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Metano invisível, impacto gigantesco
Estudo mostra que poucas fontes persistentes respondem por até metade das emissões em uma das maiores regiões petrolíferas do mundo.
Por Laercio Damasceno - 24/01/2026


(Imagem: Matt Gush/Shutterstock)


Um número pequeno de instalações da indústria de petróleo e gás é responsável por uma fatia desproporcional da poluição climática mais potente que o dióxido de carbono. É o que revela um amplo estudo internacional publicado na Nature Communications, que mapeou emissões de metano na Bacia do Permiano, no Novo México (EUA), uma das áreas de maior produção de óleo e gás do planeta.

A pesquisa identificou mais de 500 “superemissores” — fontes que liberam acima de 100 quilos de metano por hora. Embora representem menos de 1% da infraestrutura analisada, essas fontes responderam por cerca de 50% de todo o metano emitido na região, com variação estimada entre 37% e 73%, a depender do método de cálculo.

“Um conjunto muito pequeno de instalações tem um impacto enorme no total de emissões”, afirma Daniel H. Cusworth, pesquisador da Carbon Mapper e autor principal do estudo. “Isso significa que há oportunidades claras e imediatas de mitigação, se essas fontes forem identificadas e corrigidas.”

Um retrato inédito, do céu

Entre abril e maio de 2024, os cientistas realizaram um sobrevoo intensivo da região com sensores aerotransportados de alta precisão, capazes de detectar plumas invisíveis de metano. Foram monitorados cerca de 276 mil poços, 1.100 estações de compressão, 175 plantas de processamento e 27 mil quilômetros de dutos.

O levantamento, segundo os autores, resultou em mais de 200 mil observações individuais — uma escala inédita para estudos desse tipo. “Para encontrar eventos raros, é preciso olhar para muita coisa, muitas vezes”, explica Cusworth. “Superemissões não são frequentes, mas quando acontecem, fazem toda a diferença.”

Horas, dias — e até semanas

Um dos principais avanços do estudo está na estimativa da duração dessas superemissões, um fator crucial para inventários oficiais e políticas públicas. A análise mostra que a maioria dos eventos dura pelo menos duas horas, contrariando a ideia de que seriam sempre episódios rápidos e pontuais.

Mais alarmante: um subconjunto de 18 fontes permaneceu emitindo metano durante todo o período da campanha, por até três semanas seguidas. Essas fontes persistentes, segundo os autores, representam o maior potencial de redução imediata de emissões.

“Eliminar apenas essas emissões contínuas teria um efeito climático significativo em curto prazo”, afirma Riley Duren, coautor do estudo e também da Carbon Mapper.


Ao cruzar imagens aéreas com bancos de dados industriais, os pesquisadores identificaram os principais tipos de infraestrutura associados às emissões. Estações de compressão lideram o ranking, seguidas por tanques de armazenamento, poços e dutos.

As emissões ligadas a compressores e pipelines, em especial, mostraram-se mais persistentes. Já as emissões em áreas de poços tendem a ser mais intermitentes, muitas vezes associadas a operações específicas ou falhas pontuais.

“Isso sugere que parte do problema não está em eventos inevitáveis, mas em ineficiências operacionais ou falhas de manutenção”, observa Gregory Asner, da Universidade Estadual do Arizona, outro autor do trabalho.

Um gás pequeno, um efeito enorme

O metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento global observado desde a Revolução Industrial, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Embora permaneça menos tempo na atmosfera do que o CO2, seu poder de aquecimento é mais de 80 vezes maior em um horizonte de 20 anos.

Por isso, especialistas apontam o combate às emissões de metano como uma das formas mais rápidas de frear o avanço das mudanças climáticas. “Reduzir metano agora tem efeito quase imediato na temperatura global”, diz Duren.

O estudo chega em um momento-chave. Em 2024, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) atualizou as regras do Programa de Relato de Gases de Efeito Estufa, passando a exigir que empresas informem grandes liberações de metano acima de 100 kg por hora.

Iniciativas internacionais, como a Oil and Gas Methane Partnership (OGMP 2.0) da ONU, também pressionam por medições mais precisas e transparentes. “Sem entender a duração real das emissões, os relatórios podem subestimar ou superestimar o problema”, alerta Cusworth.


Imagem da internet

Embora o foco seja o Permiano, os autores afirmam que os resultados têm implicações globais. Estudos anteriores já identificaram superemissores em regiões produtoras da Argélia, do Oriente Médio e da América do Sul. O padrão se repete: poucas fontes, grande impacto.

“A mensagem é clara”, conclui Cusworth. “Com monitoramento frequente e tecnologia adequada, é possível identificar rapidamente onde agir. E agir nessas poucas fontes pode render ganhos climáticos enormes.”


Para cientistas e formuladores de políticas, o recado é direto: no combate ao aquecimento global, às vezes menos é mais — desde que se saiba exatamente onde mirar.


Mais sobre o artigo
Cusworth, DH, Bon, DM, Varon, DJ et al. Duração de fontes de metano de petróleo e gás com superemissão. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68804-7

 

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