A Caatinga esvaziada: estudo revela colapso silencioso dos grandes mamíferos do semiárido
Levantamento inédito mostra que 90% da Caatinga perdeu entre 20% e 80% de suas espécies de mamíferos de médio e grande porte desde o período pré-colonial; caça e avanço agropecuário são os principais vetores do declínio.

Onça-parda - imagem divulgação
A Caatinga, maior floresta tropical seca da América do Sul e um dos biomas mais singulares do planeta, vive um processo acelerado de esvaziamento da fauna. Um estudo publicado na revista científica PLOS One aponta que nove em cada dez áreas do bioma perderam entre 20% e 80% das espécies de mamíferos de médio e grande porte ao longo dos últimos cinco séculos. Em muitos trechos, a paisagem permanece de pé — mas sem os animais que sustentam seu funcionamento ecológico.
A pesquisa, liderada pela bióloga Nathália Fernandes Canassa, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em parceria com Carlos Peres, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), analisou dados de 51 espécies em 73 assembléias de mamíferos distribuídas por toda a Caatinga, área que cobre cerca de 862 mil km² do Nordeste brasileiro. O diagnóstico é contundente: a biomassa média de mamíferos caiu 77% e 37 das 51 espécies perderam mais da metade de sua área de ocorrência original.
“Estamos diante de um processo de defaunação em larga escala, que compromete funções ecológicas essenciais, como dispersão de sementes, controle de presas e ciclagem de nutrientes”, afirma Canassa. Segundo ela, a Caatinga se tornou um exemplo extremo do chamado fenômeno da floresta vazia — ecossistemas aparentemente intactos, mas biologicamente empobrecidos.
Da abundância ao silêncio
Para reconstruir o passado, os pesquisadores compararam a distribuição potencial das espécies no período pré-colonial (por volta de 1500) com registros contemporâneos, usando modelos de distribuição de espécies e dados de campo. O contraste revela um colapso progressivo iniciado com a colonização portuguesa, intensificado pela expansão da pecuária e pela caça de subsistência e comercial.

Tatu - Imagem reprodução
Espécies emblemáticas como a anta (Tapirus terrestris), o queixada (Tayassu pecari) e o tatu-canastra (Priodontes maximus) desapareceram de mais de 80% de suas áreas históricas. O macaco-prego-de-peito-amarelo (Sapajus xanthosternos) e o tatu-canastra perderam cerca de 95% de sua distribuição na Caatinga. Mesmo espécies consideradas resistentes, como o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), sofreram extensas extinções locais.
“O padrão é claro: os maiores animais foram os primeiros a desaparecer”, explica Carlos Peres. “Isso reduz drasticamente o tamanho médio dos indivíduos nas comunidades e provoca um efeito cascata sobre todo o ecossistema.”
Agropecuária, caça e proteção insuficiente
O estudo identificou a pecuária extensiva, a conversão de áreas naturais em lavouras e a alta densidade de rebanhos como os principais motores da perda de fauna. Hoje, cerca de 60% da Caatinga é ocupada por atividades agropecuárias. A caça — ainda disseminada em regiões marcadas por pobreza rural e insegurança alimentar — agrava o quadro.
Em sentido oposto, áreas protegidas funcionam como amortecedores do colapso. Unidades de conservação de proteção integral retêm, em média, 45% da biomassa original de mamíferos — ainda assim, menos da metade do que existia historicamente. No total, apenas cerca de 9% da Caatinga conta com algum tipo de proteção, o que a torna o segundo bioma menos protegido do país.
“Mesmo os parques nacionais perderam espécies antes de sua criação”, observa Peres. “Isso mostra que a proteção chegou tarde e segue insuficiente.”
Impacto público e risco futuro
A perda de mamíferos não é apenas um problema ambiental. Ela afeta diretamente serviços ecossistêmicos ligados à produção de alimentos, à estabilidade do solo e à resiliência frente às mudanças climáticas. Em um bioma onde 94% do território já está sob risco de desertificação, segundo dados citados no estudo, a defaunação amplia a vulnerabilidade social e econômica da região.
Os autores defendem a ampliação urgente de áreas de proteção integral, investimentos em fiscalização, alternativas à caça de subsistência e programas de rewilding — reintrodução de espécies-chave em áreas onde foram extintas. Sem isso, alertam, a Caatinga tende a se tornar um bioma funcionalmente empobrecido, incapaz de sustentar tanto sua biodiversidade quanto as populações humanas que dela dependem.
“A Caatinga que conhecemos hoje é apenas uma sombra do que já foi”, diz Canassa. “Ainda há tempo de evitar perdas irreversíveis, mas a janela está se fechando rapidamente.”
Mais sobre o artigo
Canassa NF, Peres CA, Machado CCC, Araujo HFP (2025) Reconstruindo o grau de defaunação de mamíferos em toda a Caatinga - a maior região de floresta tropical seca da América do Sul. PLoS One 20(11): e0336562. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0336562