Domínio público
Depois de décadas de avanços quase contínuos, a expectativa de vida na Europa Ocidental entrou em marcha lenta. Um amplo estudo publicado na revista Nature Communications mostra que, entre 2005 e 2019, os ganhos de longevidade caíram quase pela metade em grande parte do continente, sobretudo fora das regiões mais ricas e estruturadas. Ainda assim, os dados indicam que o limite biológico da vida humana não foi atingido — ao menos não nas áreas que seguem na vanguarda da saúde pública.
A pesquisa analisou 450 regiões subnacionais de 13 países da Europa Ocidental, cobrindo cerca de 400 milhões de pessoas, no período de 1992 a 2019, imediatamente anterior à pandemia de Covid-19. Trata-se de uma das mais detalhadas radiografias já feitas sobre a evolução da longevidade no continente.
“Os ganhos de expectativa de vida não desapareceram, mas se tornaram mais lentos e mais desiguais”, afirma o demógrafo Pavel Grigoriev, do Instituto Federal de Pesquisa Populacional da Alemanha (BiB), autor correspondente do estudo.
“O que observamos é uma divergência crescente entre regiões que continuam avançando e outras que perderam fôlego.”
Duas Europas, dois ritmos
Entre 1992 e 2005, a Europa viveu o que os autores chamam de “era dourada” da longevidade. Nesse período, a expectativa de vida aumentava, em média, três meses por ano para homens e dois meses e meio para mulheres, com forte convergência regional: áreas historicamente mais pobres avançavam mais rápido do que as líderes.
A partir de 2005, o cenário mudou. Até 2019, os ganhos médios caíram para cerca de dois meses ao ano entre homens e apenas um mês entre mulheres, enquanto as desigualdades regionais voltaram a crescer. Em várias áreas da Alemanha, do Reino Unido e da Bélgica, o avanço praticamente estagnou.
Já as chamadas regiões de vanguarda — como o norte da Itália, partes da Espanha, da Suíça e áreas metropolitanas como Londres e Paris — mantiveram um ritmo estável de progresso. “Quando observamos apenas médias nacionais, parece que a Europa está chegando a um limite. Mas, ao olhar para as regiões líderes, vemos que a longevidade continua se expandindo”, explica Florian Bonnet, do Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França (Ined).
O estudo aponta um fator-chave para a desaceleração: o aumento ou a estagnação da mortalidade entre 55 e 74 anos, faixa etária crucial para os ganhos de expectativa de vida. Nos anos 1990, a mortalidade nesse grupo caía cerca de 2% ao ano; na década de 2010, a redução ficou abaixo de 1%, e em algumas regiões houve piora.
Segundo os autores, esse fenômeno está ligado a doenças cardiovasculares, tabagismo tardio, obesidade, consumo de álcool e aos efeitos acumulados de crises econômicas e políticas de austeridade após 2008. “A longevidade não depende apenas de inovação médica, mas de políticas sociais sustentadas ao longo do tempo”, afirma France Meslé, também do Ined.
Debate antigo, alerta novo
A discussão sobre limites da vida humana atravessa décadas. Em 2002, o demógrafo James Vaupel mostrou que a expectativa de vida máxima vinha crescendo de forma linear havia mais de um século. Mais recentemente, estudos passaram a questionar se esse avanço seria sustentável no século 21.
O novo trabalho recoloca o debate em outros termos. “Não é que a biologia esteja impondo um teto imediato”, diz Grigoriev. “O problema é social, regional e político. Onde os sistemas de saúde funcionam melhor e as condições de vida são mais favoráveis, a longevidade segue avançando.”
Os resultados têm implicações diretas para políticas públicas. Com o envelhecimento acelerado da população europeia, a estagnação da expectativa de vida pode pressionar sistemas de saúde, previdência e assistência social. Ao mesmo tempo, o estudo sugere que investimentos direcionados, especialmente em regiões que ficaram para trás, podem retomar parte do terreno perdido.
“A história mostra que já subestimamos antes a capacidade humana de viver mais”, afirma Bonnet. “A questão central agora não é se podemos avançar, mas quem vai avançar — e quem ficará para trás.”
A mensagem final é clara: a longevidade na Europa não chegou ao fim da linha, mas o caminho à frente será menos automático, mais desigual e profundamente dependente das escolhas feitas hoje.