um refúgio climático, recebendo espécies que migram de áreas mais quentes da Amazônia. Esse processo, conhecido como termofilização, ocorre quando árvores adaptadas ao calor avançam para altitudes maiores à medida que o clima esquenta.

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Pesquisadores alertam, no entanto, que esse ganho pode ser temporário.

“Esses aumentos podem refletir um atraso nas extinções. Espécies adaptadas ao frio ainda persistem, mas podem desaparecer no futuro”, afirmam os cientistas.

Para os autores, os resultados reforçam a urgência de políticas de conservação em larga escala, que considerem as diferenças regionais e os efeitos combinados do clima e do desmatamento.

“Preservar a integridade dos ecossistemas amazônicos e andinos não é apenas uma questão local, mas uma estratégia global para manter a biodiversidade diante das mudanças climáticas”, conclui o estudo 


Mais sobre o artigo
Fadrique, B., Costa, F., Cuesta, F. et al. A diversidade de árvores está mudando nas florestas tropicais andinas e amazônicas em resposta às mudanças climáticas globais. Nat Ecol Evol (2026). https://doi.org/10.1038/s41559-025-02956-5

 

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